Angola abre mercado de dívida pública a investidores internacionais e procura aprofundar liquidez do mercado

Angola está a avançar para uma nova fase de internacionalização do mercado financeiro, com a abertura gradual do mercado local de títulos da Dívida Pública aos investidores não residentes, numa estratégia que pretende aumentar a liquidez, diversificar a base de investidores e aprofundar o mercado secundário de títulos emitidos em moeda nacional. A medida foi…
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Ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, afirmou que a entrada de investidores estrangeiros no mercado local de títulos da dívida pública representa uma nova etapa no desenvolvimento do sistema financeiro angolano.
Economia Negócios

Angola está a avançar para uma nova fase de internacionalização do mercado financeiro, com a abertura gradual do mercado local de títulos da Dívida Pública aos investidores não residentes, numa estratégia que pretende aumentar a liquidez, diversificar a base de investidores e aprofundar o mercado secundário de títulos emitidos em moeda nacional.

A medida foi destacada pela Ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, durante a abertura do Global Investors Day, em Luanda, encontro que reuniu representantes de instituições financeiras, investidores, parceiros de desenvolvimento, reguladores, operadores do mercado e profissionais da comunicação social.

Para a governante, a entrada de investidores estrangeiros no mercado local não constitui uma iniciativa isolada, mas o resultado de um processo de reformas institucionais e de construção gradual das infra-estruturas necessárias ao funcionamento de um mercado financeiro mais desenvolvido.

Vera Daves de Sousa considerou o momento como um marco na evolução do mercado financeiro angolano, destacando o percurso realizado desde a criação das principais instituições responsáveis pela regulação, gestão da dívida e funcionamento do mercado de capitais.

Segundo a ministra, a Comissão do Mercado de Capitais (CMC) foi criada em 2005 e ganhou capacidade efectiva de actuação nos anos seguintes, particularmente a partir de 2012. Já em 2010 foi criada a Unidade de Gestão da Dívida Pública, estrutura que reforçou a capacidade do Estado para planear e gerir as suas obrigações financeiras.

A governante sublinhou que a construção de um mercado financeiro funcional não depende exclusivamente da criação de instituições. Exige igualmente regras claras, plataformas de negociação eficientes, intermediários preparados e confiança por parte dos investidores.

Foi neste contexto que, ao longo dos últimos anos, Angola desenvolveu as infra-estruturas de negociação da BODIVA, ampliou os instrumentos financeiros disponíveis e aumentou gradualmente o número de participantes no mercado.

BODIVA movimenta mais de 5,8 biliões Kz

Os resultados da actividade do mercado demonstram, segundo a ministra, uma evolução significativa da negociação de activos financeiros em Angola.

Em 2025, foram transaccionados cerca de 5,7 biliões de kwanzas nos mercados da BODIVA, enquanto, até Agosto de 2026, o volume negociado já tinha ultrapassado 5,8 biliões de kwanzas.

O crescimento do volume de negociação é apontado pelo Ministério das Finanças como um dos sinais da expansão da actividade do mercado de capitais e da existência de uma maior base de participantes.

Vera Daves de Sousa reconheceu, contudo, que o desenvolvimento de um mercado financeiro não deve ser medido apenas pelo volume global das transacções.

A profundidade do mercado depende também da regularidade das operações, do nível de liquidez e da confiança dos investidores, factores considerados essenciais para garantir uma maior capacidade de absorção de recursos e facilitar a entrada de novos participantes.

Foi com base nesta evolução que o Executivo decidiu avançar para uma maior abertura aos investidores internacionais, permitindo uma participação mais ampla dos investidores não residentes nos títulos da Dívida Pública emitidos em moeda nacional.

A intenção é, desta forma, aumentar o universo de investidores interessados nos activos financeiros angolanos e criar condições para uma maior integração do mercado doméstico nos circuitos financeiros internacionais.

Crescimento económico reforça contexto para abertura

A abertura do mercado ocorre num período em que a economia angolana apresenta uma evolução acima das expectativas inicialmente consideradas, segundo os dados apresentados pela titular das Finanças.

De acordo com informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o Produto Interno Bruto registou um crescimento real de 8,74% no segundo trimestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025.

Com este desempenho, o crescimento económico acumulado no primeiro semestre de 2026 atingiu 7,15%.

O comportamento da economia foi sustentado por desempenhos positivos tanto do sector petrolífero como do sector não petrolífero.

A actividade petrolífera registou uma expansão de 5,64%, enquanto o sector não petrolífero apresentou um crescimento de 9,24%.

Para o Ministério das Finanças, a evolução representa um dos elementos que contribuem para melhorar a percepção sobre os fundamentos da economia angolana no momento em que o País procura atrair novos investidores para o mercado doméstico.

A maior contribuição do sector não petrolífero ganha particular relevância num contexto de esforços para diversificar a economia e reduzir a dependência histórica da actividade petrolífera.

Reservas internacionais atingem 15,3 mil milhões USD

No sector externo, Vera Daves de Sousa destacou também a melhoria registada nas condições de liquidez em moeda estrangeira.

As Reservas Internacionais Líquidas (RIL) atingiram aproximadamente 15,3 mil milhões de dólares em Agosto de 2026, contra cerca de 14,9 mil milhões de dólares no final do primeiro semestre.

O aumento das reservas permitiu elevar a cobertura para aproximadamente 6,6 meses de importações de bens e serviços, indicador que contribui para a avaliação das condições externas da economia.

A melhoria da posição externa ocorre paralelamente à redução da inflação, outro dos indicadores apresentados pela ministra como sinal de estabilização da economia.

A inflação homóloga caiu de 18,88% em Agosto de 2025 para 8,78% em Agosto de 2026, atingindo o nível mais baixo dos últimos anos.

A desaceleração dos preços constitui, segundo a ministra, uma das bases que permitiram às autoridades monetárias iniciar um ciclo de flexibilização da política monetária.

Taxa BNA cai para 14,75%

A redução das pressões inflacionistas foi acompanhada por sucessivas reduções da taxa de referência do Banco Nacional de Angola.

Em Janeiro de 2026, a Taxa BNA encontrava-se em 17,5%. Em Julho, foi reduzida para 15,75%, antes de passar para 14,75% em Setembro.

A trajectória representa uma redução acumulada de 2,75 pontos percentuais desde o início do ano.

Segundo Vera Daves de Sousa, esta evolução reflecte uma maior confiança das autoridades monetárias na trajectória descendente da inflação e na estabilidade dos principais fundamentos da economia.

A descida da taxa de referência teve igualmente reflexos no comportamento das taxas dos títulos do Tesouro, com redução das taxas ao longo da curva de rendimentos.

Títulos do Tesouro registam redução de 250 pontos base

Entre os instrumentos destacados pela ministra estão as Obrigações do Tesouro Não Reajustáveis (OTNR).

As OTNR com maturidade de sete anos registaram uma redução da taxa de 17,75% para 15,25%, enquanto os títulos com maturidade de cinco anos passaram de 17,25% para 14,75%.

Nos dois casos, a redução foi de 250 pontos base.

A evolução das taxas dos títulos é relevante para o mercado de dívida pública porque influencia as condições de financiamento do Estado e, simultaneamente, a remuneração oferecida aos investidores.

A redução das taxas ocorre num momento em que Angola procura ampliar a participação de investidores internacionais no mercado doméstico, criando um novo universo de potenciais compradores para os títulos emitidos em moeda nacional.

Diversificação da base de investidores

A entrada de investidores não residentes é apresentada pelo Ministério das Finanças como uma componente estratégica do processo de desenvolvimento do mercado de capitais.

Entre os principais objectivos estão o aumento da liquidez, o aprofundamento do mercado secundário e a diversificação da base de investidores.

Uma base de investidores mais ampla pode permitir que o mercado tenha maior capacidade de absorção das emissões e uma maior dinâmica de negociação dos títulos depois da sua emissão.

Para as autoridades, a presença de investidores internacionais poderá também contribuir para aumentar a visibilidade do mercado financeiro angolano e reforçar a sua ligação aos mercados internacionais.

O processo deverá ocorrer sobre uma estrutura institucional que, segundo Vera Daves de Sousa, foi construída ao longo de vários anos, através do reforço das instituições, da regulamentação e das plataformas de negociação.

Global Investors Day aproxima Angola dos investidores

O Global Investors Day foi apresentado como uma oportunidade para aproximar os investidores internacionais das instituições angolanas e permitir uma compreensão mais aprofundada sobre a economia, o sistema financeiro e as oportunidades existentes no País.

A iniciativa contou com a participação de representantes do Tesouro dos Estados Unidos da América, do Banco Nacional de Angola, da Comissão do Mercado de Capitais, da BODIVA, do Standard Bank e da Administração Geral Tributária, além do Banco de Poupança e Crédito, que acolheu o encontro.

A ministra agradeceu o envolvimento das instituições e considerou a participação dos diferentes actores fundamental para concretizar a abertura do mercado de dívida pública aos investidores estrangeiros.

Vera Daves de Sousa destacou ainda o papel do BPC enquanto anfitrião da iniciativa, reconhecendo o apoio prestado à realização do encontro.

Para além da apresentação dos indicadores económicos, o encontro pretendeu proporcionar aos investidores uma visão mais detalhada sobre os fundamentos macroeconómicos do País, as reformas implementadas e as perspectivas para os próximos anos.

A expectativa do Governo é que os participantes possam compreender melhor o funcionamento do mercado angolano, avaliar as oportunidades existentes e reforçar a confiança nas instituições responsáveis pela gestão e regulação do sistema financeiro.

Angola procura consolidar nova fase do mercado financeiro

A abertura aos investidores não residentes ocorre, assim, num momento de transformação do mercado de capitais angolano.

Depois de anos dedicados à construção das instituições, regras e infra-estruturas necessárias ao funcionamento do mercado, o País procura agora aumentar a sua integração com os mercados financeiros internacionais.

A estratégia combina o desenvolvimento das plataformas de negociação, a diversificação dos instrumentos financeiros, a melhoria dos indicadores macroeconómicos e a criação de mecanismos para facilitar a participação de investidores internacionais.

Na perspectiva do Ministério das Finanças, a maior participação de investidores estrangeiros poderá contribuir para um mercado mais líquido e diversificado, embora a consolidação desta etapa dependa da manutenção da confiança, da previsibilidade das regras e da continuidade do processo de desenvolvimento das infra-estruturas financeiras.

A evolução dos indicadores económicos constitui, neste quadro, uma componente importante da estratégia. O crescimento de 7,15% no primeiro semestre, a expansão de 9,24% do sector não petrolífero, a redução da inflação para 8,78%, o aumento das reservas internacionais para 15,3 mil milhões de dólares e a redução da Taxa BNA para 14,75% foram apresentados como elementos que caracterizam o actual contexto económico.

Ao mesmo tempo, o volume de negociação da BODIVA, superior a 5,8 biliões de kwanzas até Agosto, demonstra a dimensão alcançada pelo mercado doméstico de capitais.

Com a entrada de investidores não residentes, Angola pretende acrescentar uma nova dimensão a esse processo, procurando transformar a maior abertura internacional em mais liquidez, maior profundidade do mercado secundário e uma base de investidores mais diversificada.

Para Vera Daves de Sousa, o Global Investors Day simboliza precisamente essa mudança de etapa.

“Hoje, em 2026, damos mais um passo nesta trajectória”, afirmou a ministra, defendendo uma nova fase de desenvolvimento do mercado, orientada para o alargamento da base de investidores, o aprofundamento da liquidez e o reforço da integração internacional.

A governante concluiu a sua intervenção com uma mensagem dirigida aos investidores presentes em Luanda, dando-lhes as boas-vindas ao mercado de dívida pública angolano e destacando a importância da sua participação no processo de internacionalização do mercado financeiro nacional.

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