Ao terminar o seu mandato como Diretor Executivo do Banco Mundial, qual considera ser a decisão ou iniciativa de que mais se orgulha?
Ao longo do meu mandato, tive a oportunidade de contribuir para várias iniciativas importantes, mas gostaria de destacar três que considero particularmente relevantes. A primeira foi o trabalho em prol dos Pequenos Estados. Tive a honra de presidir ao Grupo de Trabalho dos Pequenos Estados do Banco Mundial e, durante o meu mandato, Cabo Verde assumiu também a presidência do Fórum dos Pequenos Estados. Nesse período, trabalhámos em estreita colaboração com colegas de diferentes regiões para assegurar que os desafios específicos destes países fossem melhor reconhecidos pelo Banco Mundial. Um dos marcos mais importantes foi a aprovação da nova Estratégia para os Pequenos Estados, que reforça a atenção dada às suas vulnerabilidades económicas, climáticas e estruturais e procura responder melhor às suas necessidades de desenvolvimento. A segunda foi o apoio aos países em situação de fragilidade, conflito e violência (FCV). Muitos dos países que representei pertencem a esta categoria e defendi sempre que estas situações exigem respostas diferenciadas e adaptadas à realidade no terreno. A aprovação da nova Estratégia para países em situação de Fragilidade Conflito e Violência foi um passo importante para garantir uma atuação mais eficaz nestes contextos. A terceira é a Missão 300, lançada pelo Grupo Banco Mundial e pelo Banco Africano de Desenvolvimento, com o objetivo de levar eletricidade a 300 milhões de africanos até 2030. Quando presidimos ao African Caucus em Cabo Verde, defendemos que era necessária uma abordagem mais ambiciosa para responder ao enorme défice energético do continente. Ver essa visão transformar-se numa iniciativa concreta é algo que me dá uma enorme satisfação.
Também me orgulho do trabalho realizado para dar maior visibilidade aos países africanos de língua portuguesa e aproximá-los de investidores e parceiros internacionais, nomeadamente através do Fórum de Investimento da África Lusófona. No final, o que mais me satisfaz é ter contribuído para colocar temas como os Pequenos Estados, os países em situação de fragilidade, o acesso à energia, a criação de emprego e o investimento privado no centro do debate sobre o desenvolvimento de África.
Quando assumiu funções, qual era o maior desafio para os países africanos lusófonos e, olhando para hoje, o que mudou efetivamente?
O maior desafio continua a ser a criação de emprego. Quando cheguei ao Banco Mundial, era evidente que o crescimento económico, por si só, não estava a gerar oportunidades suficientes para uma população jovem em rápida expansão. Esse desafio mantém-se. O que mudou é que existe hoje uma maior consciência de que o emprego deve ser o principal indicador de sucesso das políticas públicas e dos investimentos. O Presidente do Banco Mundial tem insistido nesta mensagem: nos próximos 10 a 15 anos, cerca de 1,2 mil milhões de jovens entrarão no mercado de trabalho, mas poderão existir apenas cerca de 400 milhões de empregos disponíveis. Também temos assistido a avanços importantes. A reposição histórica de recursos da Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA), que reforça a capacidade do Grupo Banco Mundial de apoiar os países mais pobres e vulneráveis, o desenvolvimento de novos instrumentos de garantia para mobilizar investimento privado, iniciativas como a Missão 300 no sector da energia e uma maior coordenação entre as instituições de desenvolvimento são exemplos de esforços que procuram responder aos desafios do continente.
O Banco Mundial mobilizou milhares de milhões de dólares para projetos de desenvolvimento. Onde acredita que esse financiamento teve o maior impacto real na vida das pessoas?
O maior impacto acontece quando os investimentos chegam, efetivamente, à vida das pessoas. Vejo isso sobretudo nas áreas da energia, da agricultura, da educação, da saúde e da conectividade. Quando uma comunidade passa a ter acesso à eletricidade, quando uma estrada liga produtores aos mercados ou quando uma pequena empresa consegue financiamento para crescer, a diferença é sentida de imediato. Um bom exemplo é a Missão 300. Através desta iniciativa, 59 milhões de pessoas já ganharam acesso à eletricidade. Mais importante do que o número é a tendência: passámos de 12 milhões de novas ligações em 2024 para 18 milhões em 2025 e 29 milhões no último ano, demonstrando que é possível acelerar o acesso à energia quando existe uma visão clara e uma forte parceria entre governos, instituições de desenvolvimento e o setor privado. Ao longo do meu mandato, fiquei cada vez mais convencido de que o desenvolvimento não se mede pelo montante financiado, mas pelos resultados alcançados na vida das pessoas. É aí que o impacto se torna real.
Ao longo destes anos, qual foi a maior oportunidade perdida pelos PALOP?
Diria que o grande desafio dos PALOP tem sido transformar o potencial que existe nos nossos países em oportunidades concretas de desenvolvimento. Temos recursos naturais, uma população jovem, uma localização estratégica e sectores com elevado potencial, como o turismo, a agricultura, as pescas e a energia. África tem uma enorme riqueza em recursos naturais, mas continua a exportar uma parte significativa dessa riqueza sob a forma de matérias-primas, importando depos muitos dos produtos transformados. Precisamos de avançar para um modelo que permita acrescentar mais valor dentro dos nossos próprios países, desenvolvendo cadeias de valor locais, estimulando a indústria transformadora e criando oportunidades para o sector privado. O desafio é reforçar a nossa capacidade de transformar essas vantagens em valor acrescentado, atrair investimento privado, desenvolver o capital humano e criar mais ligações entre as nossas economias. Se conseguirmos processar mais, transformar mais e exportar produtos com maior valor acrescentado, estaremos também a criar mais emprego, conhecimento e oportunidades para os nossos jovens. Mais do que olhar para o que ficou por fazer, importa concentrarmo-nos naquilo que ainda podemos construir em conjunto e na forma como podemos transformar o enorme potencial dos PALOP numa base mais sólida, diversificada e sustentável de crescimento económico.
Tem defendido que o verdadeiro sucesso dos investimentos deve ser medido pela criação de emprego. Se aplicarmos esse critério, que nota atribui ao progresso de África nos últimos anos?
Acredito que devemos olhar para esta questão não apenas em termos de números ou de uma classificação, mas sobretudo pelo impacto que os investimentos estão a gerar na vida das pessoas. Nos últimos anos, África tem registado avanços importantes. Temos assistido a um maior envolvimento do sector privado, a novos investimentos em infraestruturas, energia, agricultura, turismo e tecnologia, bem como a esforços para reforçar a integração regional e diversificar as economias. Mas há uma dimensão que deve estar sempre no centro desta transformação: a capacidade de estes investimentos gerarem emprego, desenvolverem competências e criarem oportunidades, sobretudo para os jovens. O continente tem uma população jovem e dinâmica, que representa um enorme potencial, mas também exige uma resposta à altura em termos de oportunidades económicas. Por isso, mais do que atribuir uma nota ao progresso de África, diria que estamos a construir bases importantes. O desafio agora é acelerar este processo, mobilizar mais investimento privado e garantir que o crescimento económico se traduza em mais empregos, melhores condições de vida e oportunidades mais inclusivas para as nossas populações.

Qual dos países africanos de língua portuguesa o surpreendeu mais positivamente durante o seu mandato e porquê?
Cada país tem a sua própria realidade e seria difícil destacar apenas um. O que me impressionou foi a evolução que observei em vários países e as oportunidades que se abriram durante estes anos. Cabo Verde é um bom exemplo. Quando iniciei o meu mandato no Banco Mundial, a IFC não tinha qualquer investimento no país. Hoje, o seu portfólio aproxima-se dos 500 milhões de dólares. Isso demonstra que mesmo um pequeno Estado insular pode atrair investimento significativo quando existem instituições sólidas, estabilidade e uma visão clara para o futuro. Angola também merece destaque. O Corredor do Lobito tem o potencial de mudar a forma como olhamos para a integração regional e a logística em África. Mais do que uma infraestrutura de transporte, pode tornar-se um verdadeiro corredor económico, capaz de dinamizar a agricultura, a indústria, o comércio e a criação de emprego em toda a região. Moçambique recebeu mais de 700 milhões de dólares de investimento da IFC, com forte incidência no setor da energia. Continua a ser um dos países com maior potencial de crescimento em África, não apenas pelos seus recursos naturais, mas também pelo enorme potencial turístico. Na Guiné-Bissau, acredito que o futuro passa pela agricultura, pela transformação local e pela criação de cadeias de valor que permitam reter mais riqueza no país. Ao mesmo tempo, vejo oportunidades muito promissoras no turismo e na economia azul, setores que continuam subaproveitados. Na Guiné Equatorial, a grande prioridade passa pela diversificação económica. O país dispõe de recursos e infraestruturas importantes, mas o desafio é criar novas fontes de crescimento que reduzam a dependência do setor petrolífero e criem mais oportunidades para os jovens. Em São Tomé e Príncipe, vejo um enorme potencial em áreas como o turismo sustentável, a agricultura de nicho e a economia azul. O país tem ativos únicos que podem gerar crescimento inclusivo se forem acompanhados pelas políticas e pelos investimentos adequados. Por isso, mais do que destacar um único país, prefiro dizer que saio do Banco Mundial mais otimista em relação ao potencial dos países africanos de língua portuguesa. Todos têm desafios, mas todos têm também oportunidades reais para acelerar o seu desenvolvimento e atrair mais investimento nos próximos anos.
O que continua a afastar investidores internacionais de mercados como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau ou São Tomé e Príncipe, apesar do enorme potencial que todos reconhecem?
Não é a falta de capital. O capital existe e procura oportunidades de investimento em todo o mundo. O desafio está na confiança. Os investidores precisam de previsibilidade, regras claras e instituições credíveis. Precisam de saber que os contratos serão respeitados e que conseguem planear a longo prazo. Nalguns casos, persistem questões relacionadas com a burocracia, os riscos cambiais, a lentidão dos processos ou a falta de projetos suficientemente preparados para investimento. Além disso, continua a existir uma tendência para olhar para África como um bloco único, quando a realidade é muito mais diversa. Cada país deve ser avaliado pelos seus próprios méritos.
Costuma dizer que o capital existe, mas que é preciso criar confiança para o atrair. Qual foi a reforma mais transformadora que viu ser implementada num país africano?
As reformas mais transformadoras são, quase sempre, aquelas que fortalecem as instituições. Ao longo do meu mandato, vi vários exemplos positivos. Mas uma das áreas que mais me chamou a atenção foi a reforma do setor energético em alguns países africanos. Quando existem reguladores independentes, regras transparentes e responsabilidades bem definidas, os investidores ganham confiança e os investimentos tornam-se mais viáveis. Aprendi que os investidores valorizam tanto a previsibilidade como os incentivos financeiros. É essa confiança que, muitas vezes, faz a diferença entre um investimento avançar ou não.
Recentemente, anunciou a ambição de mobilizar 23 mil milhões de dólares de capital privado para África até 2030. O que precisa de acontecer para que essa meta deixe de ser uma ambição e se torne realidade?
Sim, essa era a ambição, mas a boa notícia é que já estamos a ver resultados muito encorajadores. O Grupo Banco Mundial mobilizou cerca de 21 mil milhões de dólares de capital privado apenas este ano, um valor 2,5 vezes superior ao registado há três anos. Isso demonstra que, quando existem os instrumentos certos e um compromisso claro, é possível acelerar significativamente a mobilização de investimento privado para África. Mas, para transformar esta ambição numa realidade sustentável e duradoura, precisamos de continuar a trabalhar em várias frentes. Em primeiro lugar, é essencial aumentar o número de projetos bem preparados e prontos para investimento. O capital existe, mas precisa de encontrar oportunidades sólidas, escaláveis e financeiramente viáveis. Em segundo lugar, é necessário continuar a utilizar garantias, mecanismos de partilha de risco e soluções de financiamento inovadoras para reduzir os riscos que ainda afastam muitos investidores. Em terceiro lugar, os países têm de prosseguir as reformas que reforçam a confiança dos investidores, incluindo maior previsibilidade regulatória, um ambiente de negócios mais favorável, sistemas judiciais credíveis e maior transparência. Por último, acredito que África deve apostar cada vez mais em projetos regionais e em corredores económicos que permitam criar escala, integrar mercados e gerar oportunidades para milhões de pessoas. O Corredor do Lobito é um excelente exemplo de como uma infraestrutura pode tornar-se um motor de comércio, investimento, industrialização e criação de emprego em toda uma região. Se conseguirmos combinar boas políticas, projetos de qualidade, instrumentos de mitigação de risco e uma execução eficaz, acredito que não só alcançaremos esta meta, como poderemos superá-la. O que mais me deixa otimista é que os resultados já começaram a aparecer.
Se pudesse deixar uma única mensagem aos próximos líderes africanos, ministros das finanças e responsáveis pela captação de investimento, qual seria?
A minha mensagem seria simples: coloquem a criação de emprego no centro de todas as decisões. Perguntem sempre: esta política cria emprego? Este investimento cria emprego? Esta reforma melhora as oportunidades para os jovens? África tem uma população jovem, recursos abundantes, uma enorme capacidade empreendedora e um mercado em crescimento. Mas o nosso sucesso será medido pela capacidade de transformar esse potencial em oportunidades reais para as pessoas. No final, desenvolvimento não é apenas sobre números, taxas de crescimento ou montantes de financiamento. É sobre dignidade. E poucas coisas dão mais dignidade do que um emprego
O que nos pode dizer sobre o seu futuro profissional?
Ainda não tomei uma decisão definitiva sobre os meus próximos passos profissionais, mas espero fazê-lo em breve. Nesta fase, quero também reservar algum tempo para a minha família. Ao mesmo tempo, estou a explorar algumas oportunidades interessantes, sobretudo nos sectores privado e tecnológico, que me permitiriam continuar ligado a áreas pelas quais tenho particular interesse, como o desenvolvimento, a inovação e a transformação económica. Uma coisa, porém, é certa: África continuará a estar no centro daquilo que farei a seguir. Ao longo da minha carreira, procurei sempre construir pontes entre ideias, investimento e oportunidades. Independentemente da organização ou do sector em que venha a trabalhar, quero continuar a contribuir para aproximar África das melhores soluções, promover parcerias e criar mais oportunidades para as próximas gerações. Porque, no final, mudar de função não significa mudar de missão. E essa missão continuará a ser a mesma: contribuir para um futuro com mais oportunidades para África e para os africanos.




