Opinião

O silêncio que custa milhões

Mário Pinto

A comunicação corporativa deixou, há muito, de ser uma função meramente acessória das organizações, para se tornar estratégica. Organizações que compreendem essa mudança investem em políticas de transparência, diálogo e proximidade com os seus públicos. Já aquelas que optam pelo silêncio, sobretudo em momentos de crise, pagam um preço elevado, não apenas em termos de reputação, mas também de sustentabilidade económica. O silêncio corporativo, em muitos casos, longe de proteger, fragiliza.

Fombrun e Van Riel (2004) defendem que a reputação é um dos activos intangíveis mais valiosos das organizações. Trata-se de um capital simbólico que influencia directamente a atratividade perante investidores, consumidores e parceiros. A perda desse capital, provocada pela ausência de comunicação clara e tempestiva, traduz-se inevitavelmente em perda financeira. Quando uma organização não responde de forma assertiva e transparente a uma situação adversa, permite que a especulação se torne narrativa dominante, comprometendo a confiança construída ao longo de anos.

É frequente que alguns gestores ainda acreditam que “menos comunicação significa menos risco”. Contudo, Coombs (2015), na sua teoria de gestão de crises, demonstra que a omissão informativa abre espaço para rumores e amplia a crise reputacional. Numa era em que as redes sociais amplificam qualquer silêncio institucional, não comunicar é, em si, uma forma de comunicar: transmite descuido, insegurança, ausencia de preparo ou até culpabilidade.

Os custos dessa estratégia ultrapassam o campo reputacional. Organização que perdem confiança vêem os seus activos desvalorizados, enfrentam maior dificuldade em atrair capital e sofrem desgaste no relacionamento com os públicos. Em sectores expostos, como o financeiro, a política ou outros, o impacto pode traduzir-se em perdas imediatas de contratos, fuga de investidores e sanções regulatórias. O silêncio, nestes casos, converte-se em milhões desperdiçados.

“Numa era em que as redes sociais amplificam qualquer silêncio institucional, não comunicar é, em si, uma forma de comunicar: transmite descuido, insegurança, ausencia de preparo ou até culpabilidade.”

Outro ponto crítico é que a comunicação corporativa não deve ser pensada apenas de forma reactiva. Quando ela se limita a surgir apenas nos momentos de crise, a organização revela vulnerabilidade estrutural. A ausência de uma narrativa sólida e constante impede que o público construa referências positivas capazes de sustentar a organização em períodos de turbulência. Em contrapartida, organizações que comunicam de forma consistente reduzem os impactos de crises pontuais, pois o público tende a confiar na credibilidade previamente acumulada.

Há ainda um efeito interno muitas vezes negligenciado. Organizações que não comunicam adequadamente com os seus colaboradores geram desinformação dentro de casa. Esse vazio é facilmente preenchido por boatos, que acabam por transbordar para o espaço público, agravando a crise externa. Uma comunicação interna estruturada e transparente não só fortalece o engajamento  como actua como barreira protetora da reputação corporativa.

A resposta a esse cenário passa por uma mudança de paradigma. A comunicação não deve ser vista como mera função técnica, mas como parte integrante da estratégia organizacional. Isso exige investimento em departamentos especializados, capacitação contínua de gestores e, sobretudo, a compreensão de que confiança e credibilidade são activos que se constroem diariamente. A transparência não elimina os riscos, mas reduz significativamente os danos de crises inevitáveis.

O silêncio que custa milhões é a consequência de uma visão ultrapassada da comunicação organizacional. No contexto actual, marcado pela velocidade da informação e pela vigilância permanente dos públicos, a omissão não é sinónimo de prudência, sobretudo quando não há estratégia. Pelo contrário, é a escolha mais cara e mais perigosa que uma organização pode fazer.

Artigos Relacionados