Cabo Verde precisa de até 1,4 mil milhões de dólares por ano para financiar transformação económica

Cabo Verde tem demonstrado uma forte resiliência económica e um compromisso sustentado com as reformas, mas deverá mobilizar investimentos em grande escala para manter o ritmo de crescimento e concretizar as suas ambições de desenvolvimento a longo prazo, segundo o Relatório de Foco Nacional de 2026 do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), lançado na…
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Relatório do Banco Africano de Desenvolvimento destaca resiliência económica do país, mas alerta para a necessidade de mobilizar investimentos em grande escala para sustentar o crescimento e responder às prioridades de desenvolvimento.
Economia

Cabo Verde tem demonstrado uma forte resiliência económica e um compromisso sustentado com as reformas, mas deverá mobilizar investimentos em grande escala para manter o ritmo de crescimento e concretizar as suas ambições de desenvolvimento a longo prazo, segundo o Relatório de Foco Nacional de 2026 do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), lançado na cidade da Praia, a 29 de Julho de 2026.

O estudo estima que a economia cabo-verdiana tenha crescido 5,2% em 2025, depois de uma expansão de 7,3% em 2024, num desempenho impulsionado sobretudo pela continuidade da recuperação e expansão do sector do turismo. O crescimento ocorreu apesar das dificuldades registadas no abastecimento de energia e da redução da ajuda pública ao desenvolvimento.

Para os próximos anos, o BAD prevê a manutenção de um ritmo de crescimento positivo. As estimativas apontam para uma expansão de 4,7% em 2026 e de 5,0% em 2027, sustentada pela procura contínua de serviços turísticos e pelo investimento em infraestruturas.

Necessidades de financiamento atingem 1,4 mil milhões de dólares

Apesar dos progressos alcançados nos últimos anos, o relatório identifica necessidades significativas de financiamento para acelerar a transformação estrutural da economia cabo-verdiana.

De acordo com as estimativas do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento, Cabo Verde necessita de aproximadamente 163 milhões de dólares por ano até 2030 para acelerar a transformação estrutural.

Contudo, quando são consideradas necessidades mais abrangentes de desenvolvimento, incluindo investimentos em infraestruturas, habitação, protecção social, saúde, água e saneamento e transformação digital, o montante necessário sobe para cerca de 1,4 mil milhões de dólares por ano.

O desafio passa, assim, não apenas pela disponibilidade de recursos financeiros, mas também pela capacidade de mobilizar e canalizar esses recursos para projectos capazes de aumentar a produtividade, criar emprego e reforçar a resiliência da economia.

Fundamentos económicos permanecem sólidos

O relatório realça igualmente os avanços registados por Cabo Verde na melhoria dos seus fundamentos macroeconómicos.

A inflação manteve-se relativamente controlada, situando-se em 2,3% em 2025, enquanto a dívida pública prosseguiu a trajectória descendente depois dos níveis elevados registados durante a pandemia da COVID-19.

O saldo orçamental também apresentou uma melhoria, tendo alcançado um excedente equivalente a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

O país é igualmente apontado entre os que apresentam melhor desempenho em África em matéria de governação e reformas do sector público, factores considerados importantes para a criação de condições favoráveis ao investimento e ao desenvolvimento sustentável.

Diáspora representa fonte relevante de capital

Entre as principais fontes de financiamento identificadas pelo relatório estão as remessas da diáspora, o investimento directo estrangeiro, as poupanças internas, os activos de pensões e os seguros.

As remessas dos cabo-verdianos residentes no exterior alcançaram um valor estimado de 310 milhões de euros em 2025, enquanto o investimento directo estrangeiro situou-se em cerca de 148 milhões de dólares.

Para o BAD, estes fluxos podem desempenhar um papel importante na mobilização de capital de longo prazo, desde que sejam progressivamente canalizados para actividades e investimentos produtivos.

O relatório chama igualmente a atenção para a crescente poupança interna, os activos de pensões, os recursos das companhias de seguros e os níveis relativamente elevados de inclusão financeira existentes no país.

A orientação desses recursos para sectores produtivos poderá contribuir para apoiar o crescimento económico, fortalecer a capacidade de resposta a choques externos e acelerar a transformação estrutural.

BAD defende sistema financeiro mais integrado

O economista do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento para Cabo Verde e principal autor do relatório, Felisberto Mateus, considera que o país dispõe de uma base institucional importante para avançar para uma nova fase do seu desenvolvimento.

“Cabo Verde construiu instituições fortes e manteve um sólido historial de reformas”, afirmou o economista, defendendo que a prioridade passa agora por garantir que o capital disponível seja mobilizado para investimentos com impacto na economia.

Segundo Felisberto Mateus, a próxima fase deverá concentrar-se na capacidade de transformar os recursos financeiros disponíveis em investimentos capazes de gerar emprego, melhorar a produtividade e reforçar a resiliência económica.

Neste contexto, apontou a construção de um sistema financeiro mais integrado e eficaz como um dos elementos fundamentais para aumentar a capacidade de financiamento do desenvolvimento.

Turismo, pescas e economia azul entre as oportunidades

O relatório identifica ainda um conjunto de sectores com potencial para atrair novos investimentos e contribuir para a diversificação da economia cabo-verdiana.

Entre as oportunidades estão o turismo, as pescas, as energias renováveis, os serviços digitais e a economia azul, sectores que poderão beneficiar de mecanismos de financiamento mais diversificados e de maior participação do sector privado.

O BAD recomenda igualmente o reforço da mobilização de recursos internos, a expansão das parcerias público-privadas, a mobilização do capital da diáspora e o aumento do acesso ao financiamento institucional de longo prazo.

A diversificação das fontes de financiamento é apresentada como uma condição relevante para reduzir as limitações impostas pela dimensão da economia cabo-verdiana e pela necessidade de financiar projectos de maior escala.

Próxima etapa passa por transformar capital em investimento

O relatório conclui que Cabo Verde construiu uma base relativamente sólida para sustentar o crescimento futuro, apoiada numa gestão macroeconómica prudente, reformas institucionais e avanços na governação.

O principal desafio identificado consiste agora em desbloquear investimento à escala necessária para financiar as prioridades nacionais de desenvolvimento.

Para o BAD, a capacidade de transformar remessas, poupanças internas, investimento estrangeiro, activos de pensões e outros recursos financeiros em investimento produtivo será determinante para que o país consiga reforçar a sua resiliência, acelerar a transformação económica e sustentar uma trajectória de prosperidade duradoura e inclusiva.

 

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