“O verdadeiro desafio não está em vender apólices, mas em construir relações de confiança duradouras”, diz Rita Rocha

Para Rita de Cássia Rocha, o crescimento sustentável das empresas exige muito mais do que resultados financeiros: requer reputação, inovação, governação e visão de longo prazo. Em entrevista à FORBES ÁFRICA LUSÓFONA, a executiva aborda os desafios do sector segurador em Angola, o potencial do conteúdo local no Oil & Gas e a transformação da…
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Em entrevista à Forbes África Lusófona, a administradora-executiva da Protteja Seguros fala sobre inclusão financeira, Oil & Gas, liderança feminina e os desafios de construir negócios sustentáveis.
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Para Rita de Cássia Rocha, o crescimento sustentável das empresas exige muito mais do que resultados financeiros: requer reputação, inovação, governação e visão de longo prazo. Em entrevista à FORBES ÁFRICA LUSÓFONA, a executiva aborda os desafios do sector segurador em Angola, o potencial do conteúdo local no Oil & Gas e a transformação da liderança feminina nos negócios.

Na qualidade de administradora-executiva da Protteja Seguros, quais considera serem as principais prioridades estratégicas da empresa para responder às necessidades actuais do mercado angolano?

Acredito que uma das grandes prioridades estratégicas da Protteja passa por consolidar-se como uma seguradora moderna, próxima do mercado e alinhada com os desafios actuais das famílias, empresas e instituições angolanas. O mercado angolano exige hoje maior agilidade, proximidade, transparência e capacidade de adaptação, sobretudo num contexto de transformação económica e empresarial. Neste sentido, considero fundamental continuar a fortalecer pilares como a inovação operacional, a modernização tecnológica, a governação corporativa e a construção de relações de confiança sustentáveis com clientes e parceiros. Vejo igualmente como prioritário o investimento no capital humano, no fortalecimento das equipas e na promoção de uma cultura corporativa orientada para excelência, responsabilidade e impacto social. Acredito que o seguro deve ser cada vez mais entendido não apenas como uma obrigação contratual, mas como uma ferramenta de protecção patrimonial, estabilidade financeira e continuidade dos negócios.

O sector segurador em Angola enfrenta desafios ligados à inclusão e à literacia financeira. De que forma acredita que a Protteja pode aproximar os seguros de mais cidadãos e empresas?

Este é, sem dúvida, um dos maiores desafios do sector e, simultaneamente, uma enorme oportunidade de transformação social e económica. Angola ainda possui uma taxa de penetração de seguros relativamente baixa, o que demonstra existir muito espaço para crescimento, educação financeira e inclusão. Acredito que a aproximação ao mercado passa, sobretudo, por uma comunicação mais clara, acessível e humana. Muitas vezes, o cidadão não adere ao seguro porque não compreende plenamente o seu valor ou acredita que é um produto distante da sua realidade. Neste sentido, considero fundamental investir em iniciativas de sensibilização, educação financeira e proximidade comunitária, contribuindo para o fortalecimento de uma cultura de prevenção e protecção. Também acredito muito na digitalização e na inovação como instrumentos de inclusão. O futuro do sector passa pela simplificação do acesso aos produtos, pela automatização de processos e pela criação de soluções mais flexíveis e adaptadas às diferentes realidades do mercado angolano, incluindo pequenas empresas, jovens empreendedores e trabalhadores independentes. Mais do que comercializar apólices, acredito que o verdadeiro desafio está em construir relações de confiança duradouras com os clientes.

Ao longo de mais de duas décadas de carreira, passou por diferentes sectores e mercados desafiadores. Que momentos considera decisivos para a construção da sua visão estratégica de negócios?

Acredito que a minha visão estratégica foi construída sobretudo através da experiência prática, da capacidade de adaptação e da resiliência perante contextos complexos. A minha trajectória profissional foi marcada por ambientes desafiadores, negociações multiculturais e mercados de difícil acesso, especialmente em África. Viver e empreender em Angola durante mais de duas décadas ensinou-me muito sobre liderança, gestão de risco, construção de relações institucionais e inteligência emocional nos negócios. A experiência acumulada em sectores ligados à energia, desenvolvimento empresarial, expansão internacional e seguros permitiu-me compreender que estratégia não é apenas planeamento — é também leitura de cenário, velocidade de decisão e capacidade de adaptação. Outro ponto decisivo foi perceber que crescimento sustentável exige reputação, confiança e consistência. Ao longo da minha carreira aprendi que negócios sólidos são construídos através de relações de longo prazo, credibilidade e visão global, sem perder a sensibilidade humana.

Nos últimos anos, tem acompanhado de perto o desenvolvimento do sector de Oil & Gas em Angola. Que oportunidades identifica actualmente para o empresariado angolano nesta indústria?

O sector de Oil & Gas continua a ser um dos maiores motores económicos de Angola e ainda oferece oportunidades extremamente relevantes para empresários nacionais que estejam preparados para actuar com profissionalismo, estrutura e visão estratégica. Hoje existe uma abertura crescente para o fortalecimento do conteúdo local, para o desenvolvimento de fornecedores nacionais e para a criação de parcerias estratégicas entre empresas angolanas e grupos internacionais. Isto cria oportunidades não apenas na área operacional do petróleo, mas também em logística, manutenção industrial, transporte, tecnologia, formação, engenharia, energia, seguros e serviços especializados. Acredito que o grande desafio do empresariado angolano passa por posicionar-se não apenas como intermediário comercial, mas como parceiro estratégico de longo prazo, com foco em compliance, capacidade técnica, governação e competitividade internacional. Ao mesmo tempo, vejo Angola com potencial para se afirmar como uma plataforma regional importante para negócios ligados à energia, indústria e infra-estruturas.

Enquanto executiva e estratega empresarial, como equilibra inovação, crescimento sustentável e expansão de mercados num contexto económico cada vez mais competitivo?

Acredito que equilibrar crescimento, inovação e sustentabilidade exige disciplina estratégica, visão de longo prazo e capacidade de adaptação. Hoje, inovação deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade competitiva. No entanto, inovar não significa apenas adoptar tecnologia; significa também transformar mentalidades, processos e modelos de gestão. Considero fundamental alinhar expansão de mercado com fortalecimento institucional, qualidade operacional e construção de reputação. Nenhuma marca cresce de forma consistente sem credibilidade, equipas preparadas e visão sustentável de longo prazo. Também considero essencial manter uma leitura constante do cenário económico global. Estamos num momento de grandes mudanças geopolíticas e comerciais, o que exige líderes mais estratégicos, adaptáveis e preparados para actuar em ambientes internacionais cada vez mais complexos.

Foi reconhecida como uma das 100 mulheres mais influentes de Angola. Que mensagem deixa às mulheres que pretendem assumir posições de liderança no mundo empresarial?

A minha principal mensagem é: não permitam que as vossas origens, os desafios pessoais ou as dificuldades do percurso definam os vossos limites. A liderança feminina ainda enfrenta muitos desafios, sobretudo em sectores tradicionalmente dominados por homens. Mas acredito profundamente que competência, consistência, preparação e coragem abrem caminhos. É importante que as mulheres compreendam que ocupar espaços de liderança não significa perder sensibilidade ou autenticidade. Pelo contrário; a inteligência emocional, a capacidade de adaptação e a visão humana são hoje grandes diferenciais estratégicos no mundo corporativo. Também acredito muito na importância da independência financeira, do conhecimento e da construção de redes de apoio sólidas. Nenhuma mulher deve ter medo de crescer, negociar, liderar ou ocupar lugares de decisão. A minha história é, acima de tudo, uma prova de que é possível transformar desafios em força, construir credibilidade internacional e abrir espaço para outras mulheres sonharem mais alto.

Uma executiva moldada pelos desafios

Rita de Cássia Rocha construiu a sua trajectória profissional entre ambientes empresariais exigentes, negociações multiculturais e sectores estratégicos da economia africana. Com mais de duas décadas de experiência em mercados desafiadores, afirma-se hoje como uma executiva angolana reconhecida pela sua visão estratégica, capacidade de adaptação e actuação orientada para o crescimento sustentável dos negócios.

Iniciou o seu percurso profissional na área de consultoria empresarial e comércio internacional, trabalhando com instituições públicas e privadas ligadas à distribuição moderna e ao desenvolvimento de negócios. Foi neste ambiente competitivo que consolidou competências em negociação, gestão estratégica e expansão comercial, áreas que viriam a marcar o seu posicionamento executivo ao longo da carreira.

Nos últimos anos, direccionou parte significativa da sua actuação para o sector de Oil & Gas, acompanhando projectos de impacto ligados ao desenvolvimento empresarial, conteúdo local e criação de parcerias estratégicas entre empresas nacionais e grupos internacionais. A experiência acumulada permitiu-lhe desenvolver uma leitura aprofundada sobre risco, governação corporativa e posicionamento competitivo em mercados de elevada complexidade.

Actualmente, Rita Rocha exerce funções como administradora-executiva da Protteja Seguros, integrando uma visão de liderança assente na inovação, modernização operacional e fortalecimento institucional. Paralelamente, é co-fundadora não-executiva da Wayne Angola Empreendimentos e fundadora da RR&NP Business Development, estruturas através das quais continua ligada a iniciativas de expansão empresarial, desenvolvimento estratégico e internacionalização de negócios.

Reconhecida como uma das 100 mulheres mais influentes de Angola, destaca-se igualmente pelo seu posicionamento em defesa da liderança feminina e da independência económica das mulheres. Para Rita Rocha, a construção de carreiras sólidas exige preparação, consistência e capacidade de transformar desafios em oportunidades de crescimento, uma filosofia que tem pautado o seu percurso profissional e empresarial.

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