Opinião

Não somos selvagens. Somos todos imigrantes

Nilza Rodrigues

Este é um momento para guardar. Grammys 2026. A cultura deixou de ser entretenimento e passou a ser posicionamento. Num palco global, visto por milhões, artistas escolheram não agradecer apenas prémios, escolheram afirmar HUMANIDADE.

A história mostra-nos que a música sempre foi um instrumento de resistência. Contra guerras, contra ditaduras, contra sistemas que desumanizam. Nada disto é novo. O que é novo é a urgência. E a coragem de dizer o óbvio num tempo em que o óbvio se tornou radical: ninguém é ilegal.

Bad Bunny disse-o sem rodeios. Billie Eilish gritou-o com raiva contida. Olivia Dean lembrou-o com determinação. Não falavam apenas de imigração. Falavam de pertença. De dignidade. De memória.

Sou diretora da Forbes Portugal e da Forbes África Lusófona e observo estes momentos com um olhar que é profissional, mas também profundamente pessoal. Porque eu própria sou produto de migrações. Sou neta de um homem que saiu de Goa para Moçambique. Sou filha de pais que saíram de Moçambique para Portugal. Três geografias. Três culturas. Todas ligadas por uma história comum, a do império português, mas vividas de formas muito, muito, muito diferentes.

Por isso a imigração nunca foi um conceito abstrato para mim e consigo calçar os sapatos de muitos. É biografia. É herança. É saber que pertencemos a vários lugares e, paradoxalmente, a nenhum por inteiro. E aceitá-lo como uma dádiva e responder de cabeça erguida quando dizem “vai para a tua terra”.

Quando Olivia Dean diz que é neta de uma imigrante e que é “produto de coragem”, está a falar de algo que reconheço intimamente. Cada deslocação implica risco. Cada recomeço exige bravura. E, ainda assim, continuamos a tratar milhões de pessoas como números, ameaças ou slogans políticos.

O mais inquietante é que este discurso de exclusão ganha força precisamente em sociedades construídas por migrantes. Bad Bunny lembrou-o ao dizer: “não somos selvagens, animais, não somos alienígenas, somos humanos”. Billie Eilish foi mais longe, ao lembrar que não existe ilegalidade em terra roubada. Frases duras, sim. Mas necessárias.

Há quem diga que artistas não devem falar de política. Discordo. Sempre falaram. A diferença é que hoje falam contra sistemas que usam o medo como ferramenta de poder, medo do outro, medo da diferença, medo da perda de controlo.

E talvez por isso estas vozes incomodem tanto.

Num mundo empresarial, mediático e institucional, fala-se muito de talento global, diversidade e inclusão. Mas essas palavras tornam-se vazias quando não são acompanhadas de empatia real. Quando fechamos fronteiras físicas e mentais. Quando esquecemos que a maioria das histórias de sucesso começa com alguém que atravessou uma fronteira….muitas vezes contra todas as probabilidades.

Este editorial não é um manifesto político. É um lembrete humano. A cultura continua a ser um dos últimos espaços de verdade num mundo saturado de ruído. E quando artistas usam esse espaço para defender pessoas, não causas abstratas, estão a cumprir um dos papéis mais antigos da arte: lembrar-nos quem somos.

Ou, pelo menos, quem devíamos ser.

 

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