África concentra actualmente 99% das mortes por cólera a nível global e 59% dos casos registados, evidenciando uma crise sanitária persistente no continente, apesar de sinais recentes de abrandamento na propagação da doença, segundo dados divulgados pela União Africana.
Embora o número de infecções esteja a diminuir ou a estabilizar em vários países, o impacto continua desproporcionalmente elevado. Moçambique surge como o segundo país africano com maior número de casos, reforçando o peso da África Austral no actual quadro epidemiológico e sublinhando fragilidades estruturais nos sistemas de saúde e saneamento.
“Há uma melhoria na resposta à cólera, no número de casos que estamos a ver (…). Ao analisar a evolução de diferentes países, observa-se que a maioria dos casos está a diminuir ou a estabilizar”, afirmou Yap Boum, responsável adjunto de incidentes dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças de África (CDC África), durante uma conferência de imprensa online. Ainda assim, o especialista alertou: “o nosso objectivo é a eliminação da cólera”.
De acordo com os dados apresentados, África registou 30.940 casos de cólera desde o início do ano, menos de metade dos números verificados no mesmo período de 2025 (77.861), 2024 (70.677) e 2023 (84.918), o que indica uma trajectória descendente relevante, ainda que insuficiente para conter o impacto global da doença.
No que diz respeito à mortalidade, segundo a Lusa, foram contabilizadas 621 mortes, uma redução significativa face às 1.645 registadas no mesmo período de 2025. No entanto, a taxa de mortalidade mantém-se nos 2%, um nível considerado elevado, reflectindo desafios persistentes no acesso atempado a tratamento e na capacidade de resposta dos sistemas de saúde.
A concentração geográfica dos casos permanece um factor crítico: a República Democrática do Congo e Moçambique representam, em conjunto, 80% das infecções no continente este ano (59% e 21%, respectivamente). Mais preocupante ainda, a RDCongo responde, isoladamente, por 84% das mortes, evidenciando um foco epidemiológico de alto risco e a necessidade de intervenções direccionadas.
Este cenário reforça a urgência de investimentos estruturais em infra-estruturas de água, saneamento e saúde pública, áreas que continuam a condicionar não apenas a resposta à cólera, mas também a resiliência sanitária e o desenvolvimento económico sustentável em várias regiões africanas.





