No Dia do Herói Nacional, Angola celebra a memória de António Agostinho Neto. Mas há também uma mulher cuja vida se confunde com a própria história do país. Aos 90 anos, Maria Ruth da Silva Neto, a última irmã viva do primeiro Presidente da República, continua a guardar as memórias de uma geração que viveu o colonialismo, participou na luta de libertação e ajudou a construir a Angola independente. Em entrevista exclusiva à Forbes África Lusófona, concedida no contexto das celebrações do seu 90.º aniversário, Ruth Neto revisita a infância, fala do irmão que o mundo conheceu como estadista, faz um balanço do seu percurso ao serviço das mulheres angolanas e deixa uma mensagem de esperança para as novas gerações.
Começámos pelo princípio. Quando Ruth Neto regressa às memórias dos primeiros anos de vida, não começa pela política nem pela História. Começa pela família.”Quando penso na minha infância, lembro-me sobretudo da minha família, da educação que recebemos dos nossos pais e da vida em Luanda naquela época. Cresci num ambiente onde o conhecimento, a educação e o respeito pelo próximo tinham grande importância. São memórias simples, mas que tiveram um papel fundamental na mulher que me tornei.”
São recordações que ajudam a compreender a formação daquela que viria a tornar-se uma das figuras mais relevantes do movimento feminino angolano. Nascida em Luanda, a 22 de Agosto de 1936, Ruth Neto pertence a uma geração que testemunhou algumas das mais profundas transformações da história contemporânea de Angola. Ao recordar Agostinho Neto, porém, a sua memória não procura o Presidente, o poeta ou o líder da libertação nacional. “A minha relação com o meu irmão Agostinho era, antes de tudo, uma relação de irmãos. Havia carinho, respeito e uma ligação muito forte entre nós. Naturalmente, com o passar dos anos, a vida política e a luta pela libertação de Angola passaram a fazer parte das nossas vidas. Mas, para mim, ele nunca deixou de ser o meu irmão. Eu acompanhava as suas preocupações e os desafios que enfrentava e, de alguma forma, também procurei contribuir para aquilo em que acreditávamos: uma Angola livre e digna.”
A sua própria vida seria marcada por esse compromisso. Em 1960, enquanto estudava em Portugal, participou numa manifestação de estudantes angolanos no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, após a prisão de Agostinho Neto pelas autoridades coloniais portuguesas. Sob vigilância da PIDE, deixou Portugal e prosseguiu os estudos na Alemanha Ocidental, onde se formou em enfermagem e se especializou em análises clínicas.
Mais tarde, na Tanzânia, integrou o trabalho do MPLA e da Organização da Mulher Angolana (OMA), dedicando-se à mobilização das mulheres, particularmente nas zonas rurais. A alfabetização, a educação para a saúde, a formação profissional e a consciencialização política tornaram-se parte da sua missão. Curiosamente, quando questionada sobre o momento mais marcante dos seus 90 anos de vida, Ruth Neto não aponta um cargo de liderança, uma condecoração internacional ou um episódio directamente ligado aos grandes acontecimentos políticos. “É difícil escolher apenas um momento, porque a minha vida foi marcada por muitos acontecimentos. Vivi momentos de grande dificuldade, deixei Portugal devido à perseguição política, vivi na Alemanha, estudei, trabalhei e, mais tarde, juntei-me à luta pela libertação de Angola. Mas considero particularmente marcante o período em que comecei a trabalhar directamente com as mulheres angolanas através da OMA. Ver mulheres que tinham poucas oportunidades começarem a aprender, a participar na vida comunitária e a compreender a importância dos seus direitos foi uma experiência que me marcou profundamente.”

Foi precisamente nesta frente que construiu uma das mais importantes dimensões do seu legado. Entre 1972 e 1974 assumiu funções como Coordenadora Nacional da OMA. Depois da Independência, continuou a desempenhar cargos de liderança na organização e no MPLA, tendo sido eleita secretária-geral da OMA em 1983. Mais tarde, assumiu a liderança da Organização Pan-Africana das Mulheres, levando para todo o continente a defesa da participação feminina, da paz e do desenvolvimento. Quando fala dessa caminhada, os olhos abrem-se, a voz fica mais firme e não esconde o orgulho pelo caminho percorrido. “O que mais me orgulha é saber que contribuímos para abrir caminhos. Muitas mulheres estavam afastadas da educação, da participação política e de muitas decisões que diziam respeito às suas próprias vidas. Através do nosso trabalho, procurámos levar alfabetização, educação para a saúde, higiene, formação e consciência política às mulheres, inclusive nas zonas rurais. Também lutámos contra práticas que prejudicavam a dignidade e os direitos das mulheres. Sei que ainda há muito por fazer, mas tenho orgulho de ter participado dessa caminhada.”
Ao longo das décadas, esse trabalho seria reconhecido dentro e fora de África. Entre várias distinções recebidas figuram a Ordem Ana Betancourt, atribuída em Cuba, a Ordem dos Companheiros de O. R. Tambo, da África do Sul, e o Prémio Filho e Filha de África para a Promoção da Paz e Segurança em África, atribuído pela União Africana. Em 2017, o seu retrato passou a integrar a galeria da sede da organização continental, em Adis Abeba.
Hoje, aos 90 anos, o olhar que lança sobre Angola é marcado pela serenidade de quem viveu os períodos mais difíceis e decisivos da história nacional. “Olho para Angola com esperança. É um país que passou por enormes dificuldades e que teve de lutar muito para conquistar a sua independência e construir o seu próprio caminho. Quando vejo as novas gerações, penso que temos uma grande responsabilidade: transmitir-lhes a memória da nossa história, mas também permitir que construam o futuro. Quero ver uma Angola onde todos tenham mais oportunidades, onde a educação seja valorizada e onde as mulheres tenham cada vez mais espaço para participar e contribuir para o desenvolvimento do país.”
A mensagem que deixa às mulheres africanas resume, talvez, a essência de uma vida inteira dedicada ao serviço público, à emancipação feminina e à construção de oportunidades. “O meu conselho é que nunca deixem de acreditar no seu próprio valor. Estudem, procurem conhecimento, sejam determinadas e não tenham medo de ocupar os espaços que também lhes pertencem. As mulheres africanas têm uma enorme capacidade de transformar as suas famílias, as suas comunidades e os seus países. Mas essa transformação exige coragem, união e perseverança. Eu aprendi ao longo da minha vida que nenhuma conquista acontece sem sacrifício. Por isso, digo às jovens: conheçam a história das mulheres que vieram antes de vocês, aprendam com as suas lutas e continuem a construir o caminho para aquelas que virão depois.”
No Dia do Herói Nacional, as homenagens concentram-se, naturalmente, na figura de Agostinho Neto. Mas a história de Angola também se conta através de mulheres como Ruth Neto. Aos 90 anos, a última irmã viva do fundador da Nação continua a ser uma testemunha privilegiada de um tempo decisivo, uma voz respeitada na defesa dos direitos das mulheres e uma ponte viva entre o passado e o futuro do país.
“Quero ver uma Angola onde todos tenham mais oportunidades, onde a educação seja valorizada e onde as mulheres tenham cada vez mais espaço para participar”





