Opinião

A urgência de olhar outra vez: como a arte contemporânea desmantela o clichê sobre África

João Boavida

O continente africano nunca precisou de ser descoberto; o mundo é que precisa de aprender a olhar. Através da criação artística, África recusa a narrativa simplista da miséria e afirma a sua verdadeira complexidade.

Durante demasiado tempo, África foi explicada ao mundo por quem estava de fora. Aprisionada aos olhos dos outros sob prismas redutores. Pela política. Pela pobreza. Pela guerra. Pela ajuda humanitária. Pelo exotismo. Estas realidades existem, é certo, mas nunca definiram a totalidade do continente.

Talvez por isso me fascine tanto a arte contemporânea africana. Não apenas pelas obras, pelos artistas ou pelo mercado que se tem desenvolvido à sua volta. Interessa-me pela missão, pelo impacto e pelo que nos obriga a fazer: finalmente, aprender a olhar.

Porque o preconceito tem uma característica particularmente perigosa: simplifica. África nunca foi e recusa-se a ser simples.

Luanda não é Maputo. Dakar não é Lagos. Accra não é Nairobi. Dentro de cada uma destas cidades coexistem gerações, manifestações culturais, ambições e formas radicalmente diferentes de imaginar e desenhar o futuro.

A arte devolve-nos essa complexidade.

É precisamente aqui que a arte contemporânea africana deixa de ser um mero objeto

estético ou um mercado em expansão para se tornar um ato de reafirmação, de pertença.

Deixamos de olhar para “um artista africano” e encontramos uma pessoa. Um nome. Uma história. Uma memória. Uma provocação. Uma forma particular de olhar para o mundo.

E quando conhecemos o indivíduo, torna-se muito mais difícil continuar a acreditar no estereótipo.

Foi uma das coisas que aprendi ao longo dos últimos anos com a Afrikanizm e, sobretudo, com os artistas que fui conhecendo.

África não precisa de uma narrativa mais positiva. Precisa de uma narrativa mais completa e os seus artistas estão a construí-la todos os dias.

Nas suas obras encontramos cidades em transformação, o diálogo entre tradição e modernidade, dinâmicas da diáspora, a identidade, a tecnologia, a desigualdade mas também a ambição, o amor e a pertença.

Encontramos, afinal, um continente em mudança.

A arte não é apenas consequência dessa transformação, é um dos seus motores. É uma das formas mais poderosas de observar a complexidade das várias geografias e culturas no continente.

Talvez eu seja particularmente sensível a isso porque também cresci entre geografias. Nasci em Lisboa e cresci em Luanda. Aprendi cedo que a distância entre dois lugares nem sempre se mede em quilómetros. Muitas vezes mede-se naquilo que desconhecemos uns dos outros.

Portugal e Angola. Europa e África.

Histórias difíceis e feridas por sarar? Sem dúvida. Assimetrias evidentes? Também. Mas igualmente famílias, afetos, música, gastronomia, negócios, ideias e uma linguagem que, com todos os seus encontros e desencontros, continua a ligar milhões de pessoas. E se a cultura tem o poder de aproximar, a arte cria o lugar onde esse encontro acontece.

É este o propósito que nos leva à Mundet, no Seixal, no próximo mês de outubro. Levar a Afrikanizm a uma antiga fábrica para cruzar diferentes geografias da Lusofonia. Não deixa de haver alguma poesia no lugar. Uma antiga fábrica ganha uma nova vida. Onde antes se transformava matéria, queremos agora provocar ideias, conversas e encontros.

Talvez seja também uma boa metáfora para a forma como devemos olhar para África: é tempo de renovar algumas das ideias antigas que ainda carregamos sobre o continente.

Sem apagar o passado. Sem romantizar a história. Sem fingir que somos todos iguais. Porque aproximar não significa tornar igual. Significa sermos capazes de reconhecer alguma coisa de nós no outro, apesar das diferenças. Reconhecer a própria humanidade no outro.

É aí que a arte se torna extraordinária.

Posso nunca ter vivido na cidade de um artista. Não conhecer a sua família, a sua língua ou as referências da sua infância e, ainda assim, perante a sua obra sou capaz de reconhecer uma emoção que também é minha.

Uma perda. Um desejo. Uma memória. Uma alegria. Amor. Chamamos-lhe arte. Mas talvez estejamos simplesmente a falar de empatia.

Durante demasiado tempo perguntámos quando é que o mundo iria “descobrir” África. Nunca gostei particularmente dessa expressão. Sempre me pareceu desadequada.

África nunca precisou de ser descoberta. Os seus artistas já estavam a criar. As suas cidades já estavam a transformar-se. As suas histórias já estavam a ser contadas.

Nós é que precisamos, urgentemente, de aprender a olhar.

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