Opinião

África como um futuro player em economia digital

Patrícia Cassamá

Enquanto as grandes potências redefinem a ordem tecnológica global entre o domínio das plataformas, o controlo dos dados e a supremacia na inteligência artificial, uma questão ainda permanece subestimada: que lugar tem a África nesta nova arquitectura de poder?

Hoje, os Estados Unidos ainda dominam a economia digital, através dos seus gigantes tecnológicos e da sua capacidade de inovação. A China, por seu lado, avança com uma estratégia estruturada, combinando infra-estruturas, financiamento e projecção tecnológica em mercados emergentes.

Na Guiné-Bissau, como em todo o continente, estamos num ponto de inflexão histórico. A dinâmica demográfica não tem paralelo: África terá mais de 1,7 mil milhões de habitantes até 2030, com a população mais jovem do mundo. Ao mesmo tempo, várias instituições internacionais estimam que a economia digital africana poderá ultrapassar os 180 mil milhões de dólares em curto prazo. Essa mudança já está em andamento.

No entanto, de acordo com várias análises do Banco Mundial e de empresas estratégicas internacionais, uma proporção significativa de empresas africanas ainda permanece na fase inicial da transformação digital. Esta lacuna entre o potencial estrutural e a execução operacional constitui tanto um risco sistémico como uma oportunidade histórica.

Os investimentos em infra-estruturas digitais, na inteligência artificial e na valorização dos dados estão a remodelar o equilíbrio de poder à escala global. Estudos recentes realizados por instituições como a McKinsey mostram que as empresas que integram totalmente o digital no seu modelo operacional podem melhorar a sua produtividade entre 20 a 30%.

Na Guiné-Bissau, a transofrmação digital já é uma realidade. Com o lançamento da Estratégia Nacional para Transformação Digital, apoiada pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas em Março de 2025, o país ambiciona modernizar a admistração pública, a implementação do digital no sector privado e inclusão digital com a finalidade de diminuir o fosso existente no país.

O ecossistema em torno da economia digital é amplamente experiementada com os serviços financeiros digitais que constituí um verdadeiro motor de inclusão financeira e digital.

As soluções propocionodas pelos serviços financeiros digitais no contexto da Guiné-Bissau abragem inúmeras oportunidades. No entanto, a literacia digital, o acesso a infra-estruturas digitais e o enquadramento legal e regulatório ainda constituem desafios estruturantes. A questão é: queremos ser utilizadores ou arquitectos?

O sector privado tem um papel decisivo a desempenhar. Já não se trata de importar soluções, mas de construir ecossistemas capazes de produzir valor localmente e ao mesmo tempo ser competitivos globalmente. África já atrai vários investimentos para a transformação digital todos os anos, apoiados em particular por intervenientes como a IFC e outros parceiros internacionais.

Mas permanece a questão fundamental: quem construirá esta transformação? Muitas vezes, África é posicionada como um mercado. Raramente como potência em construção. A infra-estrutura é financiada em outro lugar. As plataformas são projectadas em outro lugar. Os padrões são definidos em outro lugar.

Este desequilíbrio não é inevitável. É uma escolha colectiva que devemos questionar. Porque na economia digital, dependência tecnológica significa dependência económica.

Dados, redes, inteligência artificial estão a tornar-se instrumentos de poder comparáveis ​​aos recursos estratégicos do passado. Neste contexto, permanecer um simples utilizador de inovações equivale  ceder parte da nossa soberania. É precisamente aqui que reside o meu compromisso.

A minha ambição é clara, contribuir para o surgimento de um sector privado capaz de pensar globalmente, agir com precisão estratégica e criar valor duradouro, ancorado nas nossas realidades mas competitivo.

Isto implica uma profunda mudança de paradigma. Devemos afastar-nos de uma lógica de imitação onde reproduzimos modelos concebidos noutros locais para entrar numa lógica de liderança, onde desenhamos as nossas próprias trajectórias de crescimento.

Concretamente, esta assenta em três eixos estruturantes. A primeira é construir uma infra-estrutura digital sólida. Não pode haver uma economia digital bem-sucedida sem bases sólidas: conectividade confiável, sistemas de pagamento eficientes, plataformas seguras e acesso ampliado às tecnologias. Estas infra-estruturas não são simplesmente técnicas, são estratégicas. Condicionam a nossa capacidade de inovar, atrair investimentos e integrar cadeias de valor globais.

O segundo eixo é o surgimento de empresas tecnológicas competitivas. Devemos ir além do consumo de soluções estrangeiras e incentivar a criação de players locais capazes de desenvolver produtos, serviços e modelos adaptados aos nossos mercados, mas também exportáveis. Isto requer acesso ao financiamento, uma cultura empresarial reforçada e padrões elevados em termos de governação e desempenho.

Por fim, o terceiro eixo é a estruturação de ecossistemas de inovação. Nenhum negócio dá certo sozinho. É essencial criar ambientes onde interajam empreendedores, investidores, instituições públicas, universidades e parceiros internacionais. O desafio vai muito além da transformação digital.

Trata-se de posicionar de forma sustentável a nossa economia como um actor capaz de produzir valor, influenciar padrões e participar ativamente na redefinição dos equilíbrios económicos.

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