O trabalho não remunerado realizado em Cabo Verde teria um valor anual estimado de 247 milhões de euros, segundo o relatório agora publicado “Uso do Tempo e Trabalho Não Remunerado – Cabo Verde, 2024″, elaborado pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género.
Do total estimado, cerca de 166,6 milhões de euros correspondem ao trabalho assegurado pelas mulheres e 80,5 milhões de euros ao realizado pelos homens. O cálculo utiliza como referência o salário mínimo então em vigor no setor privado, equivalente a aproximadamente 136 euros mensais.
Os dados mostram que 78,1% da população com 10 anos ou mais participa em alguma forma de trabalho não remunerado. Entre as mulheres, a percentagem sobe para 88,4%, contra 67,9% entre os homens.
A diferença é também visível no tempo dedicado: as mulheres gastam, em média, 22h42 por semana em tarefas domésticas, cuidados e outras atividades sem remuneração, enquanto os homens dedicam 14 horas.
Nos trabalhos domésticos, participam 85,7% das mulheres e 62,3% dos homens. Na preparação das refeições, a participação feminina também é muito maior, 72,6%, neste caso mais do dobro da masculina que se situa nos 35%.
Nos cuidados a crianças, idosos e pessoas dependentes, a participação das mulheres também é muito superior: 36,7%, contra 15,2% dos homens. O desequilíbrio começa cedo, com as raparigas dos 10 aos 14 anos a dedicarem mais tempo ao trabalho não remunerado do que os rapazes.
A sobrecarga mantém-se mesmo entre as mulheres empregadas, que acumulam trabalho profissional, tarefas domésticas e cuidados. Entre quem exerce simultaneamente trabalho remunerado e não remunerado, as mulheres chegam a uma carga média de 71h09 semanais.
Embora o tempo global dedicado a estas atividades tenha diminuído desde 2012 e a participação masculina tenha aumentado, o relatório conclui que a redução não foi acompanhada por uma redistribuição equilibrada das responsabilidades.
O estudo defende, por isso, o reforço das creches, centros de dia e serviços de apoio às famílias, bem como maior equilíbrio nas licenças parentais e a valorização económica do trabalho de cuidado, que continua essencial para o funcionamento da sociedade.




