Nilza Rodrigues

Há momentos que transcendem a agenda, o protocolo e até a própria racionalidade. Momentos em que a História não é apenas evocada, é… sentida. E quando isso acontece, quando somos tocados, estamos Superiormente convocados para uma Missão Maior. Aconteceu. Nós, Forbes África Lusófona juntámos três consciências, três lendas vivas de três lusofonias diferentes num mesmo espaço, contrariando o impossível, palavra que não corre na veia dos sonhadores.

Seria para falar sobre responsabilidade social. Mas o que aconteceu naquele palco, no dia 24 de Abril de 2026 para que fique registado como o Dia da Lusofonia, foi muito mais do que isso. Foi um apelo à memória, à coragem e ao futuro.

Foi emoção em estado puro.

Graça Machel falou com a autoridade de quem viveu a História e continua a construí-la. Mas não se ficou pela responsabilidade social, diminuiu-a para ir mais longe. Pediu investimento social. Compromisso real. Visão de longo prazo. Falou com a urgência de quem pensa no tempo como um recurso finito e deixou uma confissão que ecoou na sala: já pensa no dia em que fechará os olhos. (estremeci) Não como resignação, mas como responsabilidade. Como quem pergunta o que ficará depois. Como quem exige que não desperdicemos o legado que nos foi entregue.

Num dos momentos mais desarmantes da noite, Graça lançou uma pergunta que nos deixou a todos, inevitavelmente, desconfortáveis: o que fizeram vocês em 50 anos, depois daquilo que nós fizemos há 50 anos? A sala silenciou. Há perguntas que não se respondem com palavras, mas com consciência.

Pedro Pires trouxe a serenidade dos líderes que aprenderam com a luta, mas escolheram a paz. Com uma humildade rara, falou do essencial, aquilo de que a Humanidade não pode dispensar: a paz, a história, o planeta, o diálogo. E aquilo de que deve dispensar: a guerra. Citando Carl von Clausewitz, recordou-a como a continuação da política por outros meios. Mas, na sua voz, a frase soou como um alerta, não como uma inevitabilidade. Como um convite a escolhermos outro caminho.(esteemeci)

E depois, houve Geni. Maria Eugénia Neto. A viúva de Agostinho Neto. Presença discreta, digna, profundamente comovente. Graça chama-lhe irmã. E foi nesse registo de intimidade que partilhou o prémio com ela, símbolo de uma amizade construída na luta, na dor, na esperança.

Nesta noite memorável, não estiveram apenas três ex primeiras-damas (tambérm marcou presença Adélcia Barreto, a digníssima mulher de Pedro Pires) e um estadista. Ali estiveram décadas de história africana. Estiveram de mãos dadas a independência, o sonho, a construção de nações, a resiliência, a perda e a esperança. E também um espelho para as novas gerações. Um espelho gigante e exigente.

Saí desta edição, a quarta, dos Prémios Forbes Responsabilidade Social, sem palavras. Diria anestesiada. Entre o privilégio e a responsabilidade. Entre a inspiração e o desconforto. Porque ouvir quem fez tanto obriga-nos a perguntar se estamos à altura. Obriga-nos a repensar o significado de responsabilidade social. Não como gesto pontual, mas como compromisso estrutural. Não como narrativa, mas como acção.

Talvez seja esse o verdadeiro legado daquele encontro: lembrar-nos que o tempo passa, mas a responsabilidade permanece. Como diria N’Gunu Tiny, África será medida pelo seu impacto e não pelo seu lucro.

E, um dia, também nós seremos avaliados pelas perguntas que hoje ainda evitamos responder.

Nota: este editorial é escrito ao abrigo do acordo ortográfico da emoção

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