A segurança hídrica e a segurança alimentar devem ser tratadas como prioridades interligadas para garantir a soberania alimentar de África, defendeu o Presidente da República de Angola, João Lourenço, durante o discurso de abertura da 4.ª edição do Fórum Pan-Africano para uma Cultura de Paz e Não-Violência – Bienal de Luanda, realizada esta quinta-feira, 22 de Outubro.
Na sua intervenção, o Chefe de Estado alertou para os efeitos das alterações climáticas, nomeadamente a seca e as inundações, que continuam a afectar as condições de vida de comunidades inteiras em diferentes regiões do continente africano.
João Lourenço considerou fundamental a adopção de medidas coordenadas a nível nacional, regional e continental para mitigar os impactos dos fenómenos naturais, cada vez mais frequentes, defendendo uma abordagem conjunta para enfrentar os desafios relacionados com a disponibilidade e a gestão dos recursos hídricos.
O Presidente angolano destacou igualmente a importância da cooperação entre os países, sustentada pelo princípio da boa-vizinhança, como instrumento para prevenir tensões, promover a harmonia e garantir que as comunidades fronteiriças tenham acesso à água sem constrangimentos.
Neste contexto, sublinhou que Angola, enquanto país detentor de vastos recursos hídricos, orienta a sua actuação pelo princípio do uso equitativo da água e pelo respeito dos compromissos internacionais, com particular destaque para o Protocolo Revisto da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) sobre os Cursos de Água Partilhados.
África precisa de mais financiamento para adaptação climática
No domínio do financiamento climático, João Lourenço defendeu a união dos países africanos para exigir a desburocratização dos fluxos financeiros internacionais e a canalização prioritária de ajudas não reembolsáveis, bem como de empréstimos concessionais em condições justas.
Segundo o Chefe de Estado, a mobilização de recursos financeiros é indispensável para permitir que os países africanos executem as prioridades nacionais definidas nas respectivas estratégias de resposta às alterações climáticas.

A posição reflecte a necessidade de reforçar os mecanismos de financiamento para projectos de adaptação climática, sobretudo nos países mais vulneráveis aos fenómenos extremos e aos efeitos da escassez de água.
Jovens e mulheres no centro das soluções
O discurso presidencial destacou também o papel das novas gerações na construção de soluções sustentáveis para os desafios da água e do saneamento, com particular atenção ao diálogo inter-geracional promovido pela Bienal de Luanda.
João Lourenço saudou os 12 jovens líderes representantes das cinco regiões de África, os activistas e os Embaixadores da Juventude Africana para a Paz, considerando que a criatividade, a capacidade de inovação e a energia dos jovens podem contribuir para a transformação das comunidades.
Sob o tema “Governação Inclusiva: Unir as Gerações para Garantir a Disponibilidade Sustentável de Água e Sistemas de Saneamento Seguros para Alcançar os Objectivos da Agenda 2063”, o diálogo inter-geracional procura aproximar a experiência dos líderes mais velhos da capacidade transformadora da juventude africana.
O Presidente da República apontou, entre as oportunidades, a criação de start-ups dedicadas às tecnologias da água e ao saneamento sustentável, o desenvolvimento de soluções de base comunitária e a participação dos jovens na diplomacia preventiva e na mediação de conflitos.
Na mesma ocasião, prestou homenagem à mulher africana, reconhecendo o seu papel central na gestão da água nos lares e nas comunidades rurais, bem como na protecção dos ecossistemas e na mobilização comunitária.
Para João Lourenço, a liderança feminina deve estar representada nos processos de tomada de decisão, no planeamento dos recursos hídricos e nos mecanismos de prevenção de conflitos.
O estadista considerou ainda que a união entre mulheres e jovens constitui uma força importante para contrariar tendências de confrontação e prevenir conflitos de diferentes naturezas.
Bienal alinhada com a agenda continental
O Presidente da República salientou que o tema central da 4.ª edição da Bienal de Luanda assume particular relevância por estar alinhado com o tema da União Africana para 2026 e por contribuir para a convergência de ideias e acções em torno dos desafios comuns do continente.
A iniciativa deverá igualmente favorecer a construção de um quadro de acção colectiva africana a ser defendido na Conferência Mundial da Água das Nações Unidas, prevista para Dezembro de 2026.
A Bienal de Luanda constitui, assim, uma plataforma de diálogo e concertação sobre a paz, a não-violência, a governação inclusiva e a cooperação africana, num contexto em que a gestão sustentável da água assume crescente importância para a segurança alimentar, a estabilidade das comunidades e o desenvolvimento do continente.
No final da intervenção, João Lourenço declarou aberta a 4.ª edição do Fórum Pan-Africano para uma Cultura de Paz e Não-Violência – Bienal de Luanda.





