As contas de balanço do Banco de Moçambique (BM) referente a 2019 fecharam com uma reserva do seu auditor independente, o BDO, que conclui haver irregularidades nos cálculos do balanço de 2018 e que pesou nas contas do ano seguinte.
Para o auditor independente, as lacunas nas demostrações financeiras do banco, que resultam de cálculos das operações do ano 2018, não permitiram aos peritos da BDO fazer uma conclusão das operações constadas no balanço do banco.
Em causa está o facto de em 2017 e 2018 o Banco de Moçambique não ter considerado as contas da sua subsidiária Kuhanha – Sociedade Gestora do Fundo de Pensões dos trabalhadores do banco central, que adquiriu uma posição maioritária no Moza Banco, um dos principais bancos comerciais de Moçambique, previamente intervencionado.
Face a esse vazio, o auditor fechou as contas do banco com uma reserva, que justificou, também, pelo facto de o auditor predecessor ter emitido uma opinião a que chama por “adversa”.
“Pelo facto de o auditor predecessor ter emitido uma opinião adversa sobre as demonstrações financeiras do exercício anterior, não nos é possível assegurar a totalidade, existência e exatidão dos saldos iniciais”, lê-se no parecer do auditor independente BDO, assinado em 31 de Dezembro de 2021 e que consta das demonstrações financeiras disponibilizadas desde terça-feira no portal do banco central.
Os auditores consideram que, sem aquela informação sobre os saldos de partida, fica igualmente comprometida a informação sobre “o impacto nos saldos finais de 31 de Dezembro de 2019”.
“Esta situação consubstancia uma limitação ao âmbito do nosso trabalho”, acrescentam os especialistas da BDO.
A compra do Moza Banco gerou discussão pública quanto à sua compatibilidade com o papel do regulador, ao mesmo tempo que a auditora KPMG fechava duas auditorias consecutivas anuais emitindo “opinião adversa”.
Para os auditores, a consolidação da Kuhanha originaria impactos materiais em muitos dos elementos das demonstrações financeiras do BM, pelo que as contas não reflectiam a realidade.
Como o quadro não foi solucionado em 2018, a situação migrou para as demonstrações financeiras de 2019, com as tabelas a incluir uma coluna intitulada “2018 reexpressão”, onde os valores daquele ano são recalculados.
Mas o banco central justifica os novos cálculos com um outro fator acrescido: correções nas operações com ouro e moedas de outros países.
“A reexpressão visa acomodar a mudança da política contabilística, em que o banco passou a consolidar a sua subsidiária Kuhanha, assim como a correção da classificação contabilística do resultado das operações em moeda estrangeira e ouro”, justifica a administração.
Assim, o banco central passou em 2018 de um resultado positivo de 19,6 milhões de euros para um agora reescrito que representa um prejuízo de 173,6 milhões de euros.





