Depois de três anos de resultados negativos, a primeira corretora de valores mobiliários de Angola regressou à rentabilidade e apresenta hoje indicadores financeiros robustos. Em entrevista à FORBES ÁFRICA LUSÓFONA, o administrador axecutivo das áreas de negócio da MADZ Global, Paulo Correia Víctor, explica como a instituição atravessou um dos períodos mais desafiantes da sua história e se reposicionou num mercado cada vez mais competitivo.
No início de 2025, a Madz anunciou que tinha regressado aos lucros após vários anos de resultados negativos. Como foi o desempenho em 2025, tendo em conta o contexto económico actual de restrição de liquidez?
O exercício de 2025 confirmou que a recuperação da Madz não foi um episódio pontual, mas sim o resultado de um processo estruturado de reorganização. Mesmo num contexto de liquidez limitada no sistema financeiro, conseguimos manter resultados líquidos superiores a 100 milhões de kwanzas, consolidando o retorno à rentabilidade iniciado em 2024.
Mais importante ainda é a qualidade dos indicadores operacionais. A empresa terminou o exercício com margem líquida superior a 22%, o que demonstra uma forte capacidade de conversão da receita em lucro. Esse desempenho resulta de uma gestão prudente, forte disciplina financeira e um alinhamento estratégico muito claro entre a administração e as equipas.
A Madz foi a primeira corretora de valores mobiliários de Angola. Como avalia a evolução do mercado desde então?
Quando a Madz iniciou actividade, em 2014, o mercado de capitais angolano estava ainda numa fase embrionária. Durante vários anos operámos praticamente sozinhos num ecossistema financeiro dominado pelo sector bancário. Ser pioneiro significou assumir um papel estruturante: ajudar a educar o mercado, criar processos e construir confiança num sector que ainda estava a nascer. Hoje o cenário é muito diferente. O mercado amadureceu, surgiram novos operadores e o enquadramento regulatório tornou-se mais sofisticado. Isso é um sinal positivo de evolução institucional.
Entre 2023 e 2025 a Madz passou por um processo de transformação profundo. Em que estado encontraram a empresa?
O diagnóstico inicial foi bastante exigente. Encontramos a empresa com um passivo próximo de 300 milhões de kwanzas, dos quais cerca de 200 milhões correspondiam a dívida fiscal acumulada. A empresa vinha também de três exercícios consecutivos com resultados negativos, o que tinha impacto na estrutura patrimonial e na confiança do mercado.
Além disso, houve uma saída massiva de quadros experientes. Perdemos praticamente 98% do quadro sénior, num contexto de forte concorrência por talento por parte de operadores ligados a grandes grupos bancários. Era um cenário que exigia decisões rápidas e estruturais.
Que estratégia foi adoptada para recuperar a empresa?
A estratégia de recuperação assentou em três pilares fundamentais. O primeiro foi a reestruturação financeira, com regularização progressiva do passivo e reforço gradual dos capitais próprios. O segundo foi a reorganização operacional, com formação intensiva de novos quadros, reforço dos controlos internos e disciplina rigorosa na gestão de custos. O terceiro foi o reposicionamento estratégico, com foco em sustentabilidade, crescimento selectivo e proximidade ao investidor. Os resultados começaram a surgir rapidamente.
Os indicadores operacionais parecem confirmar essa recuperação, certo?
Sem dúvida. A Madz registou crescimento muito significativo da actividade, acompanhado por uma melhoria consistente da eficiência operacional. A utilização dos activos tornou-se muito mais eficiente, com o giro do activo total a evoluir de 0,47 para 1,61 ao longo do exercício, o que demonstra maior capacidade de gerar receita a partir da base de activos existente. Ao mesmo tempo, verificámos crescimento expressivo do EBITDA e das margens operacionais, sinal claro de melhoria da eficiência da empresa.
Algumas análises referem que a Madz perdeu quota de mercado ao longo dos anos. Como interpreta essa leitura?
Essa análise precisa de ser contextualizada. Comparar a quota de mercado de 2014 com a de 2025 ignora a transformação estrutural do sector. Em 2014 praticamente não existia mercado. Hoje temos vários operadores, muitos deles ligados a grandes grupos bancários. O mercado expandiu-se, a concorrência multiplicou-se e a estrutura mudou. O mais relevante é que, mesmo nesse ambiente competitivo, a Madz conseguiu regressar à rentabilidade e melhorar significativamente os seus indicadores operacionais.
Quais são hoje os principais indicadores de solidez financeira da empresa?
A empresa apresenta hoje uma estrutura financeira muito mais equilibrada. O nível de endividamento mantém-se inferior a 40%, o que demonstra uma dependência moderada de capitais externos. Ao mesmo tempo, registámos um aumento muito significativo da rentabilidade. O ROA aproximou-se de 36%, o que reflecte uma utilização extremamente eficiente dos activos. O ROE também apresentou crescimento consistente, demonstrando criação de valor real para os accionistas.
Como vê o actual estágio do mercado de capitais em Angola?
O mercado encontra-se numa fase de maturação institucional. Existe hoje maior diversidade de operadores, um enquadramento regulatório mais robusto e maior consciencialização sobre o papel do mercado de capitais no financiamento da economia. Ainda há desafios, nomeadamente em termos de profundidade do mercado e participação institucional, mas a trajectória é claramente positiva.
E em relação à recuperação assente em eficiência?
A trajectória recente da Madz evidencia um caso interessante de reorganização estratégica num mercado emergente. Os indicadores mostram melhoria significativa da eficiência operacional, aumento da rentabilidade sem aumento da alavancagem, crescimento sustentado da actividade e reforço da autonomia financeira. O aumento do ROA para níveis próximos de 36% constitui um indicador particularmente relevante de criação de valor.
A recuperação financeira da Madz parece ter sido acompanhada por mudanças estruturais na gestão da instituição. Que modelo de governação foi implementado para sustentar essa nova fase?
De facto, a recuperação da Madz não foi apenas financeira, foi também institucional e organizacional. Uma das prioridades da actual gestão foi reforçar significativamente o modelo de governação corporativa, alinhando-o com as melhores práticas internacionais aplicáveis ao sector financeiro. Implementámos um modelo de gestão colegial, baseado em comités de especialidade, que permitem acompanhar de forma permanente a evolução do negócio e assegurar uma tomada de decisão mais estruturada e transparente.
Hoje a instituição funciona com três fóruns internos fundamentais, nomeadamente Comité de Negócios, onde são acompanhados o desempenho comercial, as oportunidades de mercado e a evolução das operações, Comité de Controlo Interno, responsável pelo acompanhamento das matérias de compliance, risco e controlo interno e o Comité de Suporte, que acompanha as áreas administrativas, tecnológicas e operacionais essenciais ao funcionamento da instituição.
Estes fóruns permitem uma análise regular e multidisciplinar da actividade da empresa, reforçando a disciplina de gestão e a capacidade de resposta estratégica. Paralelamente, mantemos um sistema rigoroso de prestação de contas, com reporte regular ao Auditor externo, ao conselho fiscal e às entidades reguladoras, garantindo elevados padrões de transparência e conformidade institucional.
Mas gostaria também de sublinhar que este processo tem sido possível graças a um trabalho de equipa muito forte e alinhado, liderado pela Anabela Teixeira, cuja capacidade de coordenação e visão estratégica tem sido determinante para consolidar esta nova fase da Madz. O que procurámos construir foi uma instituição mais robusta, mais transparente e preparada para competir num mercado cada vez mais exigente.
Depois de um processo exigente de recuperação e reposicionamento institucional, qual é hoje a visão estratégica da MADZ para os próximos anos e que papel pretende desempenhar no desenvolvimento do mercado de capitais angolano?
A nossa visão é muito clara: consolidar a MADZ como uma corretora independente, sólida e tecnicamente relevante no ecossistema do mercado de capitais angolano. A nova gestão da Madz já deu sinais claros aos seus accionistas do potencial de valorização e crescimento da instituição. Com uma abordagem prudente, orientada para resultados e sustentada em sólidos princípios de governação, foram criadas bases consistentes para um ciclo de recuperação e consolidação.
Nesse novo contexto regulatório, cada vez mais exigente para os operadores do mercado de capitais, torna-se agora fundamental que os accionistas assumam um posicionamento estratégico claro, reforçando o seu compromisso com a instituição e criando as condições necessárias para que a Madz possa acompanhar, com solidez e ambição, as novas exigências do sector. O mercado está a entrar numa nova fase de maturidade, com maior diversidade de instrumentos financeiros, maior participação institucional e um papel cada vez mais importante no financiamento da economia real. Neste contexto, o nosso foco passa por três prioridades estratégicas. A primeira é aprofundar a eficiência operacional, consolidando o crescimento que já iniciámos e mantendo elevados padrões de disciplina financeira.
A segunda é reforçar a proximidade com investidores e empresas, contribuindo activamente para o desenvolvimento de soluções de financiamento através do mercado de capitais. E a terceira prioridade é continuar a fortalecer a credibilidade institucional da MADZ, através de práticas de governação robustas, transparência e rigor regulatório. Acreditamos que o futuro do sector passa por instituições resilientes, tecnicamente competentes e capazes de gerar confiança no mercado. E é exactamente esse o posicionamento que queremos continuar a construir.
Como estão em termos de liderança e visão estratégica?
A recuperação da MADZ Global não pode ser analisada apenas através dos seus indicadores financeiros. Nos últimos dois anos, a instituição implementou também um novo modelo de governação corporativa, assente numa gestão colegial e em mecanismos reforçados de controlo institucional. Sob liderança executiva de Anabela Teixeira, a organização introduziu um sistema estruturado de acompanhamento da actividade através de comités especializados, que permitem monitorizar permanentemente o desempenho da instituição. A recuperação da Madz não foi um episódio pontual, mas o resultado de uma estratégia disciplinada e prudente. “O mercado amadureceu. A MADZ reinventou-se”
Este modelo é complementado por um sistema rigoroso de prestação de contas, com reporte regular ao auditor externo, ao conselho fiscal e às entidades reguladoras do mercado. Esta estrutura tem sido determinante para garantir alinhamento estratégico, disciplina de gestão e transparência institucional, elementos considerados essenciais para a consolidação da nova fase da instituição.
Tiveram que procurar reforçar a capacidade no sector devido ao ambiente competitivo?
A trajectória recente da MADZ Global reflecte um fenómeno comum em mercados financeiros emergentes: a capacidade de reinvenção de instituições pioneiras num ambiente competitivo em rápida transformação. Primeira corretora de valores mobiliários de Angola, a MADZ atravessou um período particularmente desafiante, marcado por reestruturação financeira, reorganização interna e redefinição estratégica.
Dois anos depois, os indicadores financeiros apontam para uma recuperação consistente, sustentada por ganhos de eficiência operacional, melhoria da rentabilidade e reforço da disciplina institucional. Num mercado de capitais angolano que continua a evoluir e a diversificar-se, o desafio da MADZ será agora transformar a recuperação em crescimento sustentável, mantendo o papel activo que desempenhou na construção das bases do sector. Se o percurso recente for um indicador do que está por vir, a instituição parece determinada a continuar a ser uma participante relevante na próxima fase de desenvolvimento do mercado financeiro angolano.





