Xanana Gusmão pede desculpa à Guiné-Bissau após declarações polémicas

O primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, pediu esta Segunda-feira desculpa ao Governo de transição da Guiné-Bissau, depois de, na passada Quarta-feira, 11, ter classificado o país africano como um “Estado falhado”, na sequência do golpe de Estado de Novembro. A informação foi avançada pela agência Lusa. “Eu peço desculpa ao Governo de transição da Guiné-Bissau”,…
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As declarações do chefe do Governo timorense desencadearam uma crise diplomática num momento crítico para a estabilidade política na África Ocidental e para a liderança rotativa da CPLP.
Líderes

O primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, pediu esta Segunda-feira desculpa ao Governo de transição da Guiné-Bissau, depois de, na passada Quarta-feira, 11, ter classificado o país africano como um “Estado falhado”, na sequência do golpe de Estado de Novembro. A informação foi avançada pela agência Lusa.

“Eu peço desculpa ao Governo de transição da Guiné-Bissau”, afirmou Gusmão aos jornalistas, após participar num workshop nacional de validação da língua gestual, sublinhando que não se considera “herói” nem se defende das críticas que lhe foram dirigidas.

A controvérsia surge num momento particularmente sensível para a diplomacia lusófona. Na sequência da polémica, Timor-Leste cancelou a missão de bons ofícios da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que deveria deslocar-se a Bissau esta semana. Segundo Gusmão, a decisão foi tomada após sinais de rejeição por parte das autoridades guineenses. Contudo, o Governo de transição de Bissau sustenta que a iniciativa partiu da própria Guiné-Bissau, por não reconhecer legitimidade à presidência timorense da organização.

Em Dezembro, Timor-Leste assumiu a presidência rotativa da CPLP, cargo que foi retirado à Guiné-Bissau após o golpe de 26 de Novembro, que depôs o então Presidente, Umaro Sissoco Embaló, e interrompeu o processo eleitoral iniciado a 23 de Novembro.

Num comunicado divulgado na semana passada, o Ministério dos Negócios Estrangeiros guineense repudiou formalmente as declarações de Gusmão, considerando que revelam “falta de dignidade e de postura política e moral” para avaliar a realidade institucional do país. A nota visou igualmente o Presidente timorense, José Ramos-Horta, apontando um alegado historial de controvérsias públicas.

Entretanto, numa conferência de imprensa realizada esta Terça-feira, em Bissau, o porta-voz do Conselho Nacional de Transição da Guiné-Bissau, Fernando Vaz, reagiu com “naturalidade e normalidade” ao pedido de desculpas. “Quando alguém reconhece os seus erros e tendo a responsabilidade estatal que tem, que insulta e menospreza publicamente um país, e que preside neste momento a CPLP, fechou as portas a tudo o que era possível fazer. Foi o que nós lhe dissemos. Ainda bem que ele fez marcha atrás. Nós vamos reconsiderar o seu pedido de desculpas”, afirmou.

Impacto político e institucional

A tensão diplomática levanta questões sobre a coesão interna da CPLP num momento em que o bloco enfrenta desafios acrescidos em matéria de estabilidade democrática e governação em alguns dos seus Estados-membros.

Após o golpe de 2012 na Guiné-Bissau, Timor-Leste desempenhou um papel activo no apoio à organização eleitoral, incluindo na montagem de estruturas como a Comissão Nacional de Eleições. Ao recordar esse envolvimento, Gusmão sustentou que um novo golpe militar ultrapassa o conceito de “Estado frágil”, entrando no domínio de “Estado falhado” — formulação que desencadeou a crise diplomática.

Para analistas, o episódio evidencia a delicadeza do equilíbrio político no seio da comunidade lusófona. Se, por um lado, subsiste a necessidade de afirmar princípios democráticos e padrões institucionais, por outro, a linguagem política pode condicionar relações bilaterais, fluxos de cooperação e a própria capacidade de mediação da organização.

A presidência timorense da CPLP enfrenta, assim, um teste relevante à sua autoridade diplomática, num contexto em que a credibilidade do bloco depende tanto da defesa formal da democracia como da sua aptidão para preservar canais de diálogo entre Estados-membros em crise.

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