“Não quero ir aos jogos olímpicos passear”

Lutar para estar no pódio é o objectivo definido pela pugilista moçambicana Alcinda Panguana para os Jogos Olímpicos Paris 2024, que decorrem de 26 de Julho a 11 de Agosto, em França. Para a bicampeã africana de boxe na categoria de 70 kg, marco alcançado em 2023, a determinação, o foco e a persistência são…
ebenhack/AP
Bicampeã africana de boxe, Alcinda Panguana, moçambicana, tem na resiliência o seu ADN. Critica a falta de apoios, recebe muitos prémios, flores e papel, mas lembra que não é esse o seu sustento.
Life

Lutar para estar no pódio é o objectivo definido pela pugilista moçambicana Alcinda Panguana para os Jogos Olímpicos Paris 2024, que decorrem de 26 de Julho a 11 de Agosto, em França. Para a bicampeã africana de boxe na categoria de 70 kg, marco alcançado em 2023, a determinação, o foco e a persistência são os ingredientes que leva consigo para a materialização do objectivo.

“Se tiveres determinação e foco, consegues tudo o que quiseres, com um pouco mais de persistência, tu chegas lá. São esses três pontos que sempre levo comigo”, revelou a atleta olímpica.

Em entrevista à FORBES ÁFRICA LUSÓFONA, Panguana conta que, quando saiu de Tóquio (nos Jogos Olímpicos de 2020), disse para si mesma que tinha de se preparar para as próximas Olimpíadas. Cumpriu a promessa e, assim que teve oportunidade, qualificou-se para os Jogos Olímpicos Paris 2024.

“Não gostaria de ir para os Jogos Olímpicos passear. Gostaria de chegar ao pódio. Vou trabalhar para chegar ao pódio. Sou da opinião de que tudo é possível até que te provem o contrário”, assume. E diz que cada jogo é um jogo e tem as suas especificidades. “O que apanhei em Tóquio, se calhar, agora poderei não apanhar, ou poderei apanhar algo ainda pior, em Paris. Há que me precaver e treinar acima das minhas expectativas.”

Perante o cenário de incerteza quanto a Paris 2024, Alcinda Panguana assegura estar a redobrar esforços e a treinar um pouco mais do que no passado, sendo que o ciclo de preparação corre normalmente. “Não entrámos ainda no estágio. Estamos a treinar no país, no ginásio da Escola  Francisco Manyanga [Cidade de Maputo]”, sublinha.

Sobre se está satisfeita com o actual nível de preparação, a atleta diz ser um pouco complicado responder devido às inúmeras dificuldades que tem enfrentado. “Dizer que estou ou não satisfeita é difícil, porque para a qualificação treinamos nestas condições. Se puderem mudar, agradeceria. Mas, enquanto não tivermos o melhor, vamos treinando com o que temos”, lamenta.

Apesar de não estar confortável em falar das condições de trabalho de que necessita, remetendo o assunto para o seu treinador, Panguana não hesita em deixar algumas sugestões. “Os atletas moçambicanos precisam de mais competitividade e treinamento fora do país, porque aqui dentro não temos adversários. Não temos esse intercâmbio entre algumas províncias, não temos porque ninguém está a treinar. Então, fica um pouco complicado para o atleta chegar fora do país e ter de defrontar um atleta de alto nível sem medo.”

Por isso, defende que o atleta moçambicano precisa de ter intercâmbio de treino com atletas de outros países, estágios e preparação fora. “Enquanto não tivermos isso, vamos treinando com o que temos e vamos competir lá fora”, referiu a campeã africana.

Para atingir os seus objectivos, a atleta  treina três vezes por dia. Este é um programa desenhado pelo treinador e que deve ser cumprido. “Cabe a cada atleta cumprir. Segundo o programa, temos de treinar das 5:30 ou 6:00 até às 7:00. Então, daí quem estuda vai estudar, quem trabalha vai trabalhar, e os outros vão descansar. Tem ainda o ginásio, quem puder ir às 12:00 ou às 13:00 vai, quem não consegue depois vem treinar aqui na Manyanga às 16:00. É uma rotina que todos nós já temos”, revela a campeã africana de boxe.

Além do boxe, Alcinda Panguana, de 29 anos, estuda, trabalha e consegue conciliar tudo o que faz. “Quando queres algo, tu consegues arranjar um tempinho para cada programa. É só organizar os programas, para cumprircom todos eles, na medida do possível”, motiva Panguana.

Para os Jogos Olímpicos Paris 2024, diz que se pode esperar por uma Alcinda que todos já conhecem: “Que quando tem oportunidade de trazer uma medalha, traz, e quando não tem oportunidade, não traz. Devem olhar para mim assim.”

No seu ponto de vista, é através do trabalho que todas as vitórias são alcançadas. “Quando sabes que trabalhaste para uma determinada competição, vais com a mentalidade de que trabalhaste para isso, independentemente do que vai acontecer, então eu vou lá sem medo e sem receio, porque sei que eu trabalhei para aquilo. Se der certo, melhor, se não der, não deu e não era para ser. Aí vou fazer aquilo que aprendi, aquilo que eu estive todo o tempo a me preparar para fazer”, esclareceu.

Panguana obteve a única vaga lusófona no pré-olímpico africano de boxe. Questionada sobre o que deve ser feito para que os países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) consigam ter mais espaço nas competições africanas e nos Jogos Olímpicos, foi dura na reacção. “Prefiro não responder. Não quero aquecer a minha cabeça com isso. Já estou cansada de dar opiniões, pedir e não acontecer nada. Você treina bastante, vai para lá levantar a bandeira do país e buscar prémios, e chega aqui [em Moçambique] e não tem nada”, desabafou a atleta.

Até agora só se qualificaram duas atletas moçambicanas, a Alcinda e a Deyse. “O país não consegue resolver a situação só de duas atletas, não faz sentido”, diz desiludida.

Pela segunda vez consecutiva, a pugilista moçambicana irá participar nos Jogos Olímpicos. Além de chegar ao pódio, diz não ter novos sonhos por estar amargurada. “Eu vou continuar a trabalhar, e Deus, se quiser levar-me para lá, vai levar-me. Se não quiser, é porque não deu. Já não tenho sonhos. Tudo se vai ver lá à frente. Se der para continuar, irei continuar, se não der, não deu. Estou numa situação desgastante”, assume a atleta.

*Rodrigo Oliveira

(Matéria completa publicada na edição impressa Janeiro/Fevereiro 2024)

Mais Artigos