Dois em cada três jovens cabo-verdianos querem emigrar à procura de melhores oportunidades

Cerca de dois em cada três jovens cabo-verdianos manifestam intenção de emigrar. A conclusão consta do relatório "Aspirações dos Jovens Cabo-Verdianos 2025", divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística. O estudo abrange a população entre os 15 e os 35 anos, estimada em 157.674 pessoas, o equivalente a aproximadamente 33% dos residentes em Cabo Verde. Segundo…
ebenhack/AP
A falta de emprego, os baixos salários e a perceção de que as políticas públicas têm eficácia limitada estão a condicionar os projetos de vida da juventude cabo-verdiana. Apesar das dificuldades, os jovens mantêm elevadas aspirações educativas e revelam forte interesse pelo empreendedorismo.
Destaque Economia

Cerca de dois em cada três jovens cabo-verdianos manifestam intenção de emigrar. A conclusão consta do relatório “Aspirações dos Jovens Cabo-Verdianos 2025″, divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística.

O estudo abrange a população entre os 15 e os 35 anos, estimada em 157.674 pessoas, o equivalente a aproximadamente 33% dos residentes em Cabo Verde.

Segundo o relatório, 64,6% dos jovens pretendem emigrar, uma intenção que é ainda mais expressiva entre os mais novos. No grupo dos 15 aos 20 anos, 78,1% admitem deixar o país, percentagem que diminui progressivamente até aos 49% entre os jovens dos 31 aos 35 anos. A vontade de partir é igualmente maior no meio rural, e nos homens.

A ilha do Fogo apresenta o valor mais elevado do país. com 82,3% dos jovens a manifestarem desejo de emigrar. Seguem-se São Nicolau, com 72,6%, Brava, com 68,3%, e Santo Antão, com 67%. Sal e Boa Vista apresentam as percentagens mais baixas, mas, mesmo nestas ilhas, mais de metade dos jovens admite procurar um futuro no exterior.

O emprego surge como o principal motor da emigração. Entre os jovens que pretendem sair para trabalhar, 88,7% procuram melhores oportunidades profissionais, 58,6% salários e condições mais atrativas e 40,9% uma melhor qualidade de vida. Quase 40% apontam ainda a falta de perspetivas de progressão na carreira em Cabo Verde.

A taxa de desemprego entre a população jovem ativa é 10,7%, mas as desigualdades permanecem significativas: entre as mulheres, o desemprego atinge 14,7%, mais do dobro dos 7,2% registados entre os homens.

Apesar das dificuldades, o relatório revela uma juventude com fortes aspirações educativas. A taxa de alfabetização atinge 97,9% e 39,5% dos jovens indicam a continuação dos estudos como um dos principais planos para os próximos cinco anos. Contudo, 51,6% apontam a falta de recursos financeiros como o maior obstáculo para alcançar o nível de educação desejado e 33% referem a necessidade de trabalhar.

As preferências profissionais mostram uma procura simultânea de estabilidade e autonomia. A Administração Pública é a carreira de sonho de 25% dos jovens, enquanto 24,1% gostariam de criar um negócio com trabalhadores ao seu serviço.

O interesse pelo empreendedorismo contrasta com o reduzido número de jovens que já possui uma empresa ou negócio. Apenas 12,2% se encontram nessa situação. No entanto, 44,1% consideram provável iniciar um negócio próprio nos próximos cinco anos.

O relatório evidencia também uma distância significativa entre o conhecimento dos programas públicos e o benefício efetivamente recebido. Embora 81% conheçam iniciativas de formação profissional e 70,3% tenham ouvido falar dos estágios profissionais, 90,1% afirmam nunca ter beneficiado de qualquer política ou programa público dirigido à juventude.

O retrato apresentado pelo INE é, assim, o de uma geração que quer estudar, trabalhar, empreender e progredir, mas que continua a encontrar no exterior as oportunidades que sente não existirem no país. Cabo Verde, historicamente é um país de emigração e assim permanece, sobretudo numa época em que a necessidade de mão de obra na Europa atinge número históricos. Sem dados oficiais, estima-se que nos últimos anos cerca de 105 da população cabo-verdiana terá emigrado.

Mais Artigos