Opinião

O impacto sócio-económico de investimentos em infra-estruturas de saúde

Manuel Mamboza

Quando ouvimos ou lemos que Angola passou de 2.612 unidades sanitárias em 2017 para 3.355 no primeiro semestre de 2025 e que a capacidade de internamento ronda actualmente as 44.000 camas hospitalares, percebemos de imediato a dimensão do investimento realizado no sector da saúde nos últimos anos. No entanto, para mim, a questão mais relevante não está nos números. Está no que estes investimentos representam para quem já não precisa de percorrer centenas de quilómetros para ter acesso a uma consulta, a um exame ou a um tratamento.

É por isso que falar de saúde é também falar de desenvolvimento, progresso e qualidade de vida. Dificilmente um país consegue aumentar de forma sustentável a sua produtividade ou acelerar o seu crescimento económico se uma parte significativa da população continuar sem acesso aos cuidados básicos de saúde. Torna-se difícil discutir inovação, transformação digital ou inteligência artificial quando persistem dificuldades no acesso a serviços essenciais.

Nos últimos anos, Angola assumiu o compromisso de reforçar e modernizar o Sistema Nacional de Saúde através da construção, ampliação e requalificação de infra-estruturas hospitalares. Registaram-se avanços relevantes: mais unidades sanitárias, maior capacidade de internamento e uma cobertura territorial mais abrangente. Naturalmente, continuam a existir desafios importantes, mas importa reconhecer os avanços alcançados e o contributo que estes podem dar para a melhoria da vida dos cidadãos.

Existe, contudo, uma dimensão deste investimento que é menos abordada. Quando um hospital é inaugurado, a atenção recai frequentemente sobre a dimensão da obra, os equipamentos instalados ou a capacidade assistencial. É dada menor atenção ao impacto económico e social que pode ser gerado muito antes da abertura das portas. A construção de uma unidade hospitalar pode dinamizar o comércio local, criar oportunidades de emprego, estimular a produção nacional e gerar rendimento para numerosas famílias. Em muitas localidades, estes projectos podem tornar-se importantes motores de desenvolvimento, com efeitos que podem perdurar para além da conclusão da obra.

“Dificilmente um país consegue aumentar de forma sustentável a sua produtividade ou acelerar o seu crescimento económico se uma parte significativa da população continuar sem acesso aos cuidados básicos de saúde.”

Ao longo dos últimos anos, no exercício das minhas funções no Grupo OMATAPALO, tenho acompanhado de perto diversos investimentos relevantes realizados no sector da saúde e o trabalho desenvolvido por várias empresas nacionais na construção destas infra-estruturas. Esta experiência tem-me permitido conhecer, de forma directa, os desafios associados à execução de empreendimentos hospitalares de elevada complexidade, nos quais a capacidade de execução e o rigor técnico assumem particular importância.

Mas a principal lição destes investimentos vai muito além da engenharia e da construção. Quando um hospital abre portas, não se inaugura apenas um edifício. Criar-se capacidade de resposta às necessidades da população e reforçar-se a confiança dos cidadãos nas instituições.

Importa igualmente reconhecer que uma infra-estrutura moderna, por si só, não resolve todos os desafios do sector. A qualidade dos cuidados prestados depende, em grande medida, das pessoas que nela trabalham. Neste domínio, têm sido registados avanços importantes. Entre 2017 e 2024, o sector integrou mais de 46.000 novos profissionais e assistiu à expansão da formação médica especializada e da formação técnica. Muitas unidades hospitalares assumem hoje, simultaneamente, uma função assistencial e de formação, contribuindo para a qualificação dos recursos humanos. Sem médicos, enfermeiros, técnicos e gestores competentes, o investimento corre o risco de ficar aquém do seu potencial.

Outra reflexão que considero particularmente relevante prende-se com a crescente capacidade do país para responder a casos clínicos complexos em áreas como a cardiologia, a oncologia, a hemodiálise, a saúde materno-infantil ou o tratamento de queimaduras graves. Para milhares de famílias, isto pode significar ter acesso a cuidados diferenciados dentro do país, reduzindo deslocações dispendiosas e a necessidade de evacuações médicas para o exterior.

É nestes momentos que percebemos que o valor das infra-estruturas de saúde não deve medir-se apenas pelo seu tamanho ou pelo montante investido. Deve medir-se também pela segurança que pode proporcionar, pela proximidade, pelas vidas que ajudam a salvar e pela esperança que devolve às comunidades. Evidentemente, continuam a existir constrangimentos e as expectativas dos cidadãos são hoje mais elevadas. Mas isso pode ser entendido como o sinal de uma sociedade que exige serviços progressivamente melhores.

O objectivo deve continuar a ser claro: garantir que todos os cidadãos, independentemente da sua localização geográfica ou condição social, tenham acesso a cuidados de saúde dignos e de qualidade. Porque, no final, não estamos apenas a falar de hospitais, equipamentos ou estatísticas. Estamos a falar de saúde, bem-estar e dignidade humana. Estamos a falar da capacidade de cada pessoa estudar, trabalhar, criar uma família e contribuir activamente para o desenvolvimento do país.

Em suma, investir em saúde é muito mais do que construir infra-estruturas. É também contribuir para criar oportunidades, reduzir desigualdades e fortalecer as bases para um futuro mais inclusivo, mais justo e mais próspero para todos.

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