A escolha de Saurimo como uma das etapas centrais da visita de Papa Leão XIV a Angola introduz uma leitura que ultrapassa o simbolismo religioso, ao projectar para o debate público as assimetrias históricas que marcam o desenvolvimento do país. Pela primeira vez, um líder da Igreja Católica desloca-se à capital da Lunda Sul, região frequentemente descrita como a menos evangelizada e uma das mais periféricas em termos socioeconómicos.
A chegada do pontífice ao aeroporto Deolinda Rodrigues, na manhã desta Segunda-feira, marca o ponto alto de uma agenda que, mais do que pastoral, assume contornos de intervenção simbólica num território caracterizado por fortes contrastes. Apesar da abundância de recursos naturais – com destaque para os diamantes –, o Leste angolano continua a registar indicadores elevados de pobreza, desemprego e analfabetismo, numa realidade que tem sido alvo recorrente de críticas e denúncias.
O programa em Saurimo inclui visitas a uma instituição de apoio a idosos, passagem pela Sé Catedral e a celebração de uma missa campal, momentos que reforçam a dimensão social e comunitária da presença papal. Para António Francisco Jaca, responsável pela comunicação da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, esta deslocação constitui “um gesto muito importante”, sublinhando o carácter tardio da evangelização naquela região face ao Norte, Centro e Sul do país, onde a presença missionária remonta ao século XV.
A inclusão de Saurimo no itinerário não surge, contudo, dissociada de factores institucionais. A cidade é sede da arquidiocese liderada por D. Manuel Imbamba, também presidente da CEAST, o que reforça o seu peso no actual momento da Igreja em Angola. Ainda assim, o impacto da visita tende a ultrapassar a esfera eclesiástica, ao reposicionar o Leste no centro das atenções nacionais e internacionais.
Antes da deslocação à Lunda Sul, o Papa cumpriu uma agenda intensa em Luanda, com encontros institucionais e celebrações religiosas de grande escala, incluindo uma missa na Centralidade do Kilamba e outra no Santuário da Muxima, um dos principais centros de peregrinação da África Subsaariana. A passagem por estas duas realidades – urbana e espiritual – antecipou o contraste que ganha maior expressão no Leste do país.
O regresso a Luanda, previsto para o início da tarde de hoje, antecede o último compromisso da visita: um encontro com bispos e religiosos. Na manhã seguinte, o Papa seguirá para Malabo, encerrando uma digressão africana que inclui ainda Argélia e Camarões.
Mais do que um gesto pastoral, a presença de Leão XIV em Saurimo reabre a discussão sobre o modelo de desenvolvimento angolano e a persistência de desigualdades regionais, num país onde a geografia dos recursos nem sempre coincide com a geografia do progresso.





