O BAI – Banco Angolano de Investimentos prepara-se para protagonizar a primeira emissão de Obrigações Sustentáveis por uma empresa angolana na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (Bodiva), numa operação que poderá mobilizar até 57,5 mil milhões de kwanzas, caso seja exercida integralmente a opção de aumento da oferta.
A Oferta Pública de Subscrição (OPS) arranca às 8h00 da próxima Segunda-feira, 24 de Agosto, e prolonga-se até às 15h00 de 14 de Setembro de 2026.
A operação, denominada “BAI Senior Unsecured Sustainability Bond – Série A – 17% 2026–2029”, prevê inicialmente a emissão de até 5 milhões de obrigações, com um valor nominal unitário de 10 mil kwanzas e um montante global máximo de 50 mil milhões de kwanzas. O Banco poderá, contudo, acrescentar até 7,5 mil milhões de kwanzas através da green shoe option, elevando o valor potencial da emissão para 57,5 mil milhões de kwanzas.
A Comissão do Mercado de Capitais (CMC) aprovou, a 4 de Agosto, o registo da Oferta Pública de Subscrição e o respectivo Prospecto, documento que estabelece as condições da operação e os principais riscos a considerar pelos investidores.
A aprovação do regulador, contudo, assenta em critérios de legalidade e não representa uma garantia sobre a situação económica ou financeira do BAI, a viabilidade da oferta ou a qualidade das obrigações.
O instrumento, consultado pela FORBES ÁFRICA LUSÓFONA, apresenta uma taxa de juro fixa bruta de 17% ao ano, com maturidade de três anos. A emissão está prevista para 21 de Setembro de 2026 e o reembolso do capital para 21 de Setembro de 2029. Os juros serão pagos semestralmente, em 21 de Março e 21 de Setembro de cada ano, até ao vencimento.
A remuneração de 17% coloca a operação entre as emissões obrigacionistas privadas de maior dimensão actualmente previstas no mercado angolano e procura combinar uma fonte de financiamento de médio prazo para o banco com um instrumento de investimento acessível ao mercado de capitais.
A operação surge, além disso, num momento em que a diversificação das fontes de financiamento e o aprofundamento do mercado de capitais ganham relevância para a economia angolana.
Investimento mínimo de 100 mil kwanzas
Para os investidores, a entrada na operação será possível a partir de 10 obrigações, equivalentes a 100 mil kwanzas. As ordens subsequentes terão de respeitar múltiplos de uma obrigação, mantendo-se o limite máximo condicionado pela quantidade de títulos disponíveis e, caso a procura ultrapasse a oferta, pelos critérios de rateio definidos no Prospecto.
A oferta é dirigida a pessoas singulares ou colectivas residentes ou com estabelecimento em Angola. O BAI não cobrará despesas aos investidores pela subscrição, embora possam existir custos associados à abertura ou manutenção das contas de registo de valores mobiliários, bem como comissões relacionadas com o pagamento de juros e o reembolso do capital.
Um dos elementos de maior interesse da operação é a presença do ALCB Fund como Investidor Âncora, que assumiu o compromisso firme de subscrever obrigações até ao equivalente a 10 milhões de dólares. Esse montante ficará reservado ao fundo e excluído dos critérios gerais de rateio aplicáveis aos restantes investidores, até ao limite do compromisso.
O estatuto de investidor-âncora, porém, não lhe confere uma remuneração ou preço diferenciados. De acordo com o Prospecto, “o ALCB Fund subscreverá as obrigações nas mesmas condições financeiras dos demais investidores, sem desconto, comissão, garantia ou outra vantagem económica específica”.
A presença do fundo constitui um sinal relevante para a operação, mas não representa uma garantia de colocação integral. O próprio Prospecto esclarece que o compromisso não equivale a uma tomada firme nem constitui recomendação de investimento ou garantia sobre o desempenho das obrigações.
Emissão poderá atingir 57,5 mil milhões de kwanzas
A procura será determinante para a dimensão final da operação. Embora o montante inicial esteja fixado em Kz 50 mil milhões, o BAI poderá activar a green shoe option e emitir mais 7,5 mil milhões de kwanzas em obrigações com as mesmas características das inicialmente oferecidas.
A decisão deverá ser tomada antes da liquidação financeira da operação. Se a procura superar a oferta disponível, as ordens dos investidores serão sujeitas aos mecanismos de rateio previstos no Prospecto.
As obrigações serão integradas na Central de Valores Mobiliários (CEVAMA), operada pela Bodiva, com o código ISIN AOBAIODOFA13. O pedido de admissão à negociação será apresentado independentemente do resultado da oferta, estando prevista a admissão no Mercado de Bolsa para 22 de Setembro de 2026, caso seja aprovada pela Bodiva.
A possibilidade de negociação em mercado secundário acrescenta uma dimensão importante à emissão: o investidor não fica necessariamente obrigado a manter o título até 2029, podendo transaccioná-lo depois da admissão, embora a liquidez efectiva dependa da existência de compradores e vendedores no mercado.
Calendário define quatro momentos decisivos
Depois da aprovação do Prospecto pela CMC, a operação entra agora na fase de captação de investidores. O período de subscrição começa às 8h00 de 24 de Agosto e termina às 15h00 de 14 de Setembro.
Os investidores poderão alterar ou revogar as respectivas ordens até às 15h00 de 8 de Setembro. A sessão especial de bolsa para apuramento dos resultados está prevista para 16 de Setembro, seguindo-se a liquidação física e financeira, a emissão e a subscrição das obrigações em 21 de Setembro. A admissão à negociação na Bodiva está prevista para o dia seguinte, 22 de Setembro.
A Áurea – Sociedade Distribuidora de Valores Mobiliários será responsável pela assistência, recolha e colocação das ordens de subscrição, enquanto o BAI, através da sua rede de balcões, actuará como correspondente da Áurea para recepção e encaminhamento dos boletins, cabendo à distribuidora proceder ao registo, validação e tratamento das ordens.
Uma emissão que também aumenta a transparência do BAI
Para além da captação de recursos, a operação tem uma consequência estrutural para o BAI: a admissão das obrigações à negociação sujeita a instituição bancária a um regime reforçado de transparência informativa.
Entre outras obrigações, o emitente passa a estar sujeito à divulgação periódica de informação financeira e à comunicação ao mercado de informação privilegiada susceptível de influenciar de forma relevante a situação do banco ou a sua capacidade de cumprir as obrigações perante os investidores.
O BAI já havia recorrido ao mercado de capitais em Janeiro de 2026, através da emissão das Obrigações BAI 2026–2031, que mobilizou 50 mil milhões de kwanzas. A operação registou procura superior à oferta, com um rácio de cobertura de 211,41%, tendo sido subscritas 2 milhões de obrigações.
A nova emissão representa, por isso, uma evolução qualitativa da estratégia de financiamento do Banco: depois de recorrer ao mercado obrigacionista convencional, o BAI avança agora para um instrumento identificado como sustentável, ampliando a diversidade dos produtos disponíveis aos investidores e contribuindo para a sofisticação do mercado de capitais angolano.
Risco permanece do lado do investidor
Apesar da taxa fixa de 17%, o Prospecto deixa claro que a subscrição não está isenta de riscos. As obrigações são senior unsecured, ou seja, constituem uma responsabilidade directa, incondicional e geral do BAI, mas não são garantidas por activos específicos do banco.
Entre os principais riscos identificados estão a evolução da economia angolana, inflação, volatilidade cambial, taxas de juro, liquidez, qualidade da carteira de crédito, alterações regulamentares, riscos operacionais e tecnológicos, cibercrime e riscos associados à própria actividade bancária.
Existe ainda o risco de liquidez para o investidor, uma vez que a possibilidade de vender as obrigações no mercado secundário dependerá da existência efectiva de procura. O investidor suporta também o risco cambial caso tenha a sua posição financeira denominada noutra moeda, uma vez que o capital e os juros serão pagos em Kwanzas.
Outro ponto relevante é que o investidor não dispõe de direito de reembolso antecipado por sua iniciativa antes de Setembro de 2029, salvo nas situações de incumprimento previstas no Prospecto. Nesses casos, poderá ser exigido o vencimento antecipado da dívida, nos termos estabelecidos.
A nova emissão obrigacionista coloca em evidência a crescente sofisticação do mercado de capitais angolano. O BAI procura captar financiamento através de um instrumento associado à agenda de sustentabilidade e, simultaneamente, ampliar a base de produtos disponíveis aos investidores.
O sucesso da operação será medido não apenas pelo montante captado, mas também pela capacidade de consolidar este segmento como uma alternativa efectiva de financiamento empresarial no mercado angolano.





