Há momentos na história em que a retórica diplomática deixa de conseguir mascarar a realidade. O tempo presente é um desses momentos. O mundo não vive uma sucessão de crises isoladas; vive, sim, uma ruptura sistémica. E essa ruptura expõe, com clareza desconcertante, o esgotamento da ordem internacional tal como a conhecemos.
As guerras que hoje dominam a agenda mediática, com particular destaque para o Médio Oriente, não são apenas confrontos territoriais ou ideológicos. São manifestações de um sistema em desagregação, onde o Direito Internacional deixou de ser norma para passar a ser instrumento selectivo, invocado ou ignorado conforme a conveniência das potências.
O caso do Irão e a escalada de tensões com Israel e os seus aliados constituem um exemplo paradigmático. Não se trata apenas de mais um conflito regional: trata-se de um ponto de ruptura com implicações globais imediatas. E nenhum símbolo dessa fragilidade é mais evidente do que o Estreito de Ormuz.
O Estreito de Ormuz não é apenas uma rota marítima. É uma artéria vital da economia mundial. Por ali transita uma parte significativa do petróleo consumido no mundo. Qualquer perturbação, mesmo que temporária, tem efeitos quase instantâneos: subida dos preços da energia, pressão inflacionista, instabilidade nos mercados financeiros e desaceleração económica à escala global.
Ignorar este facto é um exercício de irresponsabilidade política. O simples risco de bloqueio ou militarização daquele corredor marítimo já é suficiente para desencadear reacções em cadeia. O mundo tornou-se refém de um ponto geográfico. E isso revela, de forma brutal, a fragilidade estrutural da globalização tal como foi concebida.
Mas há algo ainda mais inquietante do que a escalada militar: a erosão acelerada das normas internacionais. O que se observa, seja nas dinâmicas políticas na Venezuela, seja nas acções militares envolvendo o Irão, é uma tendência clara da substituição do direito pela força, da diplomacia pela imposição.
Perante isto, a pergunta impõe-se: onde está a comunidade internacional? A resposta é incómoda, mas evidente: está paralisada.
A Organização das Nações Unidas (ONU), outrora pilar da estabilidade global, encontra-se hoje reduzida a um papel quase decorativo em muitos dos conflitos mais críticos. O bloqueio crónico do Conselho de Segurança, refém dos interesses das grandes potências, transformou a organização num espaço de retórica previsível e acção irrelevante.
A ONU não falhou apenas na prevenção de conflitos. Falhou, sobretudo, na afirmação da sua autoridade moral e política.
Este vazio não permanece sem consequência. Pelo contrário, está a ser rapidamente preenchido.
Assistimos, sem grande disfarce, à formação de uma nova ordem mundial – não declarada, mas operacional. Uma ordem caracterizada pela multipolaridade agressiva, pela instrumentalização de recursos estratégicos e pela redefinição de alianças em função de interesses imediatos, e não de princípios.
Neste contexto, a posição da União Europeia (UE) merece uma análise particularmente crítica. A UE continua a proclamar a sua fidelidade ao multilateralismo e ao Direito Internacional, mas revela uma incapacidade estrutural para agir com coerência e firmeza. Dividida internamente e dependente externamente, a Europa arrisca-se a tornar-se irrelevante num mundo que já não valoriza a hesitação.
Em contraste, outras vozes começam a assumir posições mais claras, ainda que incómodas para o equilíbrio tradicional de poder. O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a sua participação no Fórum CELAC-África sobre Paz, Soberania e Justiça, adotou uma postura inequívoca: denunciou abertamente os duplos padrões da comunidade internacional, criticou a selectividade na aplicação do Direito Internacional e defendeu uma reconfiguração das instituições globais que reflita a realidade contemporânea.
Esta posição pode ser lida de duas formas. Por um lado, como uma tentativa legítima de dar voz ao chamado Sul Global, historicamente marginalizado nas grandes decisões internacionais. Por outro, como um sinal claro de que o consenso ocidental já não é suficiente para sustentar a ordem global.
E é precisamente aqui que reside o ponto mais provocador, e talvez mais desconfortável, desta minha análise: o mundo não está apenas a mudar; está a fragmentar-se em blocos com visões incompatíveis sobre poder, justiça e legitimidade.
As consequências económicas desta fragmentação são já visíveis. A instabilidade energética provocada pelas tensões no Médio Oriente, com epicentro potencial no Estreito de Ormuz, está a redefinir cadeias de abastecimento, a acelerar estratégias de diversificação energética e a aumentar os custos de produção à escala global. A inflação persistente, a volatilidade dos mercados e o abrandamento do crescimento económico não são fenómenos isolados; são sintomas de um sistema sob pressão extrema.
Mais grave ainda, estas dinâmicas tendem a aprofundar desigualdades. Economias mais frágeis tornam-se particularmente vulneráveis a choques externos, enquanto as grandes potências reforçam a sua capacidade de adaptação e controlo.
Perante este cenário, a narrativa de uma ordem internacional baseada em regras universais torna-se cada vez mais difícil de sustentar. O que emerge, em seu lugar, é uma realidade menos confortável, mas mais honesta: uma ordem baseada na correlação de forças.
A questão que se coloca não é, portanto, se estamos perante uma nova ordem mundial. Essa transformação já está em curso. A verdadeira questão é outra: quem define as regras e com que legitimidade?
Se a resposta continuar a ser ditada exclusivamente pelos interesses dos mais fortes, então não estaremos perante uma nova ordem, mas perante um regresso a velhas lógicas de poder que a história já demonstrou serem profundamente instáveis. E, nesse caso, não será a guerra a expceção, será, cada vez mais, a regra.
Potências como os Estados Unidos, a China e a Rússia desempenham papéis ambivalentes. Se, por um lado, são indispensáveis para qualquer solução global, por outro, são também protagonistas ou catalisadores destas tensões que moldam o actual sistema internacional. A ausência de uma liderança clara e consensual contribui para um ambiente de incerteza permanente, onde o risco de escalada, incluindo cenários de conflito alargado, permanece uma realidade plausível.
Perante este quadro, a questão que se impõe não é apenas geopolítica, é civilizacional. Que tipo de ordem internacional queremos construir? Uma baseada na força e na lógica de blocos, ou uma renovada aposta no direito, na cooperação e na responsabilidade coletiva?
A resposta a esta pergunta determinará não apenas o futuro das relações entre Estados, mas o próprio destino da humanidade num século que, cada vez mais, se revela imprevisível.





