Os principais constrangimentos ao desenvolvimento de projectos de infra-estruturas de transporte em Angola não estão necessariamente relacionados com a falta de financiamento, mas sobretudo com a capacidade de estruturação e execução dos mesmos, defendeu, esta Terça-feira, 29, em Luanda, o director da Unidade de Negócios de Infra-estruturas da Imbono, Júlio Oliveira.
A posição foi apresentada durante o painel sobre Financiamento de Infraestruturas de Transporte em África, dedicado às questões de investimento, estruturação e execução de projectos, no Angola Hub Transporte e Logística Summit 2026.
O responsável da Imbono referiu que Angola tem desenvolvido um processo de consolidação fiscal e orçamental, considerado necessário para preservar a capacidade de acesso aos mercados financeiros.
Apesar dos desafios, Júlio Oliveira transmitiu uma perspectiva positiva relativamente aos projectos devidamente estruturados. Na sua avaliação, investimentos que apresentem capacidade efectiva de execução e impacto económico e social tendem a encontrar condições para mobilizar financiamento.
Oliveira defendeu ainda que, na preparação dos projectos, não se deve considerar apenas o CAPEX, correspondente ao investimento inicial, mas também o OPEX, relacionado com os custos de operação e manutenção.
A preparação antecipada desses elementos, acrescentou, permite estruturar os projectos para futuras concessões e Parcerias Público-Privadas (PPP).
“Se nós tivermos um projecto com essas características, eu vos asseguro que não faltará capital”, disse.
Segundo Júlio Oliveira, a experiência da Imbono demonstra que o financiamento, por si só, não garante a concretização das infraestruturas.
Para o responsável da Imbono, é necessário acompanhar todo o ciclo dos projectos, desde a sua estruturação e mobilização de recursos até à implementação e posterior operação.
“Nós somos e responsabilizamo-nos pelo ciclo completo”, afirmou, destacando a importância do acompanhamento permanente dos projectos e da gestão dos riscos associados à sua execução.
Como exemplos, Júlio Oliveira apontou o programa de combate à seca no Cunene, que envolveu cerca de 900 milhões de dólares em financiamento, e o projecto de abastecimento de água do Quilonga, cujo financiamento ultrapassou 450 milhões de dólares.
No entanto, disse que os dois projectos encontram-se em fases avançadas de implementação. Na sua intervenção, o director da Imbono também apresentou dados do relatório de execução orçamental referente ao quarto trimestre de 2025.
De acordo com os números citados, Angola previa mobilizar cerca de 14,64 mil milhões de dólares em financiamento, tendo conseguido mobilizar aproximadamente 88% desse montante.
Para Júlio Oliveira, os dados levantam uma questão central, se existe capacidade de mobilização de financiamento, por que razão muitos projectos continuam a registar atrasos na execução, considerando que parte da resposta está na preparação e estruturação dos programas, incluindo a realização de estudos de viabilidade técnica e financeira, bem como a avaliação dos impactos ambientais e sociais antes do início da execução.
“Será que isto é um problema de não haver capital, ou da forma como nós estruturamos os nossos projectos?”, questionou, defendendo que a qualidade da preparação dos investimentos é determinante para garantir a sua execução.
Júlio Oliveira chamou igualmente a atenção para a capacidade das empresas responsáveis pela implementação das obras. Segundo explicou, os executores devem estar preparados para gerir os diferentes riscos e desafios associados ao contexto nacional.
“O problema não é do financiamento, o problema depois é da capacidade de execução”, sublinhou. Outro aspecto destacado foi a necessidade de garantir estabilidade e sustentabilidade orçamental.





