Na noite em que foi distinguido como “Individualidade Lusófona 2026”, na quarta edição dos Prémios Forbes Responsabilidade Social, em Luanda, o antigo Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, deixou uma mensagem clara: num mundo marcado pela imprevisibilidade e pela transformação acelerada, o futuro exige pensamento estratégico, valorização da memória histórica e compromisso colectivo com a paz e o desenvolvimento sustentável.
Num discurso de forte densidade reflexiva, proferido no Hotel Intercontinental de Luanda, Pedro Pires sublinhou que os avanços já conquistados pelos países africanos – visíveis, por exemplo, na evolução das infra-estruturas aeroportuárias – representam sinais concretos de soberania e progresso, mas advertiu que tais conquistas exigem continuidade, planeamento e visão de longo prazo.
Ao partilhar a sua recente experiência de viagem entre a cidade da Praia e Luanda, passando por Dakar e Lomé, o antigo Chefe de Estado destacou as transformações registadas nas infra-estruturas dos países africanos, simbolizando a transição de antigas colónias para Estados soberanos em desenvolvimento. Para Pedro Pires, estas mudanças são mais do que melhorias logísticas; são indicadores estruturais do potencial de crescimento económico e integração regional.
Actualmente afastado da política activa, Pedro Pires revelou estar dedicado a áreas que considera “áridas e maçadoras”, como a memória e a história, mas que, na sua perspectiva, são fundamentais para consolidar a identidade, a soberania e a consciência nacional. O antigo estadista chamou a atenção para o facto de estas áreas não gerarem retornos materiais imediatos, mas constituírem a base sobre a qual se constrói o futuro colectivo.
Neste contexto, defendeu a necessidade de se pensar na criação de instrumentos que garantam a sustentabilidade das próximas gerações, nomeadamente através de um “fundo de segurança do futuro”, apelando ao apoio de parceiros e instituições para concretizar esta visão.
A sua intervenção ganhou particular relevo ao abordar os desafios globais contemporâneos. Descrevendo o actual cenário internacional como “imprevisível, inconstante e inseguro”, Pedro Pires foi categórico ao afirmar que o tempo da improvisação terminou. “Este contexto não se coaduna com espontaneidades; exige pensar, prever e planear”, afirmou, sublinhando que esta é uma responsabilidade partilhada por governos, instituições e cidadãos.
Num exercício de síntese estratégica, o antigo chefe de Estado cabo-verdiano elencou os pilares que a humanidade não pode dispensar: a preservação do planeta, a valorização da história, o respeito pela diversidade cultural, o investimento na ciência e tecnologia, a segurança energética e alimentar, bem como a capacitação dos recursos humanos. A estes juntou a necessidade de previsibilidade, confiança mútua, paz, diálogo e uma distribuição mais equitativa do poder e dos benefícios à escala global.
Em contraponto, apontou aquilo que considera dispensável, e até urgente superar, no actual modelo civilizacional: as guerras, o ódio, o racismo, a xenofobia e a intolerância ideológica e religiosa. Numa referência crítica ao pensamento clássico de Carl von Clausewitz, defendeu que a humanidade deve abandonar a ideia de que a guerra é uma extensão da política, apelando à construção de alternativas pacíficas para a resolução de conflitos.
Apesar dos desafios, Pedro Pires recusou qualquer visão fatalista do futuro, defendendo que a vontade colectiva continua a ser um factor determinante. “É preciso mobilizá-la e pô-la a agir”, referiu, deixando uma mensagem de responsabilidade e esperança.
A distinção atribuída pela Forbes África Lusófona foi recebida com gratidão, num momento que o antigo estadista classificou como reconfortante, reiterando o seu compromisso com os valores da cooperação, desenvolvimento e afirmação das economias lusófonas num contexto global cada vez mais exigente.





