Guiné-Bissau garante novo financiamento do FMI apesar de falhas nas metas

O Fundo Monetário Internacional aprovou a conclusão da nona e décima revisões do programa de Linha de Crédito Ampliada (ECF) para a Guiné-Bissau, autorizando o desembolso imediato de cerca de 3,2 milhões de dólares, uma decisão que sinaliza renovada confiança na condução da política económica, apesar de incumprimentos recentes. Com esta tranche, o total desembolsado…
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Novo desembolso reforça liquidez, mas expõe fragilidades estruturais persistentes. Crescimento resiliente contrasta com desafios fiscais e pressões políticas no país.
Economia

O Fundo Monetário Internacional aprovou a conclusão da nona e décima revisões do programa de Linha de Crédito Ampliada (ECF) para a Guiné-Bissau, autorizando o desembolso imediato de cerca de 3,2 milhões de dólares, uma decisão que sinaliza renovada confiança na condução da política económica, apesar de incumprimentos recentes.

Com esta tranche, o total desembolsado no âmbito do acordo ascende a aproximadamente 50,8 milhões de dólares, revertendo a trajectória da avaliação anterior, que excluía novos desembolsos devido ao fraco cumprimento de metas fiscais e estruturais.

O desempenho do programa deteriorou-se desde a última revisão, em Junho de 2025, num contexto marcado por constrangimentos na execução orçamental e instabilidade política associada à mudança de Governo no final do ano. Na avaliação mais recente, várias metas voltaram a não ser atingidas. Ainda assim, o FMI considerou que as medidas correctivas adoptadas pelas autoridades são suficientes para retomar o apoio, sugerindo uma leitura pragmática por parte da instituição face ao contexto político e institucional do país.

Apesar destes desafios, os indicadores macroeconómicos revelam sinais de resiliência. A economia cresceu cerca de 5,5% em 2025, impulsionada pela forte produção de castanha de caju – principal produto de exportação –, enquanto a inflação desacelerou para 0,9%. A dívida pública recuou para aproximadamente 75,3% do PIB. Em contrapartida, o défice fiscal superou as metas estabelecidas, pressionado por uma arrecadação abaixo do esperado e pelo aumento dos encargos com juros.

No plano social e estrutural, o enquadramento apresenta uma evolução moderadamente positiva. A estabilidade dos preços, combinada com o crescimento económico, tem contribuído para mitigar a erosão do poder de compra, num contexto internacional ainda marcado por pressões inflacionistas. Paralelamente, reformas em curso, com destaque para os sectores energético e financeiro, apontam para melhorias no acesso a serviços essenciais e para o reforço da inclusão económica.

A expansão da conectividade eléctrica, aliada a iniciativas de reforço da transparência e da governação, tende a criar condições mais favoráveis à atracção de investimento privado. Neste contexto, destaca-se também a modernização de infra-estruturas estratégicas, como o Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, cuja operação poderá gerar cerca de 400 postos de trabalho, com impacto directo no emprego e na dinamização económica.

O Conselho Executivo do FMI aprovou ainda a prorrogação do programa até Dezembro de 2026, com foco na consolidação fiscal, reforço da arrecadação e maior controlo da despesa pública. Entre as prioridades figuram igualmente a recapitalização de uma instituição bancária fragilizada, a redução dos riscos fiscais no sector energético e o aprofundamento das reformas em matéria de transparência e governação.

Segundo o Fundo, embora persistam riscos significativos, nomeadamente ao nível político e da execução orçamental, a continuidade das reformas e o compromisso das autoridades poderão consolidar os ganhos recentes e sustentar uma trajectória de crescimento mais inclusivo e resiliente.

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