A política internacional atravessa uma fase de profunda reconfiguração, marcada pela intensificação da competição geopolítica entre as grandes potências. A National Security Strategy (NSS) dos Estados Unidos de 2025 reflete esta realidade ao priorizar a segurança económica, energética e estratégica em múltiplos teatros globais. África, a América Latina (em particular a Venezuela), o Irão e até a Gronelândia, no Ártico, emergem neste contexto como arenas distintas, mas profundamente interligadas, da mesma disputa global entre os Estados Unidos, a China e o emergente Sul Global, onde os imperativos de segurança e a influência económica se sobrepõem cada vez mais às abordagens tradicionais de cooperação multilateral.
África: recursos, infra-estruturas e parcerias estratégicas
Em África, a competição sino-americana desenvolve-se de forma menos visível, mas estruturalmente decisiva. Ao longo das últimas duas décadas, a China construiu uma presença económica profunda através de projectos de infra-estruturas críticas, acesso a minerais estratégicos, financiamento estatal e parcerias de longo prazo. Esta abordagem permitiu a Pequim tornar-se o principal parceiro comercial de grande parte do continente.
A NSS de 2025 reconhece explicitamente África como uma região-chave para a segurança nacional dos EUA, sobretudo devido ao controlo de cadeias de abastecimento estratégicas, tais como, o cobalto, o lítio e as terras raras, essenciais à transição energética global e às indústrias tecnológicas avançadas. A resposta americana assenta menos na cooperação clássica para o desenvolvimento e mais na securitização: reforço da presença militar, contenção da influência chinesa em portos, telecomunicações e infra-estruturas energéticas, e pressão diplomática directa sobre governos africanos.
Venezuela: energia, geopolítica e alinhamento estratégico
Na América Latina, a Venezuela tornou-se um ponto sensível desta competição global. As suas vastas reservas de petróleo, o aprofundamento das relações económicas com a China e a Rússia e a sua posição geopolítica estratégica colocam o país no centro da atenção hemisférica. A NSS de 2025 enquadra a Venezuela não apenas como um desafio regional, mas como um factor estratégico para a segurança energética e a influência hemisférica dos EUA.
Tal como em África, o foco não é exclusivamente político. A Venezuela exemplifica como os recursos energéticos continuam a ser centrais no cálculo estratégico das grandes potências. A interação entre o abastecimento energético, os mecanismos do comércio internacional e os alinhamentos geopolíticos externos cria uma dimensão estratégica que transcende fronteiras regionais.
Se África representa a competição silenciosa, a Venezuela simboliza a face explícita e visível do novo unilateralismo americano.
Irão: contenção estratégica e projecção de poder regional
Neste panorama geopolítico em evolução, o Irão ocupa uma posição distinta, mas interligada. Ao contrário de África e da Venezuela, onde a competição é sobretudo enquadrada por razões económicas e de recursos, o Irão é tratado na NSS de 2025 como um desafio estratégico multidimensional que combina segurança energética, estabilidade regional, dissuasão militar e não proliferação nuclear. A abordagem dos EUA em relação ao Irão centra-se na contenção activa. Washington procura impedir que Teerão adquira capacidade nuclear militar, restringir a sua projecção de poder regional através de actores não estatais aliados e limitar a sua influência no Médio Oriente. Sanções, pressão diplomática e dissuasão militar constituem os principais instrumentos desta estratégia.
A posição geoestratégica do Irão, em particular a sua proximidade ao Estreito de Ormuz, por onde transita uma parte significativa da energia global, torna-o uma variável crítica para a estabilidade económica internacional. Qualquer escalada envolvendo o Irão tem repercussões imediatas nos mercados energéticos, nas cadeias de abastecimento globais e nos sistemas financeiros, ligando directamente a segurança do Médio Oriente às prioridades estratégicas globais.
Simultaneamente, o aprofundamento das relações do Irão com a China e a Rússia insere-o firmemente na ordem multipolar emergente. Estas parcerias oferecem a Teerão alternativas económicas e margem de manobra diplomática, ao mesmo tempo que reforçam a erosão mais ampla da hegemonia unilateral liderada pelos EUA. Nesse sentido, o Irão funciona não apenas como actor regional, mas como componente integrante da competição estratégica entre blocos de poder globais.
Gronelândia e o Ártico: fronteiras estratégicas do Norte Global
A lógica estratégica observada em África, na Venezuela e no Irão reproduz-se no Ártico, particularmente na Gronelândia. Rica em minerais estratégicos e posicionada em rotas marítimas cada vez mais acessíveis devido às alterações climáticas, a região transformou-se num foco central de interesse geopolítico. A NSS de 2025 identifica o Ártico como uma zona prioritária, incentivando parcerias, presença militar e cooperação científica para consolidar posicionamentos estratégicos no Norte Global.
Este renovado enfoque reflete a crescente compreensão de que segurança e economia são indissociáveis, independentemente da geografia. A Gronelândia, tal como África, a América Latina e o Médio Oriente, emerge como um espaço de convergência entre recursos estratégicos, logística e competição entre grandes potências.
BRICS, Sul Global e a Ordem Multipolar
África, a América Latina e o Irão convergem numa tendência estrutural fundamental: o fortalecimento do Sul Global e a crescente relevância de plataformas como os BRICS enquanto contrapesos na geopolítica contemporânea. Vários Estados africanos intensificaram o seu envolvimento em iniciativas dos BRICS, beneficiando de financiamento alternativo e de parcerias diplomáticas mais diversificadas, para além dos quadros tradicionais ocidentais. A inclusão do Irão nestas plataformas reforça ainda mais a transição para uma arquitetura global multipolar.
Conclusão: novos padrões das relações internacionais
África, a América Latina, o Irão e a Gronelândia demonstram, em conjunto, que a competição global contemporânea transcende fronteiras regionais. A crescente interdependência entre segurança, recursos naturais, energia e parcerias económicas está a moldar um sistema internacional multipolar, no qual as estratégias de poder operam em múltiplas dimensões.
O futuro da ordem global será determinado não apenas pelos cálculos estratégicos das grandes potências, mas também pela forma como regiões emergentes e potências intermédias articulam as suas prioridades num contexto de competição aberta, marcado por novas alianças, reconfiguração de influências e oportunidades crescentes de cooperação transcontinental.





