“Nós africanos não assumimos o poder que existe em nós”, diz Graça Machel

A activista moçambicana dos direitos humanos Graça Machel defendeu, esta quinta-feira, em Luanda, que o maior desafio do continente africano reside na incapacidade de os próprios africanos assumirem plenamente o poder que detêm, uma questão que, sublinhou, está intrinsecamente ligada à qualidade da liderança. Intervindo na primeira edição do The Chairman’s Talk, promovido pelo Grupo…
ebenhack/AP
A partir de Luanda, Graça Machel lançou um apelo claro: África precisa assumir o controlo do seu destino. Num discurso firme, na 1.ª edição do The Chairman’s Talk, a activista defendeu uma liderança mais consciente, capaz de reposicionar o continente no equilíbrio global.
Líderes

A activista moçambicana dos direitos humanos Graça Machel defendeu, esta quinta-feira, em Luanda, que o maior desafio do continente africano reside na incapacidade de os próprios africanos assumirem plenamente o poder que detêm, uma questão que, sublinhou, está intrinsecamente ligada à qualidade da liderança.

Intervindo na primeira edição do The Chairman’s Talk, promovido pelo Grupo Emerald Angola e conduzida pelo seu fundador, Machel enfatizou que a transformação estrutural de África exige uma liderança afirmativa, capaz de reposicionar o continente no equilíbrio global de poder. “Somos nós, e mais ninguém, que devemos liderar a transformação das nossas realidades”, afirmou, defendendo uma mudança de paradigma na forma como África se posiciona perante o mundo.

Num discurso marcado por forte carga simbólica e estratégica, a antiga primeira-dama de Moçambique e da África do Sul alertou para aquilo que considera ser uma “fragilidade persistente”: a tendência de muitos africanos aceitarem narrativas externas que os colocam numa posição de inferioridade. Para Graça Machel, essa postura compromete a capacidade de autodeterminação e perpetua relações desequilibradas, tanto no plano político como económico.

A liderança exigida na actualidade, argumentou, passa por uma afirmação inequívoca de capacidade e soberania. “Tenho o direito de determinar como os outros devem olhar para mim e como os meus recursos devem ser utilizados”, declarou, reconhecendo, contudo, que o continente ainda não consolidou plenamente essa posição.

Num contexto global cada vez mais competitivo e interdependente, Machel defendeu que África reúne condições para assumir um papel mais assertivo, incluindo na definição das regras do jogo económico. “Temos recursos e inteligência para estabelecer as nossas próprias condições”, sublinhou, numa referência directa à necessidade de maior controlo africano sobre os seus activos estratégicos.

O encontro insere-se numa nova plataforma de diálogo lançada pelo Grupo Emerald, que visa promover conversas de alto nível sobre liderança, negócios e geoestratégia. Para esta primeira edição, o CEO N’gunu Tiny destacou a escolha de Graça Machel como reflexo do seu percurso global e da sua capacidade de inspirar novas gerações, em particular mulheres e jovens líderes.

“Queremos criar um espaço onde experiências transformadoras possam ser partilhadas com quem está a construir o futuro”, afirmou, sublinhando a ambição de internacionalização da iniciativa, com próximas sessões previstas em cidades como Londres e Lisboa.

A próxima edição do fórum, agendada para Maio, contará com a participação de Durão Barroso, actual presidente não-executivo do Goldman Sachs International, que deverá trazer uma leitura geoestratégica sobre as dinâmicas de um mundo em rápida transformação.

Mais Artigos