A banca angolana registou resultados líquidos agregados de um bilião de kwanzas (1.083 milhões de dólares) em 2025, um crescimento de 23% face ao ano anterior, consolidando um dos períodos mais rentáveis dos últimos anos.
O desempenho foi liderado pelo Banco Angolano de Investimentos (BAI), que recuperou a liderança do sector, segundo o estudo Banca em Análise 2026, da Deloitte Angola.
O BAI alcançou resultados líquidos de 295.682 milhões de kwanzas (320,3 milhões de dólares), ultrapassando o Banco de Fomento Angola (BFA), que registou 230.622 milhões de kwanzas (249,8 milhões de dólares) e havia liderado o ranking nos dois anos anteriores. O Standard Bank de Angola (SBA) ocupou a terceira posição, seguido pelo Banco Keve e pelo Banco de Comércio e Indústria (BCI).
Os dados revelam igualmente um elevado grau de concentração no sistema financeiro nacional: os cinco maiores bancos foram responsáveis por cerca de 78% dos lucros totais do sector, reforçando o peso das principais instituições no mercado.
Segundo a Deloitte, o crescimento dos resultados foi sustentado sobretudo pela expansão da margem financeira, da margem complementar e dos ganhos cambiais, que ascenderam a 429.265 milhões de kwanzas (pouco mais que 465 milhões de dólares). A evolução reflecte o aumento das operações de financiamento ao comércio externo, das transacções cambiais e da venda de divisas num contexto de maior dinamismo da actividade financeira.
O estudo, apresentado nesta Quinta-feira, 18 de Junho, em Luanda, analisou os 21 bancos em actividade no país durante 2025, menos um do que no ano anterior, na sequência da dissolução voluntária do Banco VTB África. A Deloitte esclarece ainda que o relatório não inclui informação financeira do Access Bank Angola nem do Banco de Negócios Internacional (BNI), por ausência de publicação das respectivas contas dentro dos prazos legais.
Banco Económico regressa aos lucros, 4 anos depois
Entre os destaques do exercício, o Banco Económico regressou aos lucros pela primeira vez desde 2021, enquanto o Banco Sol permaneceu como a única instituição a reportar prejuízos, registando um resultado negativo de 5.405 milhões de kwanzas (5,8 milhões de dólares), no âmbito do processo de recapitalização e reestruturação em curso.
Já o Banco de Poupança e Crédito (BPC) caiu da quarta para a 20.ª posição do ranking de rentabilidade, uma evolução que o estudo associa ao impacto de reversões de imparidades consideradas não recorrentes.
No crédito à economia, os sinais foram positivos. O volume líquido de crédito concedido a clientes cresceu 23,3%, para 7,08 biliões de kwanzas (7,5 mil milhões de dólares), superando a média anual dos últimos cinco anos, fixada em 18,7%. O rácio de transformação dos depósitos em crédito subiu para 36,3%, mais 4,3 pontos percentuais (pp) do que em 2024.
Apesar da melhoria, a Deloitte alerta para uma das principais fragilidades estruturais do sistema financeiro angolano: a reduzida capacidade de financiamento da economia. O rácio crédito/PIB situa-se em apenas 7,83%, muito abaixo dos cerca de 56% registados em Portugal e dos 67% observados na África do Sul.
A qualidade dos activos também apresentou melhorias, com o rácio de crédito vencido a recuar de 20,2% para 18%. Ainda assim, o estudo adverte que o forte crescimento da carteira de crédito poderá estar a produzir um efeito estatístico de diluição deste indicador, recomendando prudência na sua interpretação.
Embora os lucros tenham atingido níveis recorde e a digitalização continue a acelerar, o dado mais relevante do estudo é que o crédito representa apenas 7,83% do PIB
Ao nível da solidez financeira, os bancos continuam confortavelmente acima dos requisitos regulamentares. O rácio de fundos próprios regulamentares atingiu 23,2%, mais 2,3 pontos percentuais do que em 2024 e quase três vezes superior ao mínimo exigido pelo regulador.
Os activos totais do sector cresceram 11,5%, para 26,32 biliões de kwanzas (28,2 mil milhões de dólares). O crédito passou a representar 27% dos activos totais, mais três pp do que no ano anterior, enquanto os títulos e valores mobiliários continuaram a concentrar a maior parcela, representando 35% do total.
Ainda assim, o presidente da Deloitte Angola salientou, durante a apresentação do documento, que o peso dos activos bancários na economia continua reduzido quando comparado com mercados africanos de maior dimensão, como a Nigéria e a África do Sul, evidenciando o potencial de crescimento ainda existente para o sector.
Mercado de Capitais avança
O relatório destaca igualmente o fortalecimento do mercado de capitais angolano. Em 2025, a capitalização bolsista da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (Bodiva) ultrapassou pela primeira vez os quatro biliões de kwanzas (4,3 mil milhões de dólares), registando um crescimento homólogo de 202%. Actualmente, cinco empresas encontram-se cotadas em bolsa, nomeadamente o BAI, Banco Caixa Geral Angola, ENSA, Bodiva e BFA.
A oferta pública inicial do BFA constituiu a maior operação alguma vez realizada no mercado de capitais angolano, mobilizando cerca de 220.900 milhões de kwanzas (339,3 milhões de dólares). Para 2026, as atenções dos investidores estarão voltadas para as previstas entradas em bolsa da Unitel e do SBA, no âmbito do Programa de Privatizações.
A digitalização continuou igualmente a transformar o sector. O Multicaixa Express passou a concentrar 60% de todas as operações realizadas na rede Multicaixa, enquanto o sistema KwiK – Kwanza Instantâneo processou cerca de 35 milhões de transferências instantâneas ao longo do ano.
De acordo com dados da Empresa Interbancária de Serviços (EMIS), o número de operações efectuadas através de meios electrónicos de pagamento aumentou aproximadamente 50% em 2025, ao passo que os montantes movimentados cresceram 31,5%.
A expansão dos canais alternativos de acesso aos serviços financeiros manteve-se igualmente expressiva. A rede de agentes de pagamento cresceu 63,4%, para 11.830 pontos, enquanto o número de agentes bancários aumentou 43%, para 7.043. Em contrapartida, continuou a verificar-se uma redução do número de agências físicas, reflectindo a crescente migração dos clientes para os canais digitais.
Do relatório da Deloitte pode-se depreender que, embora os lucros tenham atingido níveis recorde e a digitalização continue a acelerar, o dado mais relevante do estudo é que o crédito representa apenas 7,83% do PIB. Ou seja, a banca está cada vez mais rentável, mas continua a desempenhar um papel limitado no financiamento da economia real.





