Angola ocupa a 26.ª posição entre 54 países africanos avaliados no Índice Africano de Ecossistemas Empreendedores, com uma pontuação de 1,77, um resultado que evidencia o potencial do país, mas também a necessidade de acelerar reformas para transformar iniciativas empreendedoras em empresas inovadoras, investimento e criação de emprego.
Os dados foram apresentados durante o encontro africano de construtores de ecossistemas de start-ups, que decorre de 20 a 22 de Outubro, nas instalações da Alexander Forbes, em Sandton, Joanesburgo, no âmbito dos Africa Startup Ecosystem Builders Awards (ASEB) 2026.
A reflexão sobre o desempenho angolano teve como base os resultados apresentados na sessão “From Ecosystem Evidence to Action: Exploring the Africa Entrepreneurial Ecosystem Index Data Dashboard”, que permitiu analisar os avanços, as fragilidades e as oportunidades para o desenvolvimento do empreendedorismo no continente.
Segundo a análise apresentada, Angola dispõe de vantagens económicas e demográficas relevantes. O Produto Interno Bruto (PIB) do país situa-se 7,2% acima da média africana considerada no índice, enquanto a população está 4,2% acima da mesma referência, factores que podem favorecer a expansão do mercado, a criação de empresas e a atracção de investimento.
Entretanto, a dimensão económica e populacional não se traduz automaticamente num ecossistema empreendedor competitivo. A melhoria do ambiente de negócios depende igualmente da eficiência das instituições, do acesso ao financiamento, da qualidade das infra-estruturas e da existência de redes de apoio capazes de transformar conhecimento e criatividade em negócios sustentáveis.
Lei das Start-ups é apontada como prioridade
Entre os principais desafios identificados estão as fragilidades relacionadas com o Estado de Direito e a regulamentação empresarial, cujos indicadores apresentam diferenças negativas de 12,2% e 18,5%, respectivamente, face à média africana de referência.
Perante este cenário, foi reiterada a necessidade de acelerar o processo legislativo e assegurar a aprovação definitiva da Lei das Start-ups, cuja aprovação na generalidade ocorreu há praticamente um ano, segundo a informação apresentada.
A medida é considerada importante para estabelecer um quadro jurídico moderno, simples e previsível, capaz de reconhecer as especificidades das start-ups, facilitar a constituição de empresas, promover incentivos adequados e reforçar a segurança dos investidores nacionais e internacionais.
A análise reconhece também as iniciativas do Executivo destinadas a melhorar o ambiente de negócios, incluindo o estudo de caracterização das micro, pequenas e médias empresas (MPME), liderado pelo Instituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas (INAPEM), com o apoio da União Europeia.
Contudo, é defendida a necessidade de acelerar a implementação das medidas e assegurar que as iniciativas em curso produzam resultados concretos e mensuráveis para os empreendedores.
Financiamento continua entre os principais obstáculos
O acesso ao capital surge como uma das áreas mais críticas para o desenvolvimento das startups angolanas. De acordo com os dados apresentados, o indicador de financiamento de Angola é de apenas 0,03, abaixo da média africana de 0,11.

O crédito privado apresenta um défice de 13,6%, enquanto a presença de capital de risco permanece reduzida, limitando as possibilidades de crescimento e expansão das empresas emergentes.
Para inverter este quadro, é defendida a criação de condições para atrair fundos de investimento, investidores-anjo e operadores de capital de risco, bem como o desenvolvimento de instrumentos financeiros adaptados às necessidades das start-ups.
A aprovação da Lei das Start-ups poderá contribuir para reforçar a confiança dos investidores e parceiros internacionais, desde que seja acompanhada por incentivos ao investimento, mecanismos de partilha de risco e maior articulação entre o sistema financeiro e o sector empreendedor.
Centros de inovação precisam de maior apoio
Os centros de inovação e as redes profissionais constituem igualmente áreas que exigem intervenção. Os indicadores apresentados registam diferenças negativas de 13,4% nos centros de inovação e de 9,1% nas redes profissionais.

Apesar da existência de incubadoras, aceleradoras, universidades e organizações dedicadas ao desenvolvimento empresarial, muitas destas estruturas enfrentam limitações financeiras, técnicas e institucionais que condicionam a sua capacidade de apoiar projectos inovadores.
Neste sentido, é defendido o reforço dos centros existentes, a promoção da cooperação entre universidades, empresas e investidores e a criação de programas de apoio orientados para resultados concretos.
A aposta passa também por ampliar o acesso dos jovens à mentoria, aos mercados e ao investimento, criando condições para que o talento e a criatividade se traduzam em empresas competitivas e sustentáveis.
Três prioridades para melhorar a posição de Angola
Com base nos resultados apresentados em Joanesburgo, foram identificadas três prioridades estratégicas para fortalecer o ecossistema nacional de startups: acelerar a aprovação e implementação da Lei das Start-ups; mobilizar investimento nacional e internacional, através de mecanismos de financiamento adequados; e reforçar os centros de inovação, incubadoras e aceleradoras, promovendo uma rede nacional articulada e sustentável.
Estas medidas são consideradas fundamentais para apoiar a diversificação económica, em linha com os objectivos da Estratégia Angola 2050 e do Plano de Desenvolvimento Nacional 2023–2027.
A expectativa é que a concretização destas prioridades contribua para melhorar as condições de criação e crescimento das empresas, ampliar as oportunidades para os jovens e reforçar a capacidade do país para atrair capital destinado a projectos inovadores.
Representante angolano é finalista nos ASEB 2026
A participação de Angola nos Africa Start-up Ecosystem Builders Awards 2026 é apresentada como um sinal do envolvimento de actores nacionais na construção e consolidação do ecossistema empreendedor.
Nesta edição, um representante angolano integra a lista de finalistas da categoria Campeão do Ano na Construção de Ecossistemas de Start-ups, distinção que procura reconhecer o trabalho desenvolvido em prol do fortalecimento destes ambientes de inovação e criação de empresas.
A nomeação é também apontada como um reconhecimento do contributo colectivo de empreendedores, organizações, incubadoras e outros intervenientes que promovem o empreendedorismo como instrumento de desenvolvimento económico.
Embora a 26.ª posição represente uma oportunidade de melhoria, os resultados do índice são encarados como um ponto de partida para acelerar reformas, reforçar parcerias e criar condições para que Angola conquiste uma posição mais competitiva no panorama africano.
A mensagem central deixada no encontro é a necessidade de transformar os indicadores em medidas concretas, com prioridade para a aprovação da Lei das Start-ups, a mobilização de investimento e o fortalecimento das estruturas de apoio à inovação.
Mais do que aumentar o número de empreendedores, o desafio de Angola passa por criar condições para que as start-ups consigam crescer, atrair investimento, gerar empregos e competir nos mercados nacional, regional e internacional.





