Angola reduz insegurança alimentar extrema, mas pressão moderada atinge máximos

A insegurança alimentar severa em Angola registou uma trajectória de redução nos últimos quatro anos, fixando-se em 19,5% em 2023, abaixo dos 21,6% observados em 2022, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). No período em análise, a diminuição acumulada ronda os 6 pontos percentuais, num contexto marcado pelos efeitos económicos da pandemia e…
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A recuperação pós-pandemia trouxe melhorias nos centros urbanos, enquanto as zonas rurais continuam expostas a riscos estruturais, segundo indicam dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Economia

A insegurança alimentar severa em Angola registou uma trajectória de redução nos últimos quatro anos, fixando-se em 19,5% em 2023, abaixo dos 21,6% observados em 2022, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). No período em análise, a diminuição acumulada ronda os 6 pontos percentuais, num contexto marcado pelos efeitos económicos da pandemia e pelos desafios estruturais do sector agrícola.

Os números são apresentados no “Relatório sobre a Escala de Experiência de Insegurança Alimentar (FIES) 2020-2023”, elaborado pelo INE em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

De acordo com o documento consultado pela FORBES ÁFRICA LUSÓFONA, 2021 foi o ano mais crítico do ciclo recente, com uma prevalência de 29,0% de insegurança alimentar severa. A partir desse pico, registou-se uma redução progressiva, culminando nos 19,5% apurados em 2023 – um sinal de estabilização, ainda que longe de representar conforto estrutural.

A análise territorial revela dinâmicas distintas. Nas áreas urbanas, a insegurança alimentar severa caiu de 28,1% em 2021 para 17,0% em 2023, reflectindo uma recuperação gradual do emprego informal, maior circulação de bens e alguma normalização das cadeias logísticas pós-pandemia. Já nas zonas rurais, apesar da redução em 2022 (19,6%), os níveis mantiveram-se elevados entre 2020 (28,3%) e 2021 (30,1%), evidenciando a vulnerabilidade persistente das economias agrícolas familiares face a choques climáticos e limitações de infra-estruturas.

Se a insegurança severa diminui, os dados revelam, contudo, uma pressão crescente nas categorias intermédias. A insegurança alimentar moderada atingiu 55,1% em 2023, o valor mais elevado do período, face aos 49,6% registados em 2020. Este movimento sugere uma deslocação do risco extremo para uma situação de fragilidade prolongada – menos dramática, mas estruturalmente preocupante.

Já a insegurança alimentar leve apresentou oscilações. A menor prevalência foi registada em 2021 (18,2%), enquanto 2020 e 2023 assinalaram os valores mais elevados (25%). Nas áreas urbanas, a tendência foi de agravamento, passando de 23,4% em 2020 para 29,0% em 2023. Em sentido inverso, nas zonas rurais observou-se uma redução – ainda que não linear – de 26,6% para 18,9% no mesmo período.

Segundo o INE, as estimativas permitem aferir a disponibilidade e o acesso a alimentos variados e nutricionalmente adequados, funcionando como indicador da resiliência económica das famílias. A evolução entre 2020 e 2023 reflecte oscilações fortemente condicionadas pelo impacto da COVID-19, mas também evidencia fragilidades estruturais no sistema agro-alimentar nacional.

Num país que procura diversificar a economia e reduzir a dependência das importações alimentares, os números revelam avanços, mas também sublinham a necessidade de investimento consistente na produção agrícola, logística rural, financiamento ao pequeno produtor e políticas públicas orientadas para a segurança alimentar sustentável.

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