Especialistas angolanos defenderam esta Terça-feira um maior investimento do Estado em infra-estruturas rodoviárias, modernização aduaneira e harmonização regional de processos logísticos, alertando que os actuais constrangimentos continuam a limitar a competitividade de Angola enquanto plataforma logística regional.
As declarações foram feitas à margem do Logistics Africa Summit 2026, encontro dedicado ao futuro da logística e dos corredores de desenvolvimento em África Austral, numa altura em que Angola procura consolidar-se como eixo estratégico de circulação de mercadorias entre o interior do continente e o Atlântico.
Para Luís Silva, CEO da AJS Transportes e Logística, o país precisa acelerar acordos com Estados vizinhos para facilitar processos aduaneiros e melhorar a circulação transfronteiriça de mercadorias e meios de transporte.
Segundo o gestor, a eficiência logística depende directamente da qualidade das infra-estruturas e da capacidade de reduzir atrasos administrativos nas fronteiras.
“O bom ou o mau estado das infra-estruturas impacta directamente aquilo que em logística chamamos de ‘velocidade média’. Quanto maior for essa velocidade, mais rapidamente o produto chega ao destino e menor será o custo”, argumentou.
Luís Silva defendeu igualmente a simplificação dos processos alfandegários, considerando que a redução do tempo de espera dos camiões nas fronteiras teria impacto imediato na redução dos custos de transporte e no aumento da produtividade dos operadores logísticos.
“Quanto mais viagens um operador conseguir fazer, melhor será a rentabilidade dos seus meios. Se houver muita demora nas fronteiras ou baixa velocidade média nas estradas, o custo do serviço torna-se inevitavelmente mais elevado”, afirmou.
Na visão do empresário, a existência de constrangimentos operacionais compromete o funcionamento efectivo da Zona de Comércio Livre Continental Africana, sobretudo numa região que procura acelerar a integração económica e comercial.
“Não é possível ter uma zona de comércio livre plenamente funcional se persistirem estes obstáculos”, alertou, defendendo que Angola deve observar modelos internacionais onde processos aduaneiros entre países são concluídos em poucas horas graças à elevada integração logística e administrativa.
Também presente no evento, Miguel Pereira, fundador da ProLog Soluções, considerou prioritário o investimento contínuo nos corredores do Lobito e do Namibe, sublinhando, no entanto, que o esforço não deve depender exclusivamente do Estado.
Segundo o responsável, o sector privado angolano precisa igualmente assumir um papel activo na construção da nova arquitectura logística nacional.
“Existem boas empresas angolanas de logística e produção que podem investir nos corredores. Ao fazê-lo, estarão também a contribuir para o fortalecimento do conteúdo local”, defendeu.
Miguel Pereira alertou, contudo, que os corredores não podem transformar-se apenas em rotas de passagem para exportação de carga proveniente de países vizinhos através dos portos angolanos.
Para o gestor, a sustentabilidade económica dos corredores dependerá da capacidade de Angola desenvolver actividade industrial, serviços logísticos e cadeias produtivas ao longo destas infra-estruturas estratégicas.
“Temos de criar infra-estruturas dentro dos corredores, criar indústria e estruturas económicas associadas aos corredores. Só assim eles serão sustentáveis”, defendeu.
O debate acontece num momento particularmente relevante para Angola e para a África Austral. A reabilitação do Corredor do Lobito, a expansão portuária de Luanda e do Namibe e os investimentos ferroviários e rodoviários em curso estão a reposicionar o País como um potencial eixo logístico atlântico do continente.
Ainda assim, especialistas consideram que o verdadeiro desafio ultrapassa a construção física das infra-estruturas. A competitividade logística regional dependerá igualmente da eficiência regulatória, integração aduaneira, capacidade industrial e articulação entre Estado e sector privado – factores considerados decisivos para transformar os corredores económicos em motores efectivos de crescimento e integração regional.





