Depois de 22 anos de paz, há pelo menos duas perspectivas visíveis nessa que é considerada a maior conquista dos angolanos depois da independência, como defenderam os interlocutores ouvidos pela FORBES ÁFRICA LUSÓFONA.
Numa mensagem pela efeméride, o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, enalteceu a normalização do funcionamento das instituições republicanas, defendendo que esta conquista tem permitido “que se fortaleçam as bases do Estado Democrático de Direito, se garanta a unidade nacional e se assegure a defesa da soberania nacional”, lê-se.
Na mensagem de João Lourenço, há destaque também para a recuperação das infra-estruturas destruídas, sendo que “o relançamento da vida económica, a desminagem dos campos, tem exigido um esforço gigantesco do Governo, com consequências que ainda hoje se reflectem nas contas públicas”, apontou o Presidente angolano no texto.
Sem exactamente discordar das ideias apresentada na mensagem do Presidente, o politólogo Diogo Bernardo disse a FORBES que a paz começou como “uma conquista estranha ao povo angolano”, que logo depois da luta de libertação se viu envolvido num conflito armado.
“Mas depois de mais de 20 anos, a paz deixa definitivamente de ser uma coisa estranha e passamos a ter como nossa e extremamente garantida. Toda nossa vida gira em torno dessa certeza”, frisou.
Uma certeza que, como disse, transcende o direito de ir e vir ou de poder chegar em qualquer parte do território, “mas que passa a fazer parte daquilo que somos enquanto Estado e elementos constituintes desse Estado”.
Diogo Bernardo entende, no entanto, que nem tudo são coisas boas. “Conseguimos conquistar e temos vindo a solidificar a paz, mas há um sentido mais social da paz que temos ainda de construir. Temos muitos desafios, como todos os países têm, mas temos de conseguir construir esse caminho”, rematou o também académico.
Por sua vez, o director do Observatório Eleitoral de Angola (OBEA), Luís Jimbo, coloca a paz como elemento fundamental e catalisador de todo o movimento eleitoral que o país vai conhecendo.
“Só um país em paz pode movimentar-se no sentido de organizar eleições. Só um Estado em paz tem pessoas com predisposição para verificar e exigir o rigor que os processos eleitorais exigem”, disse Luís Jimbo.
Aquele membro da sociedade civil angolana considera ainda que a paz é como que uma construção contínua, pelo que, “o primeiro desafio da paz é exactamente a manutenção da mesma, e temos enquanto Estado, conseguido”, entende.
Ganhos da paz até no OGE
“No campo económico, os vários avanços que vão sendo dados também acabam por ter o impulso do factor paz”, defendeu o economista Heriwalter Domingos, que entre outras coisas, disse também que até o próprio Orçamento Geral de Estado (OGE), com preocupações cada vez mais viradas para o social, acabam por ser um efeito desta conquista.
“Portanto, a paz é inabalável, e mesmo que não pareça ou não se note, influencia em todos os aspectos da vida de um país e das pessoas desse país. Na economia não é diferente”, notou.
Já a falar sobre os ganhos mais específicos, o especialista apontou para o surgimento do mercado de capitais, para a cada vez mais robusta capacidade de arrecadação tributária, mas também o crescimento de outros sectores além do petróleo.
“Agora é preciso que se trabalhe mais e mais na capacitação do homem e no desafio de colocar o homem no centro das atenções de quem governa”, disse, referindo que, “mais do que uma opção de estratégia, é uma caminhada que envolve romper barreiras culturais de pisar ao invés de ajudar, que é típica dos africanos”.
Mas no global, referiu Heriwalter Domingos, “há bons sinais”. “Na saúde crescemos muito em quantidade de unidades, fundamentalmente nesses últimos quatro anos, mas ainda há muito espaço para crescer, há muito espaço para melhorarmos enquanto país”, sublinhou.
Assim, há uma paz conquistada, mas há uma paz por construir, embora, como se lê na mensagem do Presidente João Lourenço, já há milhões de cidadãos a beneficiarem dos investimentos, apenas possíveis de serem feitos em tempo de paz.
“Os avultados investimentos nos sistemas de fornecimento de água potável e energia eléctrica estão já a beneficiar milhões de cidadãos, assim como na educação e na saúde, com a construção de inúmeros estabelecimentos de ensino de diferentes níveis e centros de investigação, bem como a construção de um considerável número de novas unidades hospitalares em todo o país”, enumerou o Presidente da República, na mensagem à Nação, por ocasião do “04 de Abril”, Dia da Paz e da Reconciliação Nacional em Angola.





