Loide Monteiro é há vários anos o rosto das smart cities em Cabo Verde. A engenheira civil trouxe o conceito e a ambição para o arquipélago quando pouco ou nada se falava do assunto no país, porque viu nele as potencialidades necessárias. “Acreditamos que Cabo Verde é o local ideal para ser um showcase de uma smart city em África, levando em consideração a sua localização estratégica, a indústria turística, o parque tecnológico que será inaugurado em breve, a ambição de Cabo Verde em se tornar um hub de prestação de serviços no Atlântico e os seus indicadores positivos na região.”
É com esta visão que será construída a primeira smart city-piloto de Cabo Verde. Vai situar-se na ilha de Santiago, a cerca de 25 minutos da capital, Praia. “A previsão é para iniciarmos ainda neste ano”, diz-nos.
Mas vamos ao conceito, o que são, afinal, as smart cities? “São cidades que utilizam a evolução tecnológica e a inovação para enfrentar desafios e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Através da colecta de dados e monitorização, identificando em tempo real os problemas e agindo de forma eficiente na sua resolução. Cidades 4 S: smart, sustentável, segura e com sorrisos”, explica a engenheira civil.
Foi em 2018 que as smart cities começaram a ganhar forma em Cabo Verde pela mão de Loide Monteiro. O projecto lançou um concurso de ideias em que se apelou à participação activa dos cidadãos e do Governo. Foram concretizados vários projectos-piloto, sendo o mais visível no bairro de Safende, um dos mais populosos e também desafiantes bairros da cidade da Praia. Ali foram implementadas tecnologias e plataformas para apoiar actividades quotidianas, mas também se promovem formações, desenvolvimento de negócios e projectos de promoção local e coesão social.
“Os bairros smart, como o Safende, destacam-se pela mudança de mentalidade das pessoas, pela conectividade, acesso à Internet, construção de uma base de dados e perfil do bairro para definir as intervenções necessárias”, explica Loide Monteiro.
O sucesso da implementação do projecto em Safende foi reconhecido internacionalmente, tido como um case study, e mereceu um capítulo no livro Resilient and Responsable Smart Cities.
“Conseguimos um financiamento através de criptomoedas e realizámos um piloto com mulheres no comércio informal.”
Loide reconhece que existe um enorme interesse por parte das comunidades, bem como das universidades, no projecto, mas que os recursos são limitados para implementá-lo, o que tem tornado o processo mais lento do que se pretendia. Apesar disso, várias acções têm sido desenvolvidas com o apoio de parceiros, o principal, a CEDEAO. “Conseguimos um financiamento através de criptomoedas e realizámos um piloto com mulheres no comércio informal, beneficiando cerca de 200 mulheres com formação em gestão de pequenos negócios”, conta.
Mais eficiência energética
Cidades inteligentes gastam menos energia, dependem menos dos combustíveis fósseis e são sustentáveis.
O projecto tem procurado alcançar estes objectivos na suas áreas de intervenção.
Actualmente está em curso uma iniciativa-piloto que consiste na transformação de um edifício tradicional num edifício eficiente, sustentável, inteligente e verde. “O objectivo principal é destacar os ganhos e benefícios associados ao investimento em soluções de energia renovável e eficiência energética em edifícios, uma vez que sabemos que os edifícios são responsáveis por aproximadamente 30% de emissão de CO2”, explica Loide Monteiro.
Além disso, está a ser implementado um piloto de agricultura inteligente e sustentável que propõe soluções tecnológicas para reduzir o consumo de água e optimizar o uso dos terrenos.
O projecto pressupõe também a comercialização online e gestão dos produtos agrícolas através de uma plataforma que serve para toda a cadeia de valor. “Já identificámos parceiros com soluções tecnológicas já testadas para trabalhar connosco neste projecto”, adianta.
Para concretizar estes projectos é essencial pesquisa, análise e testagem, processos que acontecem no laboratório de inovação. É lá que é pensado e planeado tudo aquilo que deve fazer parte de uma cidade inteligente, uma smart city. “O nosso laboratório abrange uma ampla gama de áreas, incluindo edifícios e habitações inteligentes, infra-estruturas inteligentes, como redes de água e energia, mobilidade e transporte inteligente, agricultura inteligente, ruas interactivas e turismo inteligente. Além disso, estamos explorando tecnologias como a produção de energia renovável, realidade virtual, impressão 3D, IoT e inteligência artificial, entre outras”, explica Loide Monteiro.
Para financiar as ideias desta “incubadora de smart cities”, vai ser lançada em breve uma campanha de crowdfunding.
Fundação Smart City

Os princípios e valores por detrás das smart cities motivaram a criação de uma fundação que passou a ser a estrutura institucional através da qual se buscam financiamentos para os projectos. “A Fundação Smart City foi constituída com o propósito de impulsionar a inovação urbana em África”, diz a sua fundadora.
Segundo as Nações Unidas, estima-se que, até 2050, 70% da população mundial esteja a residir em áreas urbanas, um dado que levanta várias questões relativamente ao crescimento e desenvolvimento das cidades e à sua sustentabilidade. Mas Loide Monteiro acredita que África pode fazer a diferença. “África, sendo o continente menos urbanizado, apresenta um vasto potencial para o desenvolvimento de cidades inteligentes. Comparativamente à Europa e à América, há uma significativa disponibilidade de espaço para a criação de novas cidades”, afirma.
A gestora defende que, no universo africano, Cabo Verde está “na vanguarda da urbanização e pode ser um exemplo e um laboratório para o continente”. É esta a ambição da Fundação Smart City, promover esse potencial, incentivando a implementação de soluções inovadoras e inteligentes que possam moldar o futuro das cidades em Cabo Verde e em África. Porque “não se trata de ser rico ou grande, mas, sim, de ser inteligente”, realça.
Bairros Inteligentes 2030
Mais de 40 ideias concorreram ao concurso Bairros Inteligentes 2030, lançado no final de 2023 pela Fundação Smart City, que desafiou os habitantes dos bairros a apresentarem soluções para superar os problemas e desafios enfrentados na suas comunidades.
A sociedade civil respondeu ao desafio, e os resultados foram positivos. “A nossa expectativa era conseguir ter pelo menos 10 bairros a concorrer, mas tivemos 45 ideias provenientes de 43 bairros, com a participação de 8 ilhas e 11 municípios”, revela Loide.
“A nossa expectativa era conseguir ter pelo menos 10 bairros a concorrer, mas tivemos 45 ideias provenientes de 43 bairros.”
Bairros inteligentes 2030 é um projecto social de âmbito nacional, baseado nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, que tem como alvo comunidades e bairros do país. A ideia é envolver os moradores na transformação dos seus bairros, incluindo os aglomerados urbanos mais desafiantes e problemáticos do ponto de vista do ordenamento urbanístico, água e saneamento, segurança e energia. O projecto defende que bairros mais inteligentes contribuem para a redução dos problemas sociais e da violência urbana.
O concurso elegeu 12 ideias nas áreas da inclusão, ambiente, tecnologia/economia e segurança. Loide fala de um processo de selecção “desafiante, pois todas as ideias demonstravam níveis notáveis de inovação e visão”. O concurso contou com a parceria da Associação dos Municípios Cabo-verdianos, do Governo e do sector privado. O objectivo agora é conseguir financiamento para implementar estas ideias.
Crowdfunding, NFT e outras soluções digitais e tecnológicas são potenciais fontes de renda para garantir a concretização e sustentabilidade dos projectos seleccionados.
Enquanto se buscam fontes de financiamento, a Fundação Smart City dedica-se a outras acções também transformadoras como a formação das pessoas, dos agentes comunitários e dos habitantes que vão ser o rosto dos bairros e das cidades inteligentes. “Desejamos que os indivíduos abracem e participem activamente na co-criação de soluções inteligentes, contribuindo assim para a evolução positiva e sustentável das comunidades locais”, remata.





