O secretário de Estado para o Planeamento, Luís Epalanga, defendeu a necessidade de Angola adoptar uma nova arquitectura de financiamento do desenvolvimento, assente na diversificação das fontes de recursos, no reforço da cooperação internacional, na disciplina fiscal e na criação de condições capazes de atrair investimento privado, num contexto internacional marcado pela fragmentação económica, tensões geopolíticas e limitações no acesso ao financiamento.
A posição foi apresentada esta Segunda-feira, em Luanda, durante o lançamento do Relatório sobre as Perspectivas Económicas para África — Country Focus Report 2026, elaborado pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), subordinado ao tema “Mobilização de financiamento do desenvolvimento de Angola em escala num mundo fragmentado”.
Na sua intervenção, Luís Epalanga considerou que o tema escolhido para a edição de 2026 é simultaneamente “oportuno e necessário”, tendo em conta o actual ambiente internacional e a necessidade de os países africanos encontrarem novas formas de mobilizar recursos para financiar projectos estruturantes e promover um desenvolvimento sustentável.
Segundo o secretário de Estado para o Planeamento, a conjuntura internacional continua marcada por desafios que condicionam a capacidade de financiamento das economias em desenvolvimento, entre os quais as alterações climáticas, as tensões geopolíticas, a volatilidade dos mercados financeiros, as limitações do financiamento ao desenvolvimento e as perturbações nas cadeias globais de abastecimento.
“É oportuno porque o abordamos num contexto em que se apela o resgate do multilateralismo, da maior cooperação global e de uma maior abertura a fontes diversificadas de financiamento para o desenvolvimento sustentável dos países, em condições favoráveis e acessíveis”, afirmou.
Financiamento internacional enfrenta novos desafios
Ao abordar o cenário internacional, Luís Epalanga destacou as conclusões da Quarta Conferência Internacional sobre o Financiamento para o Desenvolvimento, realizada em Julho de 2025, em Sevilha, Espanha.
De acordo com o secretário de Estado, a conferência evidenciou os desafios financeiros enfrentados por vários países, caracterizados pelo crescimento das dívidas, redução dos investimentos e diminuição da ajuda internacional.
O responsável referiu ainda que cerca de três mil milhões de pessoas viviam em países que gastavam mais com o pagamento de juros da dívida do que com sectores fundamentais como a saúde ou a educação.
Neste contexto, apontou o Compromisso de Sevilha como uma referência para a construção de respostas internacionais em três frentes principais: catalisar investimentos em larga escala para o desenvolvimento sustentável, enfrentar a crise da dívida e do desenvolvimento e reformar a arquitectura financeira internacional.
Para Angola, segundo Luís Epalanga, estes desafios internacionais tornam ainda mais necessária a criação de mecanismos que permitam aumentar a capacidade interna de mobilização de recursos e, simultaneamente, ampliar o acesso a fontes externas de financiamento em condições adequadas.
Economia angolana regista crescimento de 8,74%
Apesar das incertezas internacionais, o secretário de Estado para o Planeamento destacou sinais de resiliência da economia angolana, sobretudo através da recuperação da actividade económica, da desaceleração da inflação e da evolução das contas externas.
Segundo os dados apresentados na intervenção, no segundo trimestre de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) de Angola registou um crescimento homólogo de 8,74%, depois de uma expansão de 5,32% no trimestre anterior.
Para o conjunto do ano, a perspectiva apresentada aponta para um crescimento de 5,57%. Entretanto, na semana passada, o Banco Nacional de Angola (BNA) reviu em alta a previsão do PIB este ano para 6,15%, face aos 3,6% da previsão em Julho, sustentado pela dinâmica do setor não petrolífero.
Luís Epalanga associou estes resultados à maior resiliência da economia e à crescente contribuição dos sectores não petrolíferos, considerando que a evolução da estrutura produtiva demonstra sinais de diversificação económica.
Entre 2021 e 2025, explicou, o peso do sector petrolífero no PIB reduziu-se de 23,83% para 13,95%, enquanto o sector não petrolífero passou a representar 86,05% da economia nacional.
Na intervenção, o secretário de Estado considerou que a diversificação económica está, progressivamente, a traduzir-se numa transformação concreta da estrutura produtiva nacional.
“Estes resultados reflectem maior resiliência e a crescente contribuição dos sectores não petrolíferos”, sublinhou.
Inflação desacelera para 9,33%
Outro indicador destacado pelo responsável foi a evolução dos preços. Em Julho de 2026, o Índice de Preços no Consumidor Nacional (IPCN) registou uma variação homóloga de 9,33%, contra 19,48% no mesmo período do ano anterior.
A redução da inflação, segundo Luís Epalanga, contribui para uma maior previsibilidade da actividade económica, protecção do poder de compra e criação de melhores condições para o planeamento e o investimento. O secretário de Estado, no entanto, sublinhou que a estabilidade macroeconómica não significa ausência de desafios.
Défice fiscal reforça necessidade de melhorar qualidade da despesa
Entre os desafios apontados está a situação das contas públicas. No segundo trimestre de 2026, o saldo fiscal registou, segundo os dados apresentados na intervenção, um défice de 2,0 biliões de kwanzas, mais 2,2 biliões de kwanzas em relação ao período homólogo, em resultado do crescimento da despesa e da redução da receita.
O saldo primário foi igualmente deficitário, situando-se em 313,3 mil milhões de kwanzas, enquanto o saldo fiscal não petrolífero agravou-se de 3,1 biliões para cerca de 5,6 biliões de kwanzas.

Perante este cenário, Luís Epalanga defendeu a necessidade de melhorar a qualidade da despesa pública, aumentar a eficiência na utilização dos recursos e orientar o financiamento para investimentos com maior impacto económico e social.
“Este quadro reforça a necessidade de melhorar a qualidade da despesa pública, a eficiência na utilização dos recursos e a capacidade de orientar o financiamento para investimentos com maior impacto económico e social”, afirmou.
Conta corrente atinge 2,08 mil milhões de dólares
No sector externo, o secretário de Estado destacou igualmente a evolução positiva de alguns indicadores. O saldo da conta corrente atingiu 2,08 mil milhões de dólares, face aos cerca de 400 milhões de dólares registados no ano anterior.
As Reservas Internacionais situaram-se em 14,94 mil milhões de dólares, equivalentes a cerca de sete meses de importações. Ao mesmo tempo, a dívida governamental aumentou 16,40% em termos homólogos, correspondendo a 51,24% do PIB.
De acordo com os dados apresentados, este nível permanece abaixo do limite de 60% estabelecido pela Lei da Sustentabilidade das Finanças Públicas. Para Luís Epalanga, os indicadores apresentados demonstram a existência de sinais de resiliência, mas também evidenciam a necessidade de preservar os ganhos alcançados e criar maior espaço para financiar o desenvolvimento.
Angola procura diversificar fontes de financiamento
Foi neste contexto que o secretário de Estado para o Planeamento colocou a mobilização de financiamento para o desenvolvimento como uma questão central para Angola. Na sua intervenção, defendeu que a mobilização de recursos em larga escala, num contexto global fragmentado, exige uma combinação de diferentes medidas.
Entre elas está a diversificação económica, acompanhada por reformas fiscais orientadas para maior rigor na gestão da dívida pública. Luís Epalanga destacou igualmente a necessidade de apostar em corredores logísticos, capazes de atrair investimento privado, reforçar a integração regional e dinamizar a agricultura e as exportações.
Neste domínio, referiu o Corredor do Lobito como uma das infraestruturas com potencial para contribuir para a integração regional e para a dinamização da actividade económica.
A estratégia deverá ainda contemplar a manutenção da estabilidade macroeconómica e a transição para novos sectores produtivos, com o objectivo de reduzir a exposição da economia nacional aos choques externos.
BAD mantém carteira de 1,5 mil milhões de dólares em Angola
A cooperação com o Banco Africano de Desenvolvimento foi igualmente destacada como uma componente importante da estratégia de mobilização de financiamento para o desenvolvimento.
Luís Epalanga salientou que Angola e o BAD têm vindo a desenvolver iniciativas direccionadas para áreas prioritárias previstas no Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) 2023-2027, com destaque para o desenvolvimento do capital humano e a elevação dos níveis de segurança alimentar e nutricional.
Segundo os dados apresentados, o Banco Africano de Desenvolvimento mantém em Angola uma carteira composta por 11 projectos, incluindo seis operações de investimento, duas operações de assistência técnica, duas operações de apoio institucional, uma linha de crédito, uma garantia de transacção e uma operação de apoio orçamental.
O valor global da carteira foi estimado em 1,5 mil milhões de dólares norte-americanos, com um nível de desembolso de 47% até à data da intervenção. A parceria com o BAD, segundo o secretário de Estado, enquadra-se nos esforços para reforçar a capacidade de Angola mobilizar recursos destinados a projectos de desenvolvimento.
Universidades podem aproximar conhecimento, investimento e inovação
O papel das universidades na mobilização de recursos também mereceu destaque na intervenção. Luís Epalanga considerou que as universidades e os centros especializados podem criar pontes directas entre o conhecimento científico, a capacitação técnica e o ecossistema de investimentos.
Na sua abordagem, apontou três funções principais das universidades e centros especializados: formação em literacia financeira e gestão de fundos públicos; estabelecimento de parcerias estratégicas com o sector privado e o Governo; e incubação de ideias de negócios e apoio a start-ups.
A aposta no conhecimento e na inovação, segundo a intervenção, constitui uma componente importante para ampliar a capacidade produtiva e criar novas oportunidades de investimento.
Parque de Ciência e Tecnologia de Luanda
Entre as operações financiadas pelo Banco Africano de Desenvolvimento, Luís Epalanga destacou o Projecto de Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia, que culminou com a inauguração do Parque de Ciência e Tecnologia de Luanda.
A infraestrutura tem como objectivo promover a cultura da inovação e contribuir para o aumento da competitividade das empresas e instituições que nela se instalem, estejam associadas ou sejam criadas no seu ambiente.
Segundo o secretário de Estado, o Parque deverá disponibilizar às empresas instalações e serviços especializados, estimular a transferência de tecnologia entre universidades, centros de investigação científica e empresas e facilitar a criação e o crescimento de empresas inovadoras através da sua incubadora.
A infraestrutura deverá igualmente disponibilizar serviços de apoio à inovação e à internacionalização das empresas instaladas no Parque e das suas associadas.
Cooperação estratégica assume importância no financiamento do desenvolvimento
Ao longo da intervenção, o secretário de Estado para o Planeamento reforçou a importância da cooperação entre Angola, instituições financeiras internacionais, universidades, sector privado e parceiros de desenvolvimento.
A mobilização de financiamento em escala, segundo a abordagem apresentada, deverá ser acompanhada por uma utilização mais eficiente dos recursos, maior capacidade de execução dos projectos e definição de prioridades alinhadas com as necessidades do desenvolvimento nacional.
A diversificação económica, o desenvolvimento de infraestruturas, o reforço do capital humano, a inovação, a segurança alimentar, a agricultura e a integração regional foram apontados como áreas relevantes para a estratégia de desenvolvimento.
O lançamento do Country Focus Report 2026 constituiu, assim, uma oportunidade para colocar em discussão os desafios e as oportunidades de Angola na mobilização de recursos num contexto internacional marcado por transformações económicas e geopolíticas.
A intervenção de Luís Epalanga centrou-se, por isso, na necessidade de combinar a preservação da estabilidade macroeconómica com a criação de maior espaço para financiar o desenvolvimento, melhorar a qualidade da despesa pública, atrair investimento privado e ampliar as fontes de financiamento disponíveis para Angola.
O desafio passa, segundo a posição apresentada, por mobilizar recursos em escala e garantir que estes sejam direccionados para investimentos capazes de reforçar a capacidade produtiva, promover a diversificação económica e produzir impactos duradouros no desenvolvimento nacional.





