Zolana João: o engenheiro que colocou Angola na rota da economia espacial

Zolana João transformou a liderança do Programa Espacial Nacional de Angola numa plataforma para ampliar a presença do país na economia espacial, tendo no lançamento do ANGOSAT-2 um dos marcos centrais do seu percurso. À frente do Gabinete de Gestão do Programa Espacial Nacional (GGPEN), desde 2014, o engenheiro tem procurado converter a infra-estrutura de…
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Da infância marcada pela pobreza à liderança de projectos espaciais, Zolana João construiu uma trajectória que cruza engenharia, política tecnológica e cooperação internacional. O seu objectivo é fazer com que os satélites e a inteligência artificial contribuam para resolver problemas concretos de Angola e de África.
Líderes

Zolana João transformou a liderança do Programa Espacial Nacional de Angola numa plataforma para ampliar a presença do país na economia espacial, tendo no lançamento do ANGOSAT-2 um dos marcos centrais do seu percurso.

À frente do Gabinete de Gestão do Programa Espacial Nacional (GGPEN), desde 2014, o engenheiro tem procurado converter a infra-estrutura de satélites em instrumentos de conectividade, observação da Terra, inteligência artificial geoespacial e desenvolvimento económico.

O seu trabalho ultrapassa as fronteiras nacionais. Actualmente, preside ao Comité Directivo do Satélite Compartilhado da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), iniciativa que reúne 16 países em torno do projecto de um satélite de propriedade conjunta. Foi também vice-presidente da AP-41, na Região D da Organização Internacional de Telecomunicações por Satélite (ITSO), participando em processos de coordenação regulatória e na definição do papel das comunicações por satélite nos serviços públicos e na conectividade digital.

Sob a sua liderança, Angola tem procurado alargar o aproveitamento económico das tecnologias espaciais. Entre as iniciativas está o ANGEO-1, projecto do primeiro satélite angolano de observação da Terra de alto desempenho, concebido para disponibilizar imagens e dados geoespaciais destinados ao acompanhamento ambiental, à resposta a desastres e ao planeamento do desenvolvimento nacional. O Centro de Geodados de Angola (GEDAE), por sua vez, integra esta aposta na transformação de dados em ferramentas de apoio à decisão.

A ambição é fazer com que estes recursos ultrapassem o domínio técnico e produzam resultados concretos. Projectos associados ao ANGOSAT-2 e ao Connecta Angola procuram ampliar o acesso à conectividade, incluindo em comunidades rurais, enquanto as aplicações de observação da Terra podem apoiar o planeamento agrícola e de infra-estruturas, a gestão de riscos e a resposta às alterações climáticas. O desafio passa por integrar estas capacidades nos processos de decisão do Estado e criar oportunidades para a sua utilização pelo sector privado.

A dimensão internacional constitui outro eixo da sua actuação. Investigador afiliado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Zolana João participa em iniciativas que exploram a utilização responsável das tecnologias espaciais e da inteligência artificial, incluindo um sistema de resposta à seca em Angola financiado pela NASA. Também intervém em debates sobre a exploração espacial, a economia lunar e a participação africana na definição das regras que irão orientar este sector.

Para Zolana João, a presença de Angola na economia espacial não se esgota no lançamento de satélites; depende da capacidade de converter tecnologia, conhecimento e cooperação internacional em soluções úteis para as populações e para o desenvolvimento do continente.

No plano multilateral, representou África no Comité das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço Exterior (COPUOS), contribuindo para discussões sobre a governação espacial e a criação da Agência Espacial Africana. Participa igualmente nas negociações internacionais sobre a atribuição do espectro de radiofrequências, um recurso estratégico para as comunicações por satélite, no quadro da Conferência Mundial de Radiocomunicações de 2027.

O percurso tem também uma dimensão social. Tendo passado da infância marcada pela pobreza à liderança do programa espacial angolano, Zolana João defende a formação científica e tecnológica como instrumento de transformação. Sob a sua direcção, Angola tem formado novos engenheiros espaciais, alguns distinguidos entre os dez melhores profissionais africanos do sector com menos de 30 anos. É ainda orador em universidades, incluindo o MIT e a Universidade Internacional do Espaço, e autor de trabalhos sobre estratégia espacial e aplicações de satélites.

Doutorado em Engenharia pela Universidade George Washington, nos Estados Unidos, possui também mestrados em Engenharia de Telecomunicações, pela Universidade de Tecnologia de Tshwane, na África do Sul, e em Engenharia Electrónica e de Telecomunicações, pela ESIEE Paris, em França.

Entre os reconhecimentos recebidos figuram a Medalha “Espaço sem Fronteiras”, atribuída pela ROSCOSMOS em 2022, na sequência do lançamento do ANGOSAT-2, e a selecção de um dos seus projectos de inteligência artificial pelo Centro Internacional de Investigação em Inteligência Artificial da UNESCO entre 20 iniciativas globais associadas aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Em 2022, participou também como orador convidado na Cimeira de Líderes EUA-África, organizada pela Casa Branca.

O seu desafio central é transformar a capacidade espacial em valor económico e social: reforçar a conectividade, melhorar a gestão dos recursos naturais, apoiar a resiliência climática e abrir espaço à inovação africana num sector cada vez mais estratégico.

Para Zolana João, a presença de Angola na economia espacial não se esgota no lançamento de satélites; depende da capacidade de converter tecnologia, conhecimento e cooperação internacional em soluções úteis para as populações e para o desenvolvimento do continente.

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