A verdadeira riqueza de um país não reside apenas nos recursos naturais que possui, mas na capacidade de transformá-los em conhecimento, produtividade, inovação e prosperidade.
Esta premissa coloca Angola perante um dos maiores desafios da sua trajectória económica: transitar de uma economia estruturalmente dependente do exterior para uma economia sustentada em competências internas.
A dependência externa manifesta-se pela necessidade recorrente de importar bens, tecnologias, serviços especializados e financiamento.
A competência interna, por sua vez, traduz-se na capacidade nacional de produzir, inovar, gerir recursos e competir nos mercados internacionais.
Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (2026), o petróleo representa cerca de 95% das exportações e 60% das receitas públicas angolanas. Esta concentração evidencia a vulnerabilidade da economia às oscilações de conjuntura internacional.
Factual é que nenhuma economia moderna funciona e prospera isoladamente, pois possuem um grau de dependência do exterior. O dilema reside na incapacidade de transformar a dependência inicial em aprendizagem, domínio tecnológico e autonomia produtiva.
A Coreia do Sul constitui um exemplo paradigmático. Com recursos naturais limitados, apostou na educação, industrialização orientada para exportações, investigação e desenvolvimento tecnológico. Transformou-se, progressivamente, numa potência industrial e tecnológica, demonstrando que o conhecimento pode superar as limitações da dotação natural de recursos.
Singapura seguiu um percurso assente na qualidade institucional, formação de capital humano, eficiência logística e atracção de investimento estrangeiro associado à qualificação produtiva.
O Vietname combinou reformas económicas, investimento estrangeiro, integração nas cadeias globais de valor e expansão da indústria exportadora. Embora ainda enfrente desafios de incorporação tecnológica nacional, demonstrou que a abertura económica pode acelerar a transformação produtiva.
O denominador comum destas experiências não foi o isolamento económico, mas a utilização estratégica das relações externas para desenvolver capacidades internas.
“A questão decisiva não é produzir tudo internamente, mas desenvolver capacidade para produzir competitivamente aquilo em que Angola pode criar maior valor…”
Em Angola, iniciativas como o PRODESI representam esforços relevantes de diversificação e promoção da produção nacional. Contudo, substituir importações não significa necessariamente construir competitividade.
Produzir internamente bens anteriormente importados, sem ganhos de produtividade, qualidade e eficiência, poderá apenas substituir a dependência externa por actividades nacionais pouco competitivas e permanentemente subsidiadas.
A transformação exige uma política económica que articule industrialização, investigação aplicada, qualificação profissional, financiamento produtivo e integração empresarial.
No sector mineiro, por exemplo, a criação de valor não deverá limitar-se à extracção e exportação de matérias-primas. Deve incorporar beneficiamento, transformação, serviços técnicos, laboratórios, engenharia e fornecedores nacionais especializados.
Na agricultura, a prioridade deverá abranger toda a cadeia agro-industrial, desde a produção até à transformação, conservação, logística e comercialização.
O Corredor do Lobito poderá igualmente constituir uma plataforma de industrialização e integração regional, desde que associado ao desenvolvimento de cadeias produtivas nacionais.
Angola necessita de evoluir de políticas centradas exclusivamente na produção nacional para uma estratégia de construção de competências, sustentada em cinco prioridades: educação técnica e científica; transferência efectiva de tecnologia; financiamento à produtividade; fortalecimento das instituições; e integração competitiva nos mercados regionais e internacionais.
O Estado deverá actuar como orientador estratégico, regulador e facilitador, assegurando deste modo a previsibilidade e concorrência. Às empresas compete investir, inovar, qualificar trabalhadores e gerar riqueza.
A questão decisiva não é produzir tudo internamente, mas desenvolver capacidade para produzir competitivamente aquilo em que Angola pode criar maior valor, pois o crescimento e desenvolvimento económico não se mede apenas pelo que um país extrai/produz, importa ou consome, mas sobretudo pelo que consegue aprender, transformar e acrescentar à economia local e mundial.





