Mais de 2,6 milhões de moçambicanos, correspondentes a 66,3% da população afectada pela crise humanitária no país, estão expostos a riscos de protecção, com Cabo Delgado a registar a situação mais preocupante, segundo o relatório.
O documento, elaborado pelo Global Protection Cluster (GPC), mecanismo internacional de coordenação humanitária liderado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), indica que 10 dos 19 distritos moçambicanos avaliados, equivalentes a 53%, são considerados focos críticos de protecção, devido à ocorrência simultânea de vários riscos severos ou extremos para a população civil.
A província de Cabo Delgado, no norte do país, surge como a principal área de preocupação, seguindo-se algumas zonas da província de Nampula. Nos distritos classificados como focos críticos, foram identificados, em média, 9,7 riscos severos ou extremos em simultâneo, um dos valores mais elevados entre as áreas analisadas pelo mecanismo humanitário.
Entre os principais problemas identificados estão as restrições à liberdade de circulação, a deslocação forçada, os raptos, os desaparecimentos, as detenções arbitrárias e os ataques contra civis. O sofrimento psicológico e emocional também figura entre os riscos frequentes, sendo reportado em 90% dos distritos classificados como focos críticos.
O relatório alerta igualmente para a persistência da violência baseada no género e dos casamentos prematuros ou forçados, com particular incidência em Cabo Delgado. Segundo o documento, a deslocação das famílias, a interrupção da educação, a perda dos meios de subsistência e a pressão económica aumentam a vulnerabilidade das raparigas a uniões precoces.
A situação é agravada pelas dificuldades de financiamento da resposta humanitária. As organizações responsáveis pelo relatório consideram que a redução dos recursos disponíveis limita a capacidade de prevenir riscos, proteger as populações vulneráveis e prestar assistência às comunidades afectadas.
Apesar dos constrangimentos, as organizações humanitárias reportaram ter alcançado 436.571 pessoas em Moçambique com serviços de protecção. Outras 280.308 pessoas foram abrangidas por acções de informação e sensibilização, enquanto 112.609 beneficiaram de actividades de monitorização e análise de protecção. Além disso, 17.205 pessoas tiveram acesso a espaços seguros e outros mecanismos especializados de apoio.
Perante este cenário, o relatório defende o reforço do financiamento humanitário, com recursos adequados, flexíveis e previsíveis, bem como o apoio aos actores locais que trabalham directamente com as comunidades.
O documento integra uma análise internacional sobre os riscos de protecção em 22 países afectados por crises humanitárias e sublinha a necessidade de respostas coordenadas para salvaguardar a segurança, os direitos e a dignidade das populações.





