Há datas que celebram instituições. E há datas que celebram aquilo que somos.
Os 30 anos da CPLP são, para mim, muito mais do que o aniversário de uma organização internacional. São a celebração de uma história partilhada, de uma língua que nos une, de afectos que atravessam oceanos e de uma identidade que se constrói ( ou se deveria construir) todos os dias entre continentes, culturas e gerações.
Assumo-me profundamente lusófona. Já o tenho dito.
Nasci em Moçambique, terra de encontros e de horizontes largos. Trago comigo raízes de Goa, esse fascinante cruzamento entre a Índia e o universo da língua portuguesa. Vivo em Portugal e um pouco em cada um dos países africanos de língua oficial portuguesa, criando laços e historias comuns. Por isso, quando penso na CPLP, não penso apenas em tratados, cimeiras ou cooperação institucional. Penso em pessoas.
Penso nos jovens empreendedores angolanos que acreditam que podem transformar os seus países através da inovação. Penso na criatividade vibrante de Cabo Verde, de Cesária Évora ao Vozinha. Penso na resiliência da Guiné-Bissau e da Guiné Equatorial. Penso na energia de São Tomé e Príncipe e anseio tanto pelo cacau como pelo petróleo. Penso na coragem e no potencial de Moçambique, nha terra. Penso na riqueza cultural de Timor-Leste. Penso na herança única de Goa, que continua a guardar, no seu património e na sua memória, uma ligação especial ao universo lusófono. E penso em Portugal como ponte, lugar de encontro e espaço de diálogo.
A língua portuguesa é, como explicar, um fio invisível que costura todas estas histórias numa manta gigante que ainda não consegue proteger-nos do frio. E faz frio em África. Não se iludam com as temperaturas altas, a temperatura humana é muito maior.
Mas a lusofonia não é apenas uma língua. É uma forma de reconhecer no outro algo de familiar, mesmo quando os sotaques mudam, as geografias são distantes ou as realidades económicas são diferentes. É a capacidade de construir pontes onde outros veem fronteiras. Mas seria um erro celebrar esta data sem reconhecer que a promessa da lusofonia continua por concretizar.
Trinta anos depois, ainda encontramos demasiadas barreiras à mobilidade entre cidadãos dos países lusófonos. Ainda existem obstáculos burocráticos que dificultam a circulação de talento, conhecimento e investimento. Ainda há um défice evidente de integração económica. Ainda conhecemos pouco as oportunidades uns dos outros. Continuamos a olhar mais para fora do espaço lusófono do que para dentro dele. Não basta partilhar uma língua. É preciso transformar essa língua numa vantagem competitiva. É precisamente aqui que reside o desafio da próxima década.
Precisamos de uma CPLP mais próxima dos cidadãos e menos centrada nas instituições. Mais orientada para os jovens, para o empreendedorismo, para a inovação e para a criação de riqueza sustentável. Precisamos de construir um verdadeiro espaço lusófono de oportunidades. Como jornalista, tenho tido o privilégio de acompanhar histórias extraordinárias de liderança em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe e Portugal. Histórias de pessoas que não esperam pelas circunstâncias ideais para agir.
Nós, Forbes África Lusófona, também não esperámos. Ainda esta semana, o Doing Business Angola foi um novo abanão à classe empresarial portuguesa e um call to action poderosíssimo feito por governantes e privados. Onde outros veem fronteiras, nós vemos pontes.
E por isso, em consciência, a maior crítica que possamos fazer à CPLP, ao completar 30 anos, seja esta: ainda não conseguiu transformar plenamente o enorme capital cultural da lusofonia num capital de desenvolvimento partilhado.
Critico, porque acredito. Exijo mais, porque sei que é possível fazer melhor. Cá estarei, cá estaremos, para construir a próxima década. Quem mais?





