A historiadora de arte luso-sul-africana Nancy Dantas organizou uma exposição dedicada ao Modernismo africano, integrada na 14.ª edição da Feira de Arte Contemporânea Africana 1-54, realizada em Londres, no Reino Unido, até 18 de Outubro.
Integrada no programa 1-54 Presents, a mostra reúne obras de artistas considerados precursores da arte moderna africana e da diáspora, entre os quais a moçambicana Bertina Lopes, o sul-africano Gerard Sekoto, o ganês Kofi Antubam, o tanzaniano Sam Joseph Ntiro, o senegalês Papa Ibra Tall, o nigeriano Uzo Egonu, a argelina Baya, o tunisino Rafik El Kamel e o sudanês Ibrahim El-Salahi.
A iniciativa pretende ampliar a presença do Modernismo africano num evento tradicionalmente orientado para a arte contemporânea, contribuindo para uma leitura mais abrangente da história artística do continente.
“A ideia é integrar o modernismo numa feira que tradicionalmente tem sido e tem focado muito o contemporâneo”, afirmou Nancy Dantas à agência Lusa.
Inspirada na canção West Wind, da cantora sul-africana Miriam Makeba, lançada em 1966, e no ideal de unidade africana, a exposição procura colocar os artistas africanos no centro da história da arte moderna, em vez de os apresentar como figuras secundárias ou marginais.
Para a investigadora, o Modernismo africano representa também uma resposta histórica ao colonialismo, constituindo uma forma de expressão artística através da qual os criadores procuraram questionar e desconstruir as estruturas coloniais.
“Eu coloquei a peça de Bertina Lopes no início da exposição com bastante intencionalidade, precisamente porque ela tem referências muito fortes às formas makonde, esta ideia de corpo unido, que se repete na pintura do Uzo Egonu, que se chama ‘Dancers’”, explicou.
A disposição das obras estabelece, assim, relações entre diferentes linguagens artísticas e referências culturais, evidenciando elementos comuns entre artistas de distintas regiões do continente africano.
Um dos eixos centrais da exposição consiste na representação simbólica de um corpo de água que liga os criadores provenientes de diferentes geografias africanas e da diáspora. Esta abordagem procura destacar as ligações históricas, culturais e estéticas que atravessam as suas produções, sem desconsiderar a diversidade de experiências e percursos individuais.
Nancy Dantas reconhece, contudo, que a exposição não pretende apresentar uma definição definitiva do Modernismo africano, uma vez que existem outros artistas e figuras fundamentais que não estão representados.
“A exposição não define o modernismo africano, porque faltam muitas personagens decisivas. Mas é uma exposição que aponta para o modernismo africano como uma ideia complexa, que pode ser abordada por vários prismas”, sustentou.
Nascida em Joanesburgo, na África do Sul, e actualmente residente em Almada, Portugal, Nancy Dantas é investigadora honorária da Rhodes University, na África do Sul, e colaboradora do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América.
A Feira 1-54, fundada em 2013 por Touria El Glaoui, é uma plataforma internacional dedicada à promoção da arte contemporânea africana e da diáspora africana. A designação do evento faz referência aos 54 países que constituem o continente africano.
Com edições anuais em Londres, Nova Iorque e Marraquexe, a feira reúne galerias, artistas, projectos especiais e debates, promovendo o intercâmbio cultural e a divulgação de diferentes perspectivas sobre a produção artística africana.
A exposição dedicada ao Modernismo africano, diz a Lusa, insere-se neste esforço de valorização do património artístico do continente, procurando reconhecer o papel dos seus pioneiros na construção da história da arte moderna e reforçar a sua presença nos circuitos internacionais.





