Define-se como uma mulher extrovertida e a agressiva nos negócios. Tatiana Eusebia Mata começou a trabalhar aos 17 anos de idade. Formou-se na Universidade de Pretoria, África do Sul, onde obteve uma licenciatura em Produção Animal e um mestrado em Empreendedorismo e Inovação.
Depois de estar a trabalhar para outrem, em terras de Nelson Mandela, decidiu criar a sua própria empresa de creating. A ideia, conta à FORBES ÁFRICA LUSÓFONA, surgiu quando uma amiga precisava de uma empresa que formasse pessoal, começando assim o seu trajecto no mundo do empreendedorismo, que se estendeu depois para Moçambique, sua terra-natal, onde criou uma empresa na área de consultoria e finanças.
“Comecei a minha empresa no meu quarto, depois comprei uma secretaria que existe até hoje. O investimento inicial de empresa foi de 100 dólares. Foi mais um investimento de networking, porque foi sentar e as pessoas vinham para me dar trabalho”, explica.
Tatiana refere que nunca tinha feito nada igual e que, por acreditar ser boa de gerir processos e cozinha, organizou-se e obteve sucesso. Depois disto, não mais parou. Hoje tem um grupo composto por quatro empresas. “Mas antes de ter essas já tive outras duas. Sou uma empreendedora em série, estou sempre a empreender”, afirma.
Entre as empresas por si criadas, destaca-se a ELIM Serviços Lda, uma das maiores empresas de consultoria em Moçambique, que surgiu quando a solicitaram que fizesse alguns trabalhos, de forma independente, para uma organização com sede no Canada.
“Estava desempregada e então questionei-me: porque não abrir uma empresa?”.
Um amigo jurista ajudou-a a formalizar a empresa, uma vez que, mesmo desempregada, recebia vários pedidos para fazer estudos de mercado. A empreendedora passou a gerir os projectos e amigo ia ao campo recolher as informações necessárias. O contrato com a organização do Canada abriu-lhe portas para outros tantos, inclusive da antiga empresa sul-africana em que trabalhava.
“A empresa dos meus ex-patrões na África do Sul são agora um dos meus principais parceiros em Moçambique. Concorremos juntos para grandes projectos que acabamos por ganhar 25 milhões de dólares. Eu sou agora a grande parceira deles na área agraria”, garante a especialista em Finanças Rurais, com 20 anos de experiência em agronegócio, desenvolvimento rural e empresarial.
A economista agraria disse que durante o seu percurso profissional trabalhou em vários países, entre os quais Angola e Namíbia, mas que chegou uma altura que sentiu o chamado para contribuir no desenvolvimento do seu país.
“Apesar de várias propostas para trabalhar em outros países, não aceitei. Achei que já era hora de apostar em novos mercados e estava na hora de fazer algo pelo meu país”, realçou.
Quinze anos depois de ter criado a ELIM Serviços, Tatiana Mata faz um balanço positivo do desempenho da empresa, que diz continuar a ser “uma boa referência” a nível internacional.
“Se formos a falar ELIM serviços, as pessoas têm boa referência. Nestes 15 anos, aprendi e cresci muito como profissional”, nota.
Diz sentir-se orgulhosa pelo facto de ser uma mulher jovem e estar a contratar senhores de 60 anos para trabalharem. “Essas pessoas trabalhavam para o Estado e começaram a vir trabalhar para mim e conhecerem o mundo da consultoria”, precisa.
Segundo a empresária, 99% dos seus clientes são instituições internacionais, em que se destacam o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Banco mundial, FCDO – Foreign, Commonwealth & Development Office, com projectos de longos e curtos prazos.
“As pessoas confiam nos nossos serviços e isso para mim é importante”, garantiu Tatiana, que fez saber que estão também a treinar jovens moçambicanos para entenderem os tipos de projectos de organizações internacionais e como lhe dar com estas entidades.
“Diariamente vários são os jovens moçambicanos que fazem filas para participarem nos nossos programas de estágios, mesmo estando eles a trabalharem em outras empresas”.
Estes são entre outros, os benefícios que a empreendedora diz oferecer ao mercado do seu país, ao longo dos 15 anos de existência da sua consultora. Embora ter atingido grande parte dos objectivos definidos, diz ter ainda muito mais coisas por concretizar.
A empresa que terá investido ao longo dos anos 18 milhões de dólares, sem recurso à financiamentos bancários, tem actualmente um volume de negócios anual a rondar os 13 milhões de dólares.
“Durante 15 anos que venho reinvestindo os rendimentos gerados na própria empresa e é graças a isto que continuamos a crescer”, indicou. A título de exemplo, Tatiana avança que, neste momento, o foco está em investir para ganhar grandes projectos, avaliados em mais de 20 milhões de dólares.
Segundo a empresaria, o grupo está a desenvolver um projecto no valor de 9 milhões de libras- (11,1 milhões de dólares), e estão na disputa de um outro que pode rondar os 40 milhões de dólares.
“Nós desenhamos, avaliamos e implementamos programas. Na maior parte das vezes, os clientes com projectos de curto prazo vêm a nós e solicitam-nos avaliação dos seus programas. Além destes, avaliamos algumas organizações que financiam o Estado ou ou o sector não governamental nos programas de desenvolvimento rural e socioeconómico, por exemplo, para aumentar a capacidade da produção de pequenos produtores, nas zonas rurais”, detalhou.
Basicamente, os técnicos da ELIM Serviços recolhem e analisam dados, na maior parte das vezes, mas também sugerem potenciais áreas para investimento aos seus clientes, seja no mercado regional ou internacional. “Fazemos estudo de cadeia de valor”, afirma a fundadora do grupo.
A economista garante que a ELIM impacta milhares de produtores e pequenas empresas de base, ao longo da cadeia de valor. “Quando sugerimos alguma coisa, as pessoas param para ouvir e levam em consideração o que sugerimos”.
Na zona rural, a empresa criou lojas de assistência ao pequeno produtor, distribuição de insumo, assistência técnica – que beneficiam, directamente, 23 mil produtores – que se tornam depois em microempresas.
Sobre a expansão dos serviços do grupo aos demais países lusófonos, Tatiana Mata adianta ter já pensado em investir em Angola. “Estava a criar mecanismo para entrar no mercado angolano, antes da Covid-19. Gosto de Angola, tanto é que chegamos a falar com o Ministério das Finanças e estavam muito interessados nos nossos trabalhos, mas devido a Covid nós paramos”, conta.
A empresária considera, no entanto, que Angola, continua a ser um país interessante para se fazer negócio. Além de Angola, a economista agrária tem também interesse em escritórios em Portugal.
De um modo geral, Tatiana considera o meio rural dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) “fértil” para actuação, mas defende que deve haver mais comunicação e interacção entre os empresários.
“Sinto muita colaboração entre as várias associações, mas a nível empresarial não sinto essa colaboração entre os empresários. Não há interligação. Nós não fazemos negócios entre nós, não exploramos muito isso. Seria importante nós exploramos mais e termos bases de dados nossos, no sentido de explorar a nossa região”, descreve.
Fruto desta pouca interacção e comunicação entre a classe empresarial dos PALOP, Tatiana tem se focado mais em parcerias especializadas com empresas americanas, zimbabueanas, sul-africanas, fora as do seu próprio país.
No que tem que ver com o ramo em que actua, a empresária refere que o trabalho de consultoria de mercado esta a “desenvolver bastante” a nível da África e nos PALOP, em particular. “Já há bons consultores nos PALOP. Hoje não tens de viajar para fazer parcerias. Já podes contratar pessoal local, com as experiências profissionais que os clientes buscam”, assegurou.
“Sou uma mulher agressiva nos negócios”

Tatiana diz que as questões do género nunca inibiram a sua actuação, em qualquer ramo empresarial, por se considerar “uma mulher um pouco agressiva” nos negócios.
“Quando decido ter uma coisa o género não me assusta. Não vejo isso como primeiro obstáculo para fazer negócios. Na verdade, o que realmente sinto é que o clube dos homens é unido, eles têm uma forma de facilidade e de partilha de informação entre eles”, afirma.
Contrariamente aos homens, prossegue, as mulheres têm de “furar” sempre para conseguir ter acesso à partilha de informações. O networking, frisa, é a única forma de garantir que se sabe tudo que acontece no mercado. “Ser mulher pode ser uma dificuldade se não tiveres os teus links e credibilidade no mercado, mas eu sou a primeira mulher a adiantar em tudo, então consigo quebrar essa barreira e permitir a entrada de outras mulheres nestes fóruns”.
Tatiana foi, de resto, a primeira mulher a presidir a confederação das Associação Económicas em Moçambique, algo que diz não ter agradado muitos homens, mas que, ainda assim, não a intimidou.
“Uma mulher jovem a liderar, foi um choque para muitos deles [homens]. O facto de ter ganho credibilidade no mercado permitiu que eles achassem normal ter uma mulher a liderar, mas aquele momento abalou as estruturas dos senhores”, assinalou, para mais adiante afirmar já ter quebrado muitas barreiras.





