Opinião

Quando a comunicação falha, a organização falha

Mário Pinto

Hoje, as organizações não falham apenas por insuficiências financeiras, erros estratégicos ou desafios conjunturais; falham, sobretudo, por rupturas silenciosas no seu sistema de comunicação. A história recente das instituições demonstra que o seu declínio raramente começa no momento em que a queda se torna visível. O colapso começa muito antes, quando o propósito deixa de ser compreendido, quando a coerência interna se dissolve e quando o diálogo desaparece como prática estruturante. A comunicação institucional, entendida como o sistema nervoso que conecta visão, cultura, processos e comportamento, tem sido tratada como ferramenta e não como fundamento. E uma organização que transforma o seu sistema nervoso em mero instrumento administrativo prepara o terreno para a sua própria falência.

É por isso que a queda das organizações começa no seu propósito comunicacional. Como referia Drucker (1995), o primeiro papel de qualquer organização é clarificar o seu propósito e comunicá-lo com consistência. Contudo, numa época em que muitas instituições se contentam com slogans, postagem nas redes sociais e frases de efeito, mas não constroem narrativas mobilizadoras, o propósito perde densidade e o discurso institucional torna-se vazio. Há uma diferença profunda entre dizer e comunicar. Dizer produz palavras; comunicar produz sentido. Quando as organizações insistem em discursos descolados da sua essência, criam um vazio identitário que, mais cedo ou mais tarde, assume a forma de crise.

Esse vazio manifesta-se sobretudo na perda de coerência. A comunicação deveria alinhar visão, estratégia, cultura e acção, mas o que se observa em muitas instituições é uma contradição entre o que é dito e o que é praticado. A incoerência não é apenas um problema ético; é, como sublinha Cornelissen (2017), uma ameaça estrutural à reputação. As pessoas confiam em organizações coerentes, não naquelas que moldam narrativas sem sustento na prática. Quando a liderança proclama valores que não encarna, quando a cultura interna não reflecte o discurso público, e quando os colaboradores deixam de se reconhecer na narrativa institucional, instala-se uma erosão que nenhum departamento de comunicação consegue dissimular.

Outro elemento determinante no processo de falência organizacional é a ausência de escuta. Grande parte das instituições comunica para informar, mas não para dialogar. Publicam, anunciam, justificam, mas dificilmente escutam. Onde não há espaço para o diálogo, resta apenas a imposição estratégica. O problema é que organizações que impõem discursos sem escuta perdem contacto com a realidade e passam a operar num plano imaginário, criando diagnósticos falsos e soluções irrelevantes. A falta de escuta transforma críticas em ameaças, públicos em obstáculos e reclamações em afrontas. Essa impermeabilidade é uma das razões mais profundas pelas quais as organizações perdem legitimidade.

“O problema é que organizações que impõem discursos sem escuta perdem contacto com a realidade e passam a operar num plano imaginário, criando diagnósticos falsos e soluções irrelevantes.”

A cultura organizacional, por sua vez, é o terreno onde a comunicação se revela verdadeira ou ilusória. Schein (2010) lembra que cultura é um conjunto de pressupostos partilhados que orientam o comportamento interno. Quando a cultura contradiz o discurso, nasce a dissonância comunicacional. Não existe comunicação externa suficientemente robusta que compense uma cultura interna tóxica, fragmentada ou descrente. Organizações que comunicam valores de integridade, mas normalizam práticas de abuso ou negligência interna; que defendem transparência, mas ocultam informação aos próprios colaboradores; que proclamam inovação, mas punem o pensamento divergente, tais instituições estão fadadas ao colapso. A cultura, quando não dialoga com a narrativa pública, corrói silenciosamente a reputação.

No cerne de todas estas fragilidades está, finalmente, o problema ético. Muitas organizações tratam a comunicação como um instrumento de gestão de imagem, uma ferramenta para parecer e não para ser. Transformam-na num mecanismo de protecção reputacional e não num compromisso com a verdade institucional. Bauman (2003) assinala que, num mundo líquido, a confiança é o último recurso sólido. Quando a comunicação se torna artifício e não valor, a confiança extingue-se. E nenhuma organização sobrevive sem confiança, por mais recursos, história ou influência que detenha.

Por tudo isto, as organizações vão falhar não porque são estruturalmente frágeis, mas porque descuram a dimensão comunicacional que as sustenta. Falham quando perdem o sentido que orienta as suas narrativas, quando deixam de ser coerentes com aquilo que dizem, quando abandonam o diálogo, quando negligenciam a cultura e quando instrumentalizam a comunicação em vez de a assumirem como compromisso ético. Mas é igualmente verdade que as organizações não precisam falhar. Podem reconstruir a sua legitimidade se assumirem a comunicação institucional como espinha dorsal da sua identidade, como espaço de escuta, como narrativa de coerência, como um braço estratégico e como expressão de verdade. A longevidade institucional não pertence às organizações que mais falam, mas às que comunicam e se posicionam de forma verdadeira e estratégica.

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