A história de uma portuguesa que encontrou na Guiné-Bissau uma nova forma de criar impacto

Uma experiência de voluntariado de seis meses na Guiné-Bissau deveria ser apenas uma etapa no percurso de Joana Pechirra. Acabou por transformar-se numa escolha profissional, numa nova identidade e num projecto de aprendizagem da língua crioula que procura agora levar essa experiência a outras pessoas. Aos 25 anos, a portuguesa que chegou a Cacheu para…
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Da bancada de Bissau ao “Bu Obi Kriol?!”. Entre uma escola em Cacheu, as bancadas onde descobriu a vida comunitária, o crioulo aprendido nas ruas e o nome “Nhina Tchuda”, Joana Pechirra encontrou uma nova forma de olhar para o mundo e de pensar o impacto.
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Uma experiência de voluntariado de seis meses na Guiné-Bissau deveria ser apenas uma etapa no percurso de Joana Pechirra. Acabou por transformar-se numa escolha profissional, numa nova identidade e num projecto de aprendizagem da língua crioula que procura agora levar essa experiência a outras pessoas.

Aos 25 anos, a portuguesa que chegou a Cacheu para ensinar descobriu que, para intervir numa comunidade, primeiro era preciso aprender a escutá-la.

Mestre em Sustainable Business and Innovation (Gestão Sustentável e Inovação), formação concluída em Barcelona no final de 2024, Joana chegou à Guiné-Bissau em 2025 para uma experiência de voluntariado de seis meses.

O que estava previsto como uma missão temporária tornou-se uma ligação pessoal e profissional ao país e acabou por alterar a forma como interpreta realidades, relações e até o próprio conceito de cooperação.

“Penso que a ficha me começou a cair quando os seis meses começaram a chegar ao fim e eu não só sentia que ainda tinha muito para dar, como deixava de me fazer sentido trabalhar noutro país”, recorda, em conversa com a FORBES ÁFRICA LUSÓFONA.

A decisão de permanecer nasceu dessa percepção. “Dado o que me empenhei para aprender sobre esta realidade em que me sinto tão bem… é nesta realidade que quero continuar a trabalhar”, afirma.

A escolha não surgiu desligada da formação académica. Durante o mestrado, Joana consolidou uma visão segundo a qual a sustentabilidade financeira deve ser entendida como um meio para promover a sustentabilidade social e ambiental, e não como um fim em si mesmo.

“Isto motivou-me a adoptar uma lógica de intervenção profissional focada no impacto positivo e sustentável”, explica.

Foi também durante esse período que tomou conhecimento de um programa de voluntariado internacional que combinava formação intensiva em cooperação internacional e desenvolvimento com seis meses de experiência prática num projecto no Sul Global. Depois da formação, escolheu a Guiné-Bissau.

A primeira paragem foi a Escola de Formação de Professores DNS-Bachil, em Cacheu, onde trabalhou como professora voluntária. O contacto com a escola, os alunos, os professores e as comunidades locais rapidamente ultrapassou aquilo que imaginava encontrar.

“Apesar de ter tentado ao máximo adquirir previamente uma visão holística da Guiné-Bissau, há sempre uma tendência injusta para se conhecer melhor um dos lados da moeda, aquele que tende a passar na comunicação social. Eu vim na expectativa de conhecer a realidade no seu todo”, relata.

Uma das primeiras surpresas aconteceu ainda antes de aterrar. Ao sobrevoar o país, olhou pela janela do avião e pensou: “Nunca ninguém me disse que a Guiné-Bissau é tão verde.”

A constatação revelou-lhe, desde logo, que também ela chegara ao país com uma visão incompleta daquela realidade.

“Acho que, no fundo, a Guiné-Bissau foi-me mostrando todas as suas facetas e eu, cada vez mais, fui ficando humilde perante o meu desconhecimento”, refere.

E acrescenta: “A humildade é o ponto de partida de qualquer aprendizagem, e a aprendizagem é o ponto de partida de qualquer intervenção. Não há cooperação sem conhecimento mútuo.” Essa ideia acabaria por atravessar toda a sua experiência no país.

Durante os seis meses de voluntariado, Joana desenvolveu materiais e iniciativas que continuam a ter impacto na escola. Entre eles estão um manual de caligrafia e um currículo para a disciplina de inglês, com componentes teóricas e práticas. Criou ainda uma equipa de comunicação digital, formada por alunos que receberam formação nessa área e que posteriormente passaram a transmitir esses conhecimentos a novas gerações.

Quando o voluntariado terminou, a experiência já tinha deixado de ser apenas uma missão. Joana regressou posteriormente à Guiné-Bissau para trabalhar num projecto de cooperação internacional, desta vez com uma experiência de terreno que lhe permitia olhar para o país com outras lentes.

“Eu vivi a minha experiência de voluntariado de uma forma muito profissional e vivo a minha experiência de trabalho de uma forma muito humilde”, resume.

Hoje, continua profissionalmente ligada à cooperação internacional e ao trabalho com comunidades, mantendo como referência a visão de sustentabilidade e impacto social consolidada durante a formação académica.

Um nome que nasceu da convivência

A segunda passagem pela Guiné-Bissau encontrou, contudo, uma Joana diferente. Os três meses que passou em Portugal entre as duas experiências foram decisivos para consolidar a aprendizagem do crioulo. Através de video-chamadas diárias com amigos guineenses, desenvolveu a comunicação oral num ambiente que descreve como seguro.

“Quando regressei à Guiné já tinha uma fluência que me permitia interagir em qualquer ambiente. Comecei a sair à rua sozinha todos os dias e a ser verdadeiramente independente. Isso melhorou por completo a minha experiência”, narra.

Mas a integração tinha começado muito antes de dominar a língua. E ganhou forma num nome que passou a acompanhá-la: Nhina Tchuda.

A história começa com Oceano Sanhá Tchongo, director da escola onde realizou o voluntariado e uma das pessoas que considera fundamentais na sua integração no país. Foi através da amizade construída entre ambos que recebeu o título de “papê di Guiné”, ou pai da Guiné.

Oceano é balanta e, algumas semanas depois da chegada de Joana, durante um djumbai – uma conversa descontraída – na praia, um amigo chamado Suleimane brincou com a relação entre os dois. Se Joana era filha de Oceano e Oceano era balanta, então também ela seria balanta e precisaria de um apelido. O nome escolhido foi Tchuda.

Pouco depois, outro amigo, Nhanque, acrescentou o segundo elemento.

“Tu és Nhina”, disse-lhe, explicando que, na etnia balanta, Nhina significa “djubi”, ou seja, observar.

“Gostei não só da espontaneidade desta atribuição, como do seu significado, intimamente relacionado com a perspectiva que os meus amigos tinham de mim”, recorda.

Assim nasceu Nhina Tchuda, nome que rapidamente se espalhou pela comunidade escolar, pela bancada – ponto de encontro informal, normalmente à porta de casa – e, mais tarde, pelas redes sociais.

“Ao dia de hoje, quando me perguntam o meu nome na Guiné-Bissau, já não penso duas vezes. ‘Nhina Tchuda’ acabou por representar a pessoa em que me tornei. É tipo a Joana 2.0, com mais mundividência, mais consciência histórica e colectiva”, diz.

A presença nas redes sociais viria a ampliar essa identidade. Já no aeroporto, quando regressou à Guiné-Bissau, ouviu pela primeira vez alguém reconhecê-la como “a Nhina Tchuda do TikTok”. Hoje, conta, esse reconhecimento tornou-se parte do quotidiano.

Bancada “Pedra Sagrada de Kundok”

A bancada como laboratório de integração

Antes de ser um elemento da sua identidade pública, porém, Nhina Tchuda nasceu da convivência. E uma das principais portas de entrada nessa convivência foi a bancada.

Para Joana, a bancada é muito mais do que um lugar onde as pessoas se sentam. É um espaço de convívio, aprendizagem e construção de relações.

“A bancada é, para mim, um ícone da matriz cultural da Guiné-Bissau, representando uma colectividade, um espaço e uma experiência numa só palavra”, explica.

Foi numa dessas bancadas que começou a observar as dinâmicas sociais do país, numa altura em que ainda não dominava o crioulo. Ali aprendeu a relação entre gerações, os papéis sociais, os hábitos, o humor, a música e, sobretudo, uma forma comunitária de viver.

A primeira bancada que integrou chegou a ter nome próprio – “Pedra Sagrada de Kundok” –, organigrama e uma festa anual para celebrar a sua criação.

“Sou uma acérrima defensora de que as bancadas são excelentes oportunidades de integração social e imersão cultural”, afirma.

Foi também através delas que conheceu novos bairros, provou pratos e petiscos típicos, fez amizades e encontrou um espaço seguro para observar, perguntar e aprender.

“Se as virmos com lentes de sociólogos, as bancadas são verdadeiros laboratórios sociológicos”, considera.

Do crioulo às notas do telemóvel

A aprendizagem do crioulo começou ainda antes de chegar à Guiné-Bissau, mas foi no contacto directo com as pessoas que ganhou verdadeira dimensão.

“100% do vocabulário que sei em crioulo aprendi nas ruas, nas feiras, nos táxis, nas bancadas, na escola onde trabalhava e em todos os demais sítios por onde passei”, conta.

O método era simples. Tudo o que aprendia era registado nas notas do telemóvel e organizado numa tabela com a palavra ou expressão em português e a respectiva tradução em crioulo.

“Para mim, a aprendizagem do crioulo é um processo activo e constante. Sou capaz de estar numa discoteca e pegar no telemóvel para anotar palavras novas”, relata.

Da necessidade pessoal nasceu, mais tarde, o projecto “Bu Obi Kriol?!”.

A expressão que dá nome ao livro de bolso surgiu precisamente de uma das reacções que passou a ouvir depois de começar a falar crioulo: “Bu obi kriol?! – percebes crioulo?!”

A pergunta traduz o espanto de quem não espera que uma estrangeira consiga comunicar na língua guineense. Para Joana, porém, falar crioulo representa muito mais do que conseguir fazer-se entender.

“Falar em crioulo, enquanto não-guineense, é automaticamente construir uma ponte para a comunhão entre os povos e para uma interculturalidade mais respeitosa”, afirma. É também uma forma de respeito.

“É um quebra-gelo que, por norma, começa com o espanto traduzido na pergunta que mais oiço na Guiné: ‘Bu obi kriol?!’”, explica.

Quando as notas se transformaram num livro

A ideia de transformar as notas pessoais num livro surgiu depois de Joana começar a publicar vídeos em crioulo nas redes sociais. A crescente visibilidade trouxe-lhe mensagens de pessoas que queriam aprender a língua, mas não sabiam por onde começar.

Entre elas estavam guineenses nascidos em Portugal que não falavam crioulo, pessoas casadas com guineenses que queriam comunicar melhor com as famílias e profissionais que se preparavam para trabalhar no país.

Joana percebeu então que o instrumento que tinha criado para si poderia servir outras pessoas.

“Se foram estas notas que me permitiram aprender, então, melhorando a sua organização e assegurando a correção linguística, poderão igualmente ser o ponto de partida para todas estas pessoas que têm a motivação de aprender!”, pensou.

O livro foi concebido como uma ferramenta prática e acessível, disponível em português e inglês.

Mais do que uma gramática ou um dicionário, procura responder às necessidades de quem quer começar a comunicar no mercado, num táxi, numa conversa ou numa situação quotidiana.

“Foi um livro construído a partir de uma experiência prática, a pensar na sua utilidade prática”, explica.

Joana faz questão, contudo, de sublinhar que o conhecimento reunido no livro não lhe pertence. “Os meus professores de crioulo foram todos os guineenses que, de uma maneira ou de outra, se cruzaram comigo”, afirma.

Por isso, define-se quase como uma intermediária: alguém que organizou, sistematizou e divulgou conhecimento que lhe foi transmitido pelos próprios guineenses.

“O crioulo não é português mal falado”

A experiência de aprendizagem levou-a também a questionar uma ideia que considera profundamente redutora: a de que o crioulo seria apenas uma versão simplificada do português.

“São algumas das minhas preferidas porque demonstram, de forma muito simples, que o crioulo não é ‘português mal falado’, muito menos uma língua ‘básica, sem substância’”, afirma.

Para Joana, o crioulo possui uma sintaxe própria, expressões e significados que não podem ser compreendidos através de traduções literais.

Uma das expressões que mais a marcou foi “No sta djuntu”, que significa “estamos juntos”.

“Até hoje, não passo um dia sem a dizer. Talvez porque, mais do que uma expressão que aprendi em crioulo, ‘No sta djuntu’ traduz o meu modo de convivência com os guineenses: ombro a ombro”, relata.

Novas lentes para interpretar o mundo

Mais de um ano depois da primeira chegada ao país, Joana reconhece que a experiência guineense alterou profundamente a sua forma de olhar para o mundo.

“Acima de tudo, a Guiné-Bissau tem expandido a minha mundividência. Tem-me permitido desenvolver novas lentes para interpretar diferentes realidades”, afirma.

A experiência também a levou a olhar de outra forma para a própria sociedade portuguesa, nomeadamente para os desafios de integração da comunidade guineense em Portugal.

Hoje, diz compreender melhor determinadas experiências dos migrantes guineenses porque conhece a realidade de onde muitos deles partiram.

A cooperação, para Joana, passou também a significar reciprocidade. Assim como precisou de ajuda para compreender e navegar pela realidade guineense, acredita que os migrantes precisam de apoio para compreender e aceder às estruturas da sociedade portuguesa.

No centro desta visão está uma convicção que nasceu ainda durante os primeiros meses no país: nenhuma intervenção pode ser verdadeiramente sustentável sem conhecimento mútuo.

“Guinendadi”: a palavra que resume uma relação

Quando lhe perguntam por que razão se apaixonou pela Guiné-Bissau, Joana recorre a uma palavra que, segundo diz, dificilmente encontra tradução exacta: “guinendadi”.

“Eu costumo dizer que foi a ‘guinendadi’ que me fez apaixonar pela Guiné”, conta.

Para ela, o conceito representa a autenticidade, a solidariedade e a dimensão humana que encontrou no país.

É também essa dimensão que explica a forma como hoje se relaciona com a Guiné-Bissau. Joana reconhece que criou uma rede de pessoas e lugares onde se sente verdadeiramente confortável, mas mantém alguma prudência em chamar à Guiné a sua “casa”. “Por isso, talvez seja ainda precoce falar em ‘casa’”, admite.

Mas se há algo que mudou, é a pessoa que chegou em 2025. “Costumo dizer, na brincadeira, que a Nhina é a versão 2.0 da Joana”, afirma.

A experiência deu-lhe, sobretudo, novas ferramentas para interpretar o mundo e a humildade necessária para reconhecer o quanto ainda tem para aprender.

A Guiné-Bissau entrou na sua vida através de uma experiência de seis meses. Ficou através das pessoas, das bancadas, da língua e das relações construídas ao longo do caminho.

Hoje, Joana continua no país, profissionalmente ligada à cooperação internacional e pessoalmente envolvida numa realidade que já não observa apenas de fora. Entre o trabalho, as comunidades, as redes sociais e o projecto “Bu Obi Kriol?!”, procura transformar a experiência que viveu numa ponte para outros.

E talvez seja essa a síntese mais fiel da sua passagem pela Guiné-Bissau: chegou para aprender a intervir, acabou por aprender a escutar e descobriu que, muitas vezes, a melhor forma de criar impacto começa precisamente por reconhecer que ainda há muito para aprender.

A história começou com um voo para a Guiné-Bissau. Passou por uma escola em Cacheu, pelas bancadas, pelas conversas em crioulo e por um nome que nasceu da amizade. Hoje, chama-se Nhina Tchuda.

E, como ela própria resume, “No sta djuntu”.

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