A Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em Moçambique, aprovou uma Directriz para o Uso da Inteligência Artificial (IA), instrumento que estabelece princípios e orientações para a utilização responsável desta tecnologia no contexto académico e institucional.
A informação foi avançada pela vice-reitora académica da UEM, Amália Uamusse, durante o workshop sobre o uso da Inteligência Artificial na Universidade, iniciado em 30 de Setembro, no Campus Principal, sob o lema “Rumo a uma Agenda Institucional de IA para a UEM”.
Segundo a responsável, a aprovação da directriz representa um avanço significativo para a instituição e marca o início de uma nova etapa na definição de regras, responsabilidades, procedimentos e recursos necessários à adopção da Inteligência Artificial.
A nova fase deverá incluir também mecanismos de acompanhamento dos resultados, aprendizagem a partir das experiências acumuladas e ajustamento das decisões institucionais à medida que a tecnologia e as necessidades da universidade evoluírem.
Com duração de dois dias, o workshop reúne decisores e gestores da UEM, com o objectivo central de elaborar um roadmap, ou roteiro institucional, para orientar a adopção da Inteligência Artificial na universidade.
De acordo com Amália Uamusse, o roteiro permitirá à instituição obter uma visão mais clara das suas necessidades e capacidades actuais, identificar áreas prioritárias de intervenção e estabelecer acções concretas para orientar os próximos passos.
O documento deverá definir as prioridades institucionais para o uso responsável da IA, bem como os instrumentos, procedimentos e práticas que deverão ser revistos. Deverá igualmente estabelecer acções imediatas e de médio prazo.
Entre os aspectos a serem contemplados estão a identificação das unidades responsáveis pela implementação das medidas, as necessidades de capacitação, dados, infra-estruturas e segurança, além das oportunidades de investigação e cooperação com parceiros nacionais e internacionais.
A Vice-Reitora sublinhou, contudo, que o roteiro deverá ser construído de acordo com a realidade da UEM, estabelecendo prioridades e permitindo uma adopção gradual, responsável e sustentável da tecnologia.
“Não se trata de reproduzir modelos de outras instituições, mas de aprender com experiências relevantes e traduzi-las em soluções adequadas à realidade institucional”, afirmou Amália Uamusse.
INTIC apresenta Estratégia Nacional de Inteligência Artificial
Durante o encontro, o Presidente do Instituto Nacional de Tecnologias de Informação e Comunicação (INTIC), Alberto Chemane, apresentou a Estratégia Nacional de Inteligência Artificial, actualmente em fase de elaboração.
A estratégia pretende contribuir para a construção de um ecossistema de IA robusto, ético e inovador, além de apoiar o posicionamento de Moçambique como um país digitalmente resiliente, competitivo e preparado para os desafios da economia global do conhecimento.
O documento assenta em seis pilares fundamentais: Ciência, Infra-estrutura e Ecossistema de IA; Aplicações Sociais e Desenvolvimento Humano; Economia Digital e Empreendedorismo; Segurança, Resiliência e Sustentabilidade Ambiental; Direitos Fundamentais, Informação e Democracia; e Governação, Confiança e Supervisão da IA.
Na apresentação, Alberto Chemane destacou algumas das prioridades que deverão ser consideradas para criar condições para o desenvolvimento e utilização da Inteligência Artificial no país.
Entre elas estão o reforço das infra-estruturas e da capacidade de computação, a formação do capital humano, a protecção de dados, a cibersegurança, a disponibilidade e interoperabilidade dos dados, a definição de casos de uso prioritários e a criação de um ecossistema nacional de inovação.
A discussão sobre a IA na UEM ocorre, assim, num contexto em que Moçambique procura estabelecer orientações nacionais e institucionais para acompanhar a rápida expansão das tecnologias de Inteligência Artificial.
Especialista defende integração da IA no ensino
O workshop contou igualmente com a participação do investigador da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, Donrich Willem Thaldar, que defendeu uma maior integração entre os métodos tradicionais de ensino e as ferramentas de Inteligência Artificial.
Para o especialista, as universidades não devem responder à utilização da IA apenas através de restrições ou proibições, mas apostar no empoderamento responsável dos estudantes, preservando o rigor académico, a responsabilidade ética e o desenvolvimento de capacidades internas.
Thaldar considera que o ensino superior deve continuar a valorizar competências como a escrita e a análise crítica, por serem fundamentais para a formação dos estudantes, mas deve também preparar os jovens para utilizar ferramentas de IA, tendo em conta que a tecnologia deverá integrar cada vez mais o mercado de trabalho.
A sua perspectiva é de uma combinação entre os métodos tradicionais de ensino e as novas ferramentas tecnológicas, em vez de uma substituição integral das práticas académicas existentes.
Durante a sua intervenção, subordinada ao tema “Responsible AI Governance, Academic Integrity and Institutional Guidelines for AI Use”, o investigador defendeu ainda que as instituições de ensino superior não devem adoptar uma postura baseada no medo perante a Inteligência Artificial.
Na sua perspectiva, o desafio passa por criar confiança, desenvolver competências e promover uma utilização responsável da tecnologia entre os estudantes, professores e investigadores.
A aprovação da Directriz para o Uso da IA e a elaboração do roadmap institucional colocam a Universidade Eduardo Mondlane entre as instituições de ensino superior moçambicanas que procuram estabelecer mecanismos próprios para responder aos desafios e oportunidades associados à expansão da Inteligência Artificial.



