O Corredor do Lobito deve retirar lições das experiências dos corredores de Nacala, Dar es Salaam e Maputo para melhorar a sua eficiência, competitividade e capacidade de gerar actividade económica ao longo da rota, defendeu, em Luanda, o CEO da AJS Transport & Logistics, Luís Silva.
Luís Silva falava durante a mesa-redonda “Corredores Estratégicos Africanos: Lobito, Nacala, Dar es Salaam e Maputo”, realizada no âmbito do Angola Hub Transport & Logistics Summit 2026, promovido pelo Ministério dos Transportes de Angola.
O debate reuniu especialistas e protagonistas do sector dos transportes e da logística para analisar os desafios associados à conectividade regional, à eficiência das cadeias de abastecimento e ao papel dos grandes corredores africanos no processo de integração económica da África Austral.
Com mais de três décadas de experiência no sector dos transportes e logística em Angola e na região, Luís Silva apontou três referências que, na sua perspectiva, podem oferecer ensinamentos importantes para o desenvolvimento do Corredor do Lobito.
De Nacala, destacou a relação institucional entre os Governos de Moçambique e Malawi; de Dar es Salaam, salientou a importância da existência de indicadores de eficiência que permitam medir e divulgar o desempenho do corredor; enquanto de Maputo apontou a coordenação transfronteiriça entre Moçambique e África do Sul.
Segundo o especialista, as experiências dos três corredores demonstram que a competitividade de uma rota logística não depende apenas da existência de boas estradas, linhas ferroviárias modernas ou capacidade portuária.
Coordenação institucional, eficiência operacional, gestão das fronteiras, previsibilidade, custos e tempo de trânsito são, igualmente, factores determinantes para convencer os operadores económicos a utilizar uma determinada rota.
“Um corredor eficiente mede-se pelo tempo, pelo custo e pela previsibilidade do serviço porta-a-porta, e não apenas pela velocidade do comboio ou pela capacidade do porto”, disse.
Desempenho deve ser medido de forma permanente
Para Luís Silva, a avaliação do desempenho de um corredor deve partir da experiência concreta dos seus utilizadores e considerar toda a cadeia logística, desde o ponto de origem da mercadoria até ao destino final.
A utilização de indicadores de desempenho, acrescentou, permite identificar os principais constrangimentos, acompanhar a evolução dos serviços e estabelecer metas concretas para a redução dos tempos e custos de transporte.
Neste domínio, destacou a experiência do Corredor de Dar es Salaam, onde o programa TRACER, acompanhado pelo Banco Mundial, mede o tempo de viagem dos camiões entre o Porto de Dar es Salaam e Lusaka.
O objectivo é reduzir o actual tempo de viagem de 74 horas para 51,5 horas até 2030, incluindo os procedimentos associados à passagem da fronteira de Nakonde.
A iniciativa prevê também a redução do tempo de desalfandegamento naquela fronteira, de 39 para 18 horas, demonstrando que a competitividade de um corredor não está apenas relacionada com a infraestrutura física, mas também com a eficiência dos processos administrativos e fronteiriços.
A experiência foi apresentada como exemplo da necessidade de os corredores africanos estabelecerem indicadores claros, publicarem regularmente os resultados e trabalharem sobre os constrangimentos identificados.
Na perspectiva do responsável da AJS Transport & Logistics, uma grande infraestrutura pode perder competitividade se os seus utilizadores continuarem sujeitos a longos períodos de espera, custos elevados e falta de previsibilidade.
Ferrovia deve responder às características da carga
Outro aspecto abordado durante o painel esteve relacionado com a escolha entre o transporte ferroviário e rodoviário.
Luís Silva defendeu que esta decisão deve ser baseada em dados concretos, considerando factores como a distância, o volume e a natureza da carga.
Referências do Banco Mundial indicam que o transporte ferroviário tende a apresentar vantagens em determinados fluxos de mercadorias realizados em distâncias mais longas, particularmente entre 500 e 5.000 quilómetros, embora a eficiência dependa das características específicas de cada operação.
Para o especialista, a discussão não deve ser colocada simplesmente numa lógica de substituição entre ferrovia e estrada, mas de complementaridade entre os diferentes modos de transporte.

A existência de uma rede logística eficiente pressupõe, neste sentido, a articulação entre ferrovia, transporte rodoviário, portos, terminais, fronteiras e serviços aduaneiros, permitindo que a mercadoria circule de forma contínua ao longo de toda a cadeia.
Lobito deve transformar transporte em actividade económica
Um dos principais desafios identificados no debate está, entretanto, para além da movimentação de mercadorias.
Para Luís Silva, o Corredor do Lobito deve procurar transformar a sua capacidade de transporte numa plataforma de desenvolvimento económico, criando oportunidades para empresas, produtores, investidores e comunidades situadas ao longo da rota.
“O futuro dos corredores africanos não está apenas em transportar mais carga até aos portos. Está, sobretudo, em criar actividade económica ao longo do próprio corredor”, defendeu.
A visão apresentada coloca o Corredor do Lobito perante um desafio mais amplo: deixar de ser encarado apenas como uma infraestrutura destinada ao transporte de minérios e outras mercadorias e assumir-se como uma plataforma capaz de estimular produção, investimento, comércio e prestação de serviços.
Neste contexto, o corredor poderá beneficiar do desenvolvimento de zonas logísticas, plataformas de distribuição, serviços de transporte e armazenagem, actividades industriais e comerciais e novas oportunidades para empresas locais.
A criação destas condições poderá contribuir para que os territórios atravessados pelo corredor deixem de funcionar apenas como pontos de passagem e passem a participar directamente na geração de valor económico.
Lobito não deve apenas competir, mas convencer os utilizadores
Luís Silva considerou ainda que a estratégia do Corredor do Lobito não deve ser construída exclusivamente numa lógica de competição com outras rotas da África Austral.
“O Corredor do Lobito não precisa de vencer os outros corredores. Precisa, sim, de convencer os potenciais utilizadores, oferecendo serviços fiáveis, integrados e competitivos, com benefícios claros para quem os utiliza”, ressaltou.
A declaração coloca no centro da estratégia a necessidade de conquistar a confiança dos operadores económicos através de serviços previsíveis, custos competitivos, menor tempo de trânsito e maior segurança no transporte das mercadorias.
Nessa perspectiva, a existência de diferentes corredores africanos não representa necessariamente uma relação de exclusão. Os corredores podem desempenhar funções complementares e responder a diferentes mercados, dependendo das características das cargas, das distâncias, dos custos e das condições oferecidas aos utilizadores.
Para o Lobito, a questão passa por demonstrar, na prática, que a rota oferece condições capazes de atrair e manter fluxos de carga provenientes de Angola e dos países do interior da região.
Coordenação entre países é determinante
A experiência de Nacala foi apontada como uma referência particularmente importante no domínio da cooperação institucional.
A relação entre Moçambique e Malawi, segundo Luís Silva, demonstra a importância de uma articulação efectiva entre os países atravessados por um corredor para garantir maior fluidez no movimento das mercadorias.
Já o exemplo de Maputo, com a coordenação entre Moçambique e África do Sul, evidencia a necessidade de os Estados trabalharem de forma conjunta na resolução dos constrangimentos que afectam as cadeias logísticas transfronteiriças.
No caso do Corredor do Lobito, esta dimensão assume particular relevância devido à ligação de Angola à República Democrática do Congo e à Zâmbia, exigindo mecanismos eficazes de coordenação entre os diferentes países envolvidos.
A eficiência do corredor dependerá, assim, não apenas dos investimentos realizados em Angola, mas também da capacidade de assegurar continuidade operacional além-fronteiras.
Integração regional no centro da estratégia
O debate realizado no Angola Hub Transport & Logistics Summit 2026 colocou a integração regional no centro da discussão sobre o futuro dos corredores africanos.
A existência de infraestruturas ferroviárias, rodoviárias e portuárias é considerada fundamental, mas não suficiente para garantir uma integração logística eficiente.
É igualmente necessário assegurar procedimentos fronteiriços simplificados, coordenação entre autoridades, sistemas de informação integrados, previsibilidade dos serviços e mecanismos que permitam acompanhar o desempenho de cada etapa da cadeia.
Neste sentido, as experiências de Nacala, Dar es Salaam e Maputo podem constituir referências para Angola, não necessariamente para serem replicadas de forma integral, mas para identificar práticas que possam ser adaptadas à realidade do Corredor do Lobito.
A principal mensagem deixada no painel foi a de que infra-estrutura sem eficiência não garante competitividade.
O desafio passa por transformar investimentos em estradas, caminhos-de-ferro e portos em serviços logísticos capazes de responder às necessidades dos operadores económicos.
Para o Corredor do Lobito, isso significa melhorar continuamente o tempo de trânsito, reduzir custos, aumentar a previsibilidade, facilitar os procedimentos fronteiriços e fortalecer a coordenação entre os países envolvidos.
Ao mesmo tempo, a rota terá de ampliar o impacto económico produzido ao longo do seu trajecto, criando condições para o surgimento de novas empresas, investimentos, serviços e actividades produtivas.
A discussão em Luanda reforçou, assim, a necessidade de olhar para os corredores estratégicos africanos não apenas como vias de transporte de mercadorias, mas como instrumentos de integração económica, criação de valor e desenvolvimento regional.
No caso do Lobito, a grande oportunidade está em aprender com as experiências existentes, adaptar as boas práticas à realidade angolana e construir um corredor que seja competitivo para os seus utilizadores e, simultaneamente, capaz de gerar benefícios económicos nos territórios que atravessa.





