No final da tarde de quinta feira, 19 de fevereiro, o Auditório do Tech Park de Cabo Verde encheu, desta vez, não para ouvir falar de tecnologia e de futuro, mas pelo contrário, para um regresso ao passado. O espaço futurista recebeu o lançamento do livro de memórias de Pedro Pires “De Guerrilheiro a Homem de Estado”. A obra passa em revista a vida e legado do ex- Presidente da República de Cabo Verde, ex-Primeiro Ministro, dirigente do PAIGC e combatente da luta pela libertação da Guiné Bissau e Cabo Verde.
Muitos cargos e missões, para um homem só. Uma das mais proeminentes personalidades da vida política de Cabo Verde.
O lançamento do livro ficou a cargo do historiador António Correia e Silva e do sociólogo guineense Miguel de Barros. Ambos salientaram a relevância histórica e o legado de Pedro Pires, bem como a importância de estudar e manter vivo esse legado.
A obra assume-se como um relato, na primeira pessoa, sobre os desafios da liderança e da transição política, explorando o exercício da responsabilidade pública num período crucial da consolidação do país. Ao recordar e escrever as suas memórias, Pedro Pires propõe uma reflexão madura sobre um percurso que acompanha e ajuda a explicar capítulos estruturantes da história recente de Cabo Verde.
No seu discurso o autor destacou a necessidade de “procurar e preservar a verdade histórica” num momento em que se verificam “variantes revisionistas com a intenção de fazer o branqueamento do colonialismo”.
Amílcar Cabral, companheiro de luta de Pedro Pires foi recordado e invocado, assim como todos os combatentes, “protagonistas da libertação nacional” a quem, segundo o ex-Presidente da República, coube “uma missão indelegável e complexa de viabilização da pátria recém libertada e do seu Estado soberano em construção”.
O livro “De Guerrilheiro a Homem de Estado” foi lançado no mesmo dia em que, há 36 anos, terminava a reunião do Conselho Nacional do PAICV que decidiu avançar para a abertura do país ao multipartidarismo, abrindo caminho às primeiras eleições livres da história de Cabo Verde. Nessas eleições, Pedro Pires, então Primeiro-Ministro, seria derrotado por Carlos Veiga.
A coincidência da data não foi casual. Revela um homem que não escolhe apenas celebrar as vitórias, mas que integra também as derrotas na sua narrativa pessoal e política. Um líder que assume o percurso completo, com avanços, recuos e decisões difíceis como parte essencial da maturidade democrática do país.
Ao revisitar o seu trajeto, Pedro Pires revisita também a construção de uma nação e reafirma que a memória, quando assumida com lucidez, é também um ato de responsabilidade histórica.
“Estas memórias representam uma homenagem às minhas origens, ao povo caboverdiano, ao qual estou umbilicalmente ligado e ao povo da Guiné Bissau que me acolheu, ofereceu a sua confiança e me adotou como seu combatente e dirigente”, afirmou Pedro Pires com emoção e perante uma ovação da plateia.




