Énia Lipanga é a única mulher moçambicana na semifinal do Prémio Oceanos 2026

Énia Lipanga é a única mulher moçambicana entre os 54 semifinalistas do Prémio Oceanos 2026, numa edição que recebeu 3.086 obras e colocou oito escritores de Moçambique na corrida pelas distinções de prosa e poesia. Além de Lipanga, seleccionada com a obra “Sob a Capulana do Destino e Outros Escritos”, a semifinal reúne, na prosa,…
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Entre milhares de obras inscritas no Prémio Oceanos 2026, oito escritores moçambicanos chegaram à semifinal. Énia Lipanga é a única mulher do país nesta fase e transforma a distinção numa oportunidade para questionar as barreiras que ainda condicionam a presença feminina na escrita, edição e crítica literária.
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Énia Lipanga é a única mulher moçambicana entre os 54 semifinalistas do Prémio Oceanos 2026, numa edição que recebeu 3.086 obras e colocou oito escritores de Moçambique na corrida pelas distinções de prosa e poesia.

Além de Lipanga, seleccionada com a obra “Sob a Capulana do Destino e Outros Escritos”, a semifinal reúne, na prosa, os também moçambicanos Lucílio Manjate e João Paulo Borges Coelho. Na poesia, avançaram Zacarias Nguenha, Ben Jone, Britos Baptista, Pedro Lopes e Whaskety Fernando.

A presença moçambicana ganha particular relevo pela representação feminina. Lipanga é a única mulher do país entre os 54 semifinalistas e vê a selecção não apenas como um reconhecimento do seu trabalho, mas também como um incentivo para continuar a escrever e a ocupar espaços num sector onde identifica barreiras ainda significativas para as mulheres.

“Estar nesta lista ao lado de nomes importantes da literatura moçambicana é uma daquelas coisas que ainda estou a tentar digerir”, afirma a escritora, em entrevista à FORBES ÁFRICA LUSÓFONA. Para Lipanga, a distinção representa sobretudo um desafio para acreditar mais na própria escrita e persistir num percurso literário que considera ainda recente.

“Muitas vezes, por conta da construção social que nos é imposta enquanto mulheres, ensaio uma certa coragem até para publicar os livros. Há sempre uma voz que pergunta se isto merece mesmo chegar ao público. Por isso, se esta literatura que considero ainda nova foi notada a ponto de alcançar este destaque, entendo que preciso continuar a ousar escrever”, sublinha.

A escritora considera que a presença feminina na literatura passa também pela capacidade de as mulheres se apoiarem mutuamente e ocuparem espaços para contar as suas próprias histórias. No caso da obra agora reconhecida pelo Oceanos, essas narrativas partem, em particular, de experiências femininas e de diferentes dimensões das “moçambicanidades e vivências” das mulheres.

“Muita da escrita sobre Moçambique carrega também a utopia de um país melhor, e hoje continuamos a ter sonhos, embora voltados para outras melhorias, próprias do nosso tempo. Sinto que a literatura é uma marcha contínua, que se vai moldando de acordo com as épocas, as crises e as alegrias que atravessamos”, refere.

A actual presença de Lipanga na semifinal surge depois de Teresa Noronha ter sido anteriormente destacada como finalista do prémio com o livro “Tornado”. Para a escritora, estes percursos mostram avanços, mas não afastam a necessidade de uma maior participação feminina no sector literário moçambicano.

O problema, defende, começa muitas vezes na própria forma como as mulheres encaram a sua produção intelectual e artística. “Muitas de nós enfrentamos barreiras por sermos mulheres, muitas vezes precisamos de interromper, ou até ‘matar’, a escritora que há em nós.”

“Escrever e publicar exige tempo, visibilidade pública e a permissão interna de nos considerarmos merecedoras de ocupar espaço”, acrescenta.

Lipanga aponta ainda para obstáculos estruturais que ultrapassam o acto de escrever. Entre eles estão o tempo disponível para a criação, condicionado pelas responsabilidades familiares, e a predominância masculina nos espaços de decisão, edição e crítica. Na sua perspectiva, esta composição acaba também por influenciar aquilo que é reconhecido como “boa literatura” e os autores que conseguem chegar ao público.

“Se são os homens que ocupam a maior parte dos espaços de decisão e que dominam o que se escreve e o que se lê, serão também eles que precisam de compreender esta necessidade da nossa presença, não como ameaça ou usurpação de espaço, mas como um lugar que pertence a todas e todos”, defende.

A escritora considera que a igualdade de representação exige, por isso, não apenas maior participação das mulheres na produção literária, mas também uma mudança nos espaços que determinam quais as obras publicadas, promovidas, criticadas e reconhecidas.

Criado para promover a circulação da literatura escrita em língua portuguesa, o Prémio Oceanos é uma das principais distinções literárias dedicadas à produção em português, independentemente do local onde as obras são publicadas. Depois da fase semifinal, os dez finalistas serão avaliados por um novo júri internacional, que escolherá um vencedor na categoria de prosa e outro na de poesia.

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