Um grupo de 47 reclusos da cadeia central da capital de Cabo Verde transformou experiências de vida marcadas por exclusão e criminalidade numa obra literária colectiva, uma iniciativa inédita no país que reforça o papel da cultura como instrumento de reintegração social.
O livro, intitulado “Vozes Falam Por Trás Das Grades”, reúne contos e reflexões produzidos no âmbito de um projecto iniciado em 2021, concebido para dar voz a pessoas privadas de liberdade e estimular competências que possam facilitar o regresso à sociedade.
Mais do que um exercício literário, a iniciativa revela-se como um mecanismo de transformação pessoal. Entre os participantes, vários descobriram na escrita uma nova perspectiva de futuro. É o caso de Nickson Tavares, de 34 anos, que cumpre pena de nove anos e se prepara para sair em liberdade nos próximos meses. O recluso afirma que o projecto alterou profundamente a sua forma de encarar a vida e despertou uma ambição inesperada: tornar-se escritor, tendo já produzido dez manuscritos, três dos quais prontos para publicação.
A dimensão humana do projecto evidencia-se também nos testemunhos de participantes como Ana Rita Lopes, cidadã portuguesa de 45 anos, que cumpre uma pena de três anos. A reclusa sublinha a importância de poder apresentar uma narrativa alternativa àquela que, segundo afirma, é frequentemente construída pela sociedade e pelos media, marcada por estigmas e julgamentos unilaterais.
Para outros participantes, o impacto é ainda mais estrutural. Cleiton Costa, de 33 anos, que cumpre pena há seis anos, aprendeu a ler e a escrever já em contexto prisional, descrevendo a escrita como um ponto de viragem no seu percurso. A par da intenção de manter o hábito após a libertação, manifesta o objectivo de desenvolver projectos sociais no seu bairro, direccionados para crianças e jovens.
Mais do que um exercício literário, a iniciativa revela-se como um mecanismo de transformação pessoal.
Também Michel Veiga, de 32 anos, encontrou na iniciativa uma nova forma de expressão. Habituado à escrita de letras de música, o contacto com a produção literária abriu-lhe novas possibilidades criativas, reforçando a intenção de continuar a escrever.
A coordenadora do projecto, Lena Marçal, destaca que a iniciativa envolveu 47 participantes e permitiu não apenas o desenvolvimento de competências individuais, mas também uma melhoria da convivência no espaço prisional. Segundo explica, muitos dos reclusos partilham trajectórias marcadas pela ausência de suporte familiar e por contextos sociais vulneráveis, factores que contribuem para percursos associados ao crime.
Neste contexto, a responsável defende a expansão do projecto a outras ilhas de Cabo Verde, sublinhando o potencial transformador da literatura. “A escrita é uma ferramenta poderosa de mudança individual e social”, sustenta, citada pela Lusa.
A experiência agora materializada em livro levanta uma questão mais ampla: o papel das políticas públicas e das iniciativas culturais na redução da reincidência criminal. Ao apostar na capacitação e na expressão individual, projectos desta natureza posicionam-se como alternativas complementares aos modelos tradicionais de reinserção, com potencial impacto a médio e longo prazo.





