Durante décadas, falou-se numa ordem internacional baseada em regras: previsível, institucionalizada e amplamente liderada pelos Estados Unidos, apoiada por alianças multilaterais e sustentada pela expansão da globalização. Essa narrativa já não descreve plenamente o mundo actual. A linguagem das regras mantém-se, mas a prática internacional entrou numa fase diferente, marcada pela competição aberta, desconfiança crescente e a disputa frontal pelo poder.
O ponto central é simples: a ordem antiga ainda existe no papel, mas perdeu autoridade. E a nova ordem ainda não ganhou forma estável.
O multipolarismo deixou de ser uma hipótese académica. Tornou-se realidade operacional. Os Estados Unidos continuam a deter superioridade militar e a liderança tecnológica significativa, mas já não conseguem conduzir o sistema internacional de forma isolada. A China consolidou peso económico global e ambição estratégica clara. A Rússia mantém capacidade militar relevante e disposição para a confrontação. A Índia cresce economicamente e recusa os alinhamentos automáticos. Ao mesmo tempo, várias potências regionais actuam hoje com maior autonomia, transformando o tabuleiro internacional num sistema mais complexo, fragmentado e menos previsível.
Contudo, o multipolarismo não significa necessariamente estabilidade. Pelo contrário, pode significar rivalidades simultâneas, alianças voláteis e crises recorrentes. O mundo actual já não possui um árbitro inequívoco; possui múltiplos centros de poder, cada um com as suas prioridades próprias e instrumentos de influência cada vez mais sofisticados. O ambiente internacional tornou-se estruturalmente mais duro e menos cooperativo.
Neste contexto, surge uma contradição central: a própria potência que estruturou a ordem do pós-guerra passou, em certos momentos, a enfraquecer a percepção de legitimidade desse sistema através de práticas unilaterais. Não por falta de poder, mas pela sua aplicação selectiva. Para muitos países, a chamada ordem baseada em regras passou a ser vista menos como um quadro universal e mais como um mecanismo dependente de conveniência estratégica. Quando a previsibilidade das normas diminui, os Estados procuram alternativas económicas, diplomáticas e tecnológicas.
É neste ponto que a competição global entra numa nova fase. A disputa entre Washington e Pequim já não é apenas militar nem estritamente comercial. É uma disputa pela infra-estrutura invisível do poder: a tecnologia.
Hoje, a tecnologia tornou-se território estratégico. A inteligência artificial tornou-se centro de gravidade. Quem liderar estes domínios não obtém apenas vantagem industrial; obtém capacidade estrutural de comando económico, financeiro e militar.
A competição concentra-se em áreas críticas: semicondutores avançados, computação de alto desempenho, controlo de dados massivos, redes de telecomunicações, plataformas cloud, cibersegurança e cadeias de abastecimento de minerais raros essenciais à economia digital. Estes elementos formam a base do novo poder sistémico. Quem controla chips, controla a capacidade produtiva. Quem controla dados, influencia mercados e sociedades. Quem controla algoritmos, condiciona decisões.
Países que não desenvolvam capacidade tecnológica mínima própria verão a sua autonomia política condicionada por dependências técnicas externas.
A inteligência artificial acrescenta ainda um fatcor decisivo: a automação da análise e da decisão. Os Estados com capacidade avançada de inteligência artificial conseguem prever padrões económicos, reforçar a vigilância financeira, optimizar a estratégia de defesa e segurança, gerir as infra-estruturas críticas e acelerar a inovação científica. O poder deixa assim de depender apenas de exércitos ou recursos naturais e passa a depender da arquitetura tecnológica nacional.
Mas existe um terceiro vector decisivo: o chamado Sul Global. Muitos países africanos, latino-americanos e asiáticos recusam ser integrados automaticamente numa lógica de blocos rígidos. Procuram investimento, acesso a energia, infra-estruturas e comércio diversificado. Preferem relações múltiplas e pragmáticas. Esta postura indica que o mundo emergente não será bipolar; será transacional, competitivo e permanentemente negociado.
É precisamente neste cenário que surge o verdadeiro desafio estratégico para África.
Para os governos africanos, a disputa tecnológica global não é abstrata nem distante. Ela definirá, de forma concreta, o grau de soberania efectiva dos Estados nas próximas décadas. Num mundo em que grandes potências competem pelo controlo de redes digitais, sistemas financeiros electrónicos, plataformas de dados e inteligência artificial, países que não desenvolvam capacidade tecnológica mínima própria verão a sua autonomia política condicionada por dependências técnicas externas.
A nova dependência não será imposta por bases militares ou tratados ideológicos. Será construída através de softwares, normas técnicas, infra-estruturas digitais, plataformas financeiras e sistemas de gestão pública dependentes de fornecedores externos. Num ambiente governado por fluxos digitais, quem não controla a sua infra-estrutura digital não controla plenamente o funcionamento do seu próprio Estado.
A resposta estratégica africana não passa por escolher um parceiro exclusivo. Passa por definir prioridades internas estruturais. Para tal, três vectores tornam-se essenciais: investimento consistente em conectividade e centros de dados nacionais e regionais; programas massivos de formação em engenharia digital, cibersegurança e ciência de dados; e quadros legais robustos sobre soberania, armazenamento e protecção de dados críticos do Estado e dos sectores estratégicos.
No século XX, infra-estrutura significava portos, estradas e barragens. No século XXI, infra-estrutura significa também capacidade computacional, redes digitais resilientes e controlo soberano de informação.
O mundo multipolar que emerge não será apenas uma disputa entre potências militares. Será, sobretudo, uma disputa entre sistemas tecnológicos. E, nessa realidade, a escolha estratégica para África não é ideológica nem diplomática. É estrutural: construir capacidade própria suficiente para negociar com todos e não depender de nenhum.





