A WEA – Cooperativa de Crédito, R.L., a primeira dedicada às mulheres empreendedoras em Angola, iniciou actividade com mais de 4.000 mulheres em lista de espera e um pipeline de pedidos de financiamento actualmente qualificado de cerca de 127 milhões Kz.
Apesar da procura já identificada, a instituição prevê começar com uma carteira indicativa entre 50 milhões e 250 milhões Kz em desembolsos, adoptando uma estratégia de crescimento gradual antes de aumentar a exposição ao crédito.
Sob a Autorização n.º 504 do Banco Nacional de Angola (BNA), a WEA iniciou formalmente as operações a 1 de Setembro, com uma proposta financeira concebida especificamente para mulheres empreendedoras, combinando crédito, poupança, protecção, educação financeira e inclusão digital.
Em entrevista exclusiva à FORBES ÁFRICA LUSÓFONA, concedida por ocasião do início da actividade da cooperativa, Maria Uini Baptista, fundadora e directora-geral da WEA, explicou que o investimento superior a 100 milhões Kz realizado na implementação da instituição não será integralmente destinado à concessão de crédito. O montante inclui instalações, tecnologia, sistemas de controlo, formação da equipa, capital de funcionamento e reservas de liquidez.
Segundo a CEO, a instituição pretende utilizar o primeiro ciclo de actividade para testar e aperfeiçoar o modelo de negócio. A evolução posterior dependerá do capital disponível, da liquidez e, sobretudo, do desempenho dos primeiros créditos. A meta de carteira para 2027 deverá ser definida no Plano de Capital e no orçamento anual.
A prudência é deliberada. Embora a WEA tenha já uma lista de espera com mais de 4.000 potenciais cooperadas, Maria Uini Baptista sublinha que esse número não corresponde a pedidos de crédito já analisados ou aprovados. Trata-se de manifestações de interesse em integrar a cooperativa, que terão ainda de passar por adesão, Know Your Customer (KYC) – processo para verificar e confirmar a identidade de seus clientes –, diagnóstico financeiro e avaliação da capacidade de pagamento.
Os montantes inicialmente identificados variam entre 50 mil e 25 milhões Kz, enquanto o pipeline actualmente qualificado, de aproximadamente 127 milhões Kz, representa valores solicitados e não financiamento aprovado. A WEA poderá ajustar montantes e prazos, aprovar ou recusar operações em função do perfil de risco e da capacidade efectiva de pagamento de cada cooperada.
A dimensão da procura, contudo, constitui um dos primeiros indicadores do espaço de mercado que a nova instituição pretende ocupar. A WEA parte de uma realidade em que milhares de mulheres desenvolvem actividades económicas, geram rendimento e emprego, mas continuam a enfrentar dificuldades no acesso a financiamento formal, instrumentos de poupança e conhecimento financeiro ajustado à dimensão dos seus negócios.
Crédito orientado para o negócio
O primeiro produto de crédito da cooperativa, o “WEA Levanta”, foi desenhado para responder a necessidades como capital de giro, reforço de stock, aquisição de equipamentos e expansão dos negócios. Os pedidos em análise situam-se entre 50 mil e 25 milhões Kz, com prazos que podem chegar aos 24 meses e prestações ajustadas, dentro do possível, ao ciclo financeiro de cada actividade.
As condições de financiamento serão determinadas em função do produto, do montante, do prazo, do perfil de risco e da capacidade de pagamento da cooperada. Nos primeiros processos, está a ser considerada uma cobertura por colateral de até 40% do montante solicitado, complementada pela análise dos fluxos financeiros do negócio.
Para Uini Baptista, uma das particularidades do modelo passa precisamente por não equiparar informalidade a ausência de actividade económica. Negócios sem histórico bancário podem apresentar vendas, clientes, fornecedores, stock e movimentos financeiros susceptíveis de avaliação.
É neste contexto que a WEA criou o “Caderno WEA 30 Dias”, ferramenta que permite à cooperada registar entradas, saídas, vendas e despesas, construindo uma visão simplificada do fluxo de caixa. A avaliação poderá incluir igualmente visitas ao negócio, análise da rotação de stock, comprovativos, movimentos bancários disponíveis, compromissos financeiros, orçamento familiar e sinais de sobre-endividamento, através daquilo que a cooperativa denomina red flags WEA.
Quando não existir informação financeira suficiente, a estratégia será começar com uma exposição menor e acompanhar a evolução da actividade antes de aumentar o limite de financiamento. É uma metodologia que procura reduzir a assimetria de informação típica do segmento e, simultaneamente, transformar o próprio processo de financiamento numa ferramenta de formalização e educação financeira, explica a gestora.

Crescer sem comprometer a carteira
A estratégia de expansão da WEA será, por isso, condicionada pela qualidade dos activos e não apenas pelo número de clientes ou pelo volume de crédito concedido. A instituição pretende chegar a 100 cooperadas activas até ao final de 2026 e 500 até ao final de 2027, metas que ficam deliberadamente aquém da procura actualmente identificada.
A CEO explica que as 500 cooperadas constituem uma meta operacional prudente para a primeira fase e não um limite ao crescimento da WEA. Cada nova cooperada exige adesão, KYC, diagnóstico, educação financeira e acompanhamento, o que obriga a que a expansão da carteira seja acompanhada pelo reforço do capital, da liquidez, dos sistemas e da equipa.
“Queremos que cada mulher que entra na WEA encontre mais do que uma solução financeira. Queremos que encontre conhecimento, ferramentas, conexões e condições para fazer o seu negócio crescer de forma sustentável”, afirma Uini Baptista. E deixa claro: “o nosso sucesso não será medido apenas pelo volume de crédito concedido, mas pela qualidade da carteira, pelo desempenho dos negócios e pelo impacto económico real criado pelas nossas cooperadas.”
A opção por crescer de forma faseada ganha particular relevância perante a dimensão da lista de espera. Em vez de converter rapidamente as manifestações de interesse em exposição de crédito, a cooperativa pretende primeiro construir uma base de cooperadas activas, acompanhar o comportamento dos primeiros créditos e reforçar os seus mecanismos de governação, liquidez, gestão de risco, controlo interno e conformidade.
O modelo representa uma tentativa de combinar inclusão financeira com disciplina de crédito, num segmento onde a falta de acesso a financiamento e a reduzida disponibilidade de informação financeira podem coexistir.
Para a WEA, a oportunidade não estará apenas em colocar capital no mercado, mas em criar condições para que esse capital seja convertido em negócios mais estruturados e sustentáveis.
Fundada por Maria Uini Baptista, profissional com mais de duas décadas de experiência no sistema financeiro angolano, em conjunto com as co-fundadoras Karina Barbosa, Anaína Lourenço e Lídia Capepe, empresárias e empreendedoras com percursos em diferentes sectores, a WEA inicia actividade com uma equipa de 20 colaboradores, constituída em proporção significativa por jovens angolanos.
Desde o último trimestre de 2025, estes profissionais têm beneficiado de formação direccionada para áreas como risco, crédito, jurídico, inteligência de negócio e operações, numa aposta no desenvolvimento de competências e na criação de uma nova geração de profissionais para o sector financeiro.
A WEA pretende, assim, posicionar-se para além da relação convencional entre credor e devedor. O objectivo declarado é construir uma comunidade financeira em que crédito, poupança, educação, tecnologia, networking e oportunidades de negócio funcionem de forma integrada, colocando a mulher empreendedora no centro do modelo cooperativo.
Com sede na Rua do Patriota, em Luanda, a instituição desenvolve a sua actividade ao abrigo do quadro legal aplicável às Sociedades Cooperativas de Crédito, nomeadamente o Decreto Presidencial n.º 91/23, de 5 de Abril de 2023.





