Angola identifica no abacate uma oportunidade de 14 mil milhões de dólares

Angola tem no abacate uma oportunidade de negócio estimada em cerca de 14 mil milhões de dólares anuais no mercado internacional, mas precisa de aumentar a escala de produção para transformar o potencial desta cultura agrícola numa fonte relevante de exportações e de diversificação económica, defendeu a administradora para dinamização e comercialização da Rede Nacional…
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Administradora da Agência Reguladora de Certificação de Carga Logística de Angola, Paula Bartolomeu, considera que o país atravessa uma fase em que a diversificação económica deixou de ser apenas uma intenção inscrita nos documentos de orientação nacional.
Economia

Angola tem no abacate uma oportunidade de negócio estimada em cerca de 14 mil milhões de dólares anuais no mercado internacional, mas precisa de aumentar a escala de produção para transformar o potencial desta cultura agrícola numa fonte relevante de exportações e de diversificação económica, defendeu a administradora para dinamização e comercialização da Rede Nacional de Plataformas Logísticas da Agência Reguladora de Certificação de Carga Logística de Angola (ARCCLA), Paula Bartolomeu.

A responsável, que falava num painel do Angola Hub Transporte & Logística Summit 2026, considera que o país atravessa uma fase em que a diversificação económica deixou de ser apenas uma intenção inscrita nos documentos de orientação nacional para assumir uma necessidade cada vez mais evidente, sobretudo perante os desafios associados à dependência das receitas petrolíferas.

Ao abordar as oportunidades existentes no sector produtivo, Paula Bartolomeu destacou o abacate entre os produtos agrícolas que podem permitir a Angola conquistar novos espaços nos mercados regionais e internacionais.

“Hoje há um grande enfoque em Angola, porque nós passámos para o mapa mundial da produção do abacate. O abacate é uma commodity que rende mais ou menos 14 mil milhões de dólares anuais”, afirmou.

Na perspectiva da administradora, o potencial do país nesta cadeia produtiva está associado não apenas às condições para a produção agrícola, mas também à localização geográfica de Angola, que pode facilitar o acesso aos mercados dos países da região.

A estratégia, segundo explicou, poderá começar pelo abastecimento dos mercados regionais e, à medida que a capacidade produtiva for aumentando, permitir uma expansão para outros destinos internacionais.

“É um negócio e Angola está numa janela privilegiada. É um produto exportável, mas não temos escala ainda”, sublinhou Paula Bartolomeu.

A observação coloca a questão da escala produtiva entre os principais desafios para que o potencial do abacate se transforme numa actividade económica capaz de gerar receitas significativas para o país. A existência de procura internacional, por si só, não garante a entrada competitiva nos mercados, sendo necessária uma produção regular, em quantidade e qualidade suficientes para responder aos compradores.

Produção em escala é desafio

Para a responsável da ARCCLA, o desenvolvimento de produtos agrícolas com vocação exportadora deve ser acompanhado por uma estratégia que envolva toda a cadeia de valor, desde a produção até ao armazenamento, transporte, conservação e comercialização.

A criação de escala exige investimento, organização dos produtores, acesso a mercados e condições logísticas adequadas, factores que podem determinar a capacidade de Angola transformar produtos agrícolas em verdadeiras commodities de exportação.

Paula Bartolomeu reconheceu que a diversificação económica não constitui uma questão nova para Angola. Segundo recordou, a necessidade de diversificar a economia já era abordada desde os primeiros anos da República.

O que mudou, explicou, é a dimensão da atenção dada actualmente ao processo e a necessidade de acelerar a criação de alternativas capazes de reduzir a exposição da economia às receitas do petróleo.

“O petróleo é um produto que até hoje tem garantido a nossa estabilidade económica. Nós sabemos que o futuro está a dar sinais de que ele não vai estar ali para sempre e é preciso diversificar as nossas fontes”, afirmou.

A responsável defendeu, por isso, que o processo não deve ser encarado como uma responsabilidade exclusiva do Governo. Para que a diversificação produza resultados, considerou necessário o envolvimento das instituições públicas, do sector privado, dos produtores e da sociedade.

“O sector produtivo e as pessoas têm de se envolver nessa causa”, defendeu.

Diversificação exige tempo e investimento

Paula Bartolomeu afastou a ideia de que a ausência de resultados imediatos signifique falta de iniciativas no domínio da diversificação económica.

Segundo a administradora, trata-se de um processo que envolve sucessivas fases de identificação de problemas, apresentação de soluções, recolha de contributos dos agentes económicos e reformulação das medidas.

“É um processo. Erramos, voltamos à carga, recebemos o feedback do sector, vemos as necessidades e voltamos a apresentar soluções”, explicou.

Na sua avaliação, o desenvolvimento de novas cadeias produtivas exige tempo, investimento e capacidade de adaptação às necessidades concretas do mercado.

“Parece muitas das vezes que não se está a fazer nada. Mas está-se a fazer muito”, acrescentou.

É neste contexto que a aposta em produtos agrícolas como o abacate ganha relevância, uma vez que a diversificação não depende apenas da substituição de um produto por outro, mas da criação de cadeias produtivas capazes de gerar valor acrescentado, emprego, receitas de exportação e oportunidades para produtores nacionais.

Localização pode favorecer exportações

A posição geográfica de Angola foi igualmente apontada como uma vantagem para o desenvolvimento de uma agricultura orientada para os mercados externos.

A proximidade com vários países da África Austral permite perspectivar a criação de circuitos comerciais regionais, antes de uma eventual expansão para mercados mais distantes.

Esta condição poderá favorecer não apenas o abacate, mas também outros produtos agrícolas que Angola venha a produzir em quantidade suficiente para exportação.

Para Paula Bartolomeu, a construção de uma economia mais diversificada passa precisamente pela identificação dessas oportunidades e pela criação das condições necessárias para que os produtos nacionais cheguem aos consumidores.

No caso do abacate, o desafio passa por aumentar a escala, melhorar a organização da cadeia produtiva e garantir que a produção seja acompanhada por sistemas eficientes de conservação e distribuição.

Perdas pós-colheita continuam a preocupar

A questão logística assume particular importância no sector agrícola devido às perdas registadas depois da colheita, sobretudo entre os produtos perecíveis.

Paula Bartolomeu classificou as perdas pós-colheita como um problema real e afirmou que a ARCCLA está a trabalhar na criação de infraestruturas destinadas a reduzir significativamente esse fenómeno.

“É um problema real, e nós temos estado a investir para dinamizar as plataformas logísticas. Temos estado a procurar soluções de infraestruturas para eliminar ou diminuir consideravelmente essas perdas”, afirmou.

A responsável explicou que a produção agrícola precisa de ser acompanhada por capacidade de armazenamento e conservação. Sem essas condições, mesmo quando existe produção, os agricultores podem enfrentar dificuldades para colocar os produtos no mercado dentro do período adequado.

“Um produtor tira o tomate do campo e dois ou três dias depois ele tem de encontrar um local para vender. Se não vender, ele tem de conservar”, exemplificou.

O mesmo princípio, segundo a lógica apresentada pela responsável, é aplicável a diferentes produtos agrícolas que necessitam de condições específicas para manter a qualidade depois da colheita.

Rede Nacional de Silos

Entre as iniciativas em curso, Paula Bartolomeu destacou o programa de implementação de uma Rede Nacional de Silos, destinada a melhorar as condições de armazenamento e conservação da produção de cereais.

A iniciativa pretende responder a uma das dificuldades associadas ao aumento da produção nacional: garantir que os produtos possam ser armazenados em condições adequadas e disponibilizados de forma regular ao mercado.

“Hoje produzimos grãos e onde é que os grãos estão? Nas fazendas, nos armazéns. Precisamos de segurança alimentar”, afirmou.

A criação de capacidade de armazenamento poderá permitir reduzir a pressão sobre os produtores para vender imediatamente após a colheita e contribuir para uma maior estabilidade no abastecimento dos mercados.

Cadeia de frio começa no Amboim

Para os produtos perecíveis, a ARCCLA aposta igualmente na expansão das cadeias de frio.

Paula Bartolomeu anunciou a inauguração de uma cadeia de frio no Amboim, apresentada como a primeira de uma rede que deverá ser progressivamente estendida a outras regiões do país.

“Na próxima semana, nós vamos inaugurar no Amboim a nossa cadeia de frio”, anunciou.

De acordo com a responsável, depois do Amboim estão previstas outras infraestruturas semelhantes, com o objectivo de criar uma rede nacional capaz de apoiar os produtores e reduzir as perdas de produtos agrícolas.

“A ideia é espalhar pelo país esse tipo de infraestruturas, que vai ajudar a diminuir as perdas pós-colheita”, explicou.

A expansão das cadeias de frio poderá beneficiar produtos como frutas, hortícolas e outros alimentos perecíveis, criando condições para que permaneçam mais tempo em condições adequadas para comercialização.

Abacate precisa de uma cadeia de valor estruturada

No caso específico do abacate, o crescimento da produção deverá ser acompanhado pela criação de uma cadeia de valor estruturada, capaz de ligar o produtor às plataformas logísticas, aos transportadores, aos mercados e aos compradores internacionais.

A oportunidade identificada pela ARCCLA está, portanto, associada a uma combinação entre produção agrícola, infraestruturas, logística e acesso aos mercados.

Com um mercado internacional estimado em cerca de 14 mil milhões de dólares anuais, o abacate surge como uma das culturas que podem contribuir para ampliar a base exportadora de Angola, embora a concretização desse potencial dependa da capacidade do país de aumentar a escala de produção.

A aposta enquadra-se numa estratégia mais ampla de diversificação económica, na qual a agricultura assume um papel relevante na redução da dependência do petróleo.

Para Paula Bartolomeu, o caminho passa por identificar as oportunidades, ouvir os produtores, corrigir os constrangimentos e criar condições para que a produção nacional consiga chegar aos mercados.

Nesse processo, a logística é apontada como uma das peças fundamentais: produzir mais, conservar melhor, transportar com eficiência e colocar os produtos no mercado no momento certo.

A aposta no abacate representa, assim, não apenas uma oportunidade agrícola, mas também um teste à capacidade de Angola transformar vantagens produtivas e geográficas em negócios de escala, capazes de gerar valor acrescentado e reforçar a presença dos produtos nacionais nos mercados regionais e internacionais.

 

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